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    Dom Casmurro e os Discos Voadores -

    Lúcio Manfredi, Machado de Assis

    Lua de Papel
    2010
    264 páginas
    8h 48m
    ISBN-13: 9788563066305
    Português Brasileiro
    3.5
    282 avaliações
    Leram439Lendo17Querem427Relendo0Abandonos10Resenhas19
    Favoritos16Desejados427Avaliaram282

    A famosa personagem clássica Capitu, de Machado de Assis, tinha como principal característica os dissimulados olhos de ressaca. Nesta versão de Dom Casmurro escrita por Lúcio Manfredi, o mistério por trás dos olhos de Capitu vai além, está diretamente ligado ao mar. A trama romântica agora sofre a interferência de seres alienígenas e androides, disfarçados sob os personagens originais de Machado. Cabe ao leitor, identifi car quem é quem. Bentinho não está apenas envolvido no triângulo amoroso, mas numa disputa de forças intergalácticas. Um combate entre as evoluídas civilizações reptiliana e aquática, que habitam o planeta Terra há milhões de anos.

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    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa picture
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa22/09/2010Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Da Colagem à Recriação

    Mesmo sem ser o melhor exemplo, o epicentro da onda do mash-up literário é "Orgulho, Preconceito e Zumbis", de “Jane Austen e Seth- Grahame-Smith”, estadunidense que substituiu 15% do texto original do clássico de Jane Austen para transformá-lo em horror trash. A se acreditar na contracapa, o objetivo é “transformar esse clássico da literatura mundial em algo que você gostaria de ler”. Há quem goste, pois é um best seller internacional, será filmado por Hollywood e foi logo seguido por Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos. Como são obras de domínio público, Grahame-Smith não corre risco. A não ser o de a parceira involuntária, de tanto se revirar no túmulo, vir a se erguer dele para lhe aplicar um corretivo. Admiradores de Austen com mais razão e sensibilidade que senso de humor, como a autora e crítica S. J. Chambers, da "Fantasy Magazine", não contiveram a fúria: “Para quem busca um jeito de conhecer um clássico sem lê-lo de verdade, mais vale a Wikipédia. Pensei que os zumbis poderiam enfatizar os temas originais, mas o ridicularizam e Austen também nada faz pelos zumbis. É o que eu esperaria de um insolente de 15 anos. Nada une as duas partes disparatadas. Há uma quantidade surpreendente de piadas sobre peidos e vômitos e insinuações asininas sobre bolas e finos pacotes britânicos”. Ira sagrada à parte, essa brincadeira lembra Marcel Duchamp pintando bigodes na Gioconda. Ou pareceria, se a brincadeira se limitasse a um trecho ou capítulo. Ao se estender por todo o romance, perde a graça, como um moleque que não sabe quando parar de repetir a piada suja que acabou de aprender. A ânsia de autores e editores por emular esse sucesso gerou produtos nacionais. Pelo selo Lua de Papel da editora portuguesa Leya acabam de ser publicados "Dom Casmurro e Os Discos Voadores", de “Machado de Assis e Lúcio Manfredi”, "O Alienista Caçador de Mutantes", de “Machado de Assis e Natalia Klein”, "Senhora, a Bruxa", de “José de Alencar e Angélica Lopes” e "A Escrava Isaura e o Vampiro", de “Bernardo Guimarães e Jovane Nunes”. Pela Tarja Editorial temos "Memórias Desmortas de Brás Cubas", de Pedro Vieira, neste caso sem comprometer a reputação do bruxo do Cosme Velho. Com mais senso que a Leya, pois nenhuma dessas obras é um mash-up: são ficções alternativas. Valem-se de personagens e situações dos clássicos brasileiros, mas não do texto literal, citações à parte. É mais trabalhoso, mas abre mais espaço para a criatividade e evita a impressão de se querer profanar ou ridicularizar os clássicos por pura birra de adolescente irritado com a lição de casa. Soa mais como uma homenagem bem-humorada. Tentativas de reler ou parodiar "Dom Casmurro" geraram há tempos "O Amor de Capitu" (2001), do escritor e jornalista carioca Fernando Sabino; "Capitu, Memórias Póstumas" (1998), do professor de letras mineiro Domício Proença Filho; e "Enquanto Isso em Dom Casmurro" (1993), do seu colega catarinense José Endoença Martins. O primeiro recontou a história como narrador neutro, mas, ao se apoiar só no testemunho de Bentinho, só fez reforçar a tese da infidelidade – procedimento similar ao de jornais e revistas que gostam de alardear isenção para tentarem dar mais eficácia à sua parcialidade. O segundo, pelo contrário, parte do ponto de vista da esposa e a faz quase uma santa – o que é mais interessante, mas funcionaria melhor se não recorresse tanto a um anacrônico psicologuês de revista feminina dos anos 1990. O terceiro chutou o balde: Capitu, cansada do romance novecentista, pula do Rio antigo para a moderna Florianópolis, onde se torna uma negra lésbica e country. Ao menos, Lúcio Manfredi consegue sair da mais estéril e interminável polêmica da literatura brasileira para fazer perguntas mais criativas. Seria o metódico José Dias um robô? Seria a misteriosa Capitu uma alienígena? Não é spoiler: ambas as questões se põem nos primeiros capítulos. Essas e outras hipóteses esdrúxulas acabam por permitir interpretações alternativas, estranhamente plausíveis, de passagens equívocas de Machado – por exemplo, a razão pela qual Capitu se distrai olhando o mar quando Bentinho fala de Sírius (capítulo 106 do original e 87 da paródia). Não é a primeira vez que a ambiguidade do "Dom Casmurro" inspira hipóteses fantásticas: em artigo de 2002 na revista Galileu (citado em seu "Almanaque Machado de Assis"), o escritor Luiz Antonio Aguiar sugeriu que Bentinho podia ser um lobisomem, sem desenvolver a ideia. Talvez deva retomá-la antes que um aventureiro o faça. Segundo a revista Época, o incorrigível Grahame-Smith interessou-se: “Estou pensando em fazer um 'Dom Casmurro e Lobisomens'”. Também não é inédita a invasão de obras consagradas por alienígenas. Em "O Outro Diário de Phileas Fogg", obra de 1973 do estadunidense Philip José Farmer, eventos de "A Volta ao Mundo em 80 Dias" e de outros livros de Júlio Verne são também reinterpretados como lances de uma batalha secreta entre duas espécies alienígenas. Mas tire-se o chapéu à habilidade de Manfredi ao repetir a façanha com um romance sem conotações aventurescas. Infelizmente, não se conseguiu reter a sutileza de Machado. O caráter dos eventos e personagens é transformado para pasmar, não para instigar. Até por ser uma ficção alternativa e não um mash-up, pouco resta do estilo original. A reinterpretação das peripécias é por vezes bem engenhosa, mas a linguagem é a de romance de mistério juvenil, caindo mais do que precisaria no clichê e na reafirmação do óbvio, embora fuja do mau gosto de Grahame-Smith. Com certeza, este livro não “transforma o clássico em algo que você gostaria de ler” nem tem a menor serventia para quem “busca um jeito de conhecer um clássico sem lê-lo”. Ao contrário, há que conhecer o original para se divertir com a versão como se deve. O livro de Manfredi perderá metade da graça se o leitor nunca teve um contato imediato de terceiro grau com "Dom Casmurro". Perderá quase toda, se sequer fez um avistamento a distância por meio de resumos de vestibular, minisséries ou cinema: só restará um intrigante disparate. Talvez, por isso mesmo, faça sentir que é preciso ler ou reler o verdadeiro Machado.

    21 curtidas

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    • 2 estrelas9%
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    Lúcio Manfredi

    Lúcio Manfredi é escritor e roteirista de televisão, com contos publicados nas antologias Intempol (2000), Novelas, Espelhos & Um Pouco de Choro (2001), Como Era Gostosa a Minha Alienígena (2002), Histórias do Olhar (2003), Vinte Voltas ao Redor do Sol (2005), Dez Contos de Terror (2009), Paradigmas 3 (2009) e Galeria do Sobrenatural (2009). Seu primeiro romance, Dom Casmurro e os Discos Voadores, foi publicado pela Ed. Leya em 2010. Para a tevê, escreveu dois episódios da série Brava Gente (As Aventuras de Chico Norato Contra o Boto Vingativo e a adaptação de Bilac Vê Estrelas, de Ruy Castro). Foi colaborador das minisséries A Casa das Sete Mulheres, de Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão, e Um Só Coração, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira. Integrou ainda a equipe das novelas Como Uma Onda, de Walther Negrão, e Ciranda de Pedra, de Alcides Nogueira.

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    São Paulo, Brasil

    Lúcio Manfredi