Na sinopse do livro, já somos alertados de que os contos possivelmente contêm um pedacinho da autora, cabe a nós decifrá-los. E nessa intrigante adivinhação, acabamos nos identificando em sua estórias aparentemente comuns.
Porém, ao iniciar a leitura, damos de cara com um conto, no mínimo confuso. Eu mesma precisei ler 3 vezes para chutar alguma sugestão do motivo pelo qual uma seqüência de números estranhos estariam fazendo no bolso de um paletó anotada em um papel bem dobrado! Li, reli, trili! E nada. Não gostei. Me senti vazia, até burra de não ter entendido a mensagem do conto.
Mas na metade do livro já estava acostumada.Vários contos parecem não terem sentido, nem moral. Mas têm. Todos eles. E essas mensagens só apareceram pra mim no dia seguinte da leitura.
Algumas não. Algumas foram na hora: bateu, eu senti. Como se houvesse alguém que realmente conhecesse meus "podres" e tivesse transposto em livro. Identifiquei 3 elementos no livro que considero os mais fáceis de serem aplicados à vida de qualquer mortal, em especial jovens maiores de idade.
O primeiro é a lembrança sentimental de tempos de criança. Neste, o conto que mais me sensibilizou foi "História de Infância", que reflete a importância do amor de vó/mãe e a falta que faz aquela relação...
O segundo elemento se trata de um estado emocional que ocorre na vida de todas as pessoas que sabem aproveitar a vida! Quem não lembra dos "quase porres" (pra ficar bonito) de Morango e de outros participantes na casa do BBB?! Quem nunca morreu de dar risada ao ver a verdade nua e crua saindo pela boca de seres tomados pelo álcool?! Não só em realitys show, como na nossa vida, nos deparamos numa esquina ou noutra com acontecimentos adversos, engraçados e trágicos causados pela interferência de bebidas alcoólicas. Em vários contos de Angélica, é esta a causa da tristeza, da angústia, de erros cometidos no estado "não sóbrio" por alguns personagens, onde podemos sempre encontrar uma pitadinha de humor negro.
E por fim, o terceiro, no meu ponto de vista, é realmente a vertente positiva da embriaguês. É a parte cômica traduzida no livro em .... fábulas! Sim, aqui os personagens são animais ou falam com eles! Cheguei a essa conclusão depois de ter terminado o livro. Durante a leitura, pra mim não se passavam de fábulas fofinhas escritas ao acaso. Mas assim como o conto 18278454428560892930, eu entendi o significado pelo qual aranhas, gatos, cachorros, baratas e tentilhões seriam capazes de pensar, falar e escrever suas estórias. Eles são os nosos amigos de momentos felizes demais e de momentos poéticos demais... Essa e outras associações minhas são muito íntimas e podem até serem incompreensíveis, apesar de serem tão óbvias pra mim.
Enfim, achei um livro digno de compor minha estante (apesar de não tê-la mais). Acredito que pouco a pouco iremos nos idetificando com cada conto de acordo com nossas vivências diárias. Estórias de amargura, arrependimento, aflição, dúvida, afeto, paixão, desejo, companheirismo, solidão... QUEM ESTÁ LIVRE? Leiam!