Este livro é uma apresentação sintética e fidedigna do que fez e de quem foi Jung. Nossa literatura ressentia-se da falta de uma obra capaz de divulgar - sem deturpar, mediante concessões simplificadoras - a "Psicologia Analítica".
Introdução à psicologia de Jung -
Frieda Fordham
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O sonhar de um ano para cá se tornou uma fixação para mim desde o momento que comecei a ler sobre o significado dos sonhos e como isso pode influenciar a nossa perspectiva de mundo, sejam elas em descrições ou momentos que estamos passando em vida. Por outro lado, também me aproximei dos significados dos meus sonhos após estudar mais sobre o ocultismo com práticas como meditação e yoga. Refletir como essas coisas podem explicar mais sobre nós mesmos do que uma energia do universo redentora de tudo é algo que sempre coloco em discussão comigo mesmo e os sonhos são um ponto-chave para isso. Até o momento o meu conhecimento se inclinava para episódios de podcast, significados de sites que a maioria parece duvidoso e a conceitos da HQ de Sandman que são muito bem trabalhados e que me influenciaram a conhecer mais sobre o mundo do sonhar. Mas, a existência de um pensamento e de uma mente sempre foram um tema que me fascinaram desde pequeno. Eu e toda uma geração que cresceu refletindo o que sentia, o porquê sentia e como sentia. Hoje temos várias discussões sobre transtornos mentais, depressão e ansiedade por dois fatores, a liberdade que a minha geração teve de falar sobre e os meios de comunicação para tal. Assim, quando falo que antes de passar em Ciências Sociais em uma Universidade Federal, cursar Psicologia era uma vontade grande, como Jornalismo, estou fazendo parte de uma extensa categoria de jovens que nasceram depois de 2000 com o mesmo pensamento. Desta forma, tendo como reflexo um conteúdo digital sobre o sentir adolescente, com os memes, textos filosóficos que escrevíamos quando nos apaixonávamos ou odiávamos alguém, o assunto psicologia sempre entrava a tona por trás disso. Entretanto, confesso que nunca li muitos livros sobre Psicologia. Consigo lembrar facilmente dos poucos que li e todos foram enquanto estava no segundo ano do Ensino Médio (ainda se chama assim?). Pensando hoje sobre isso é curioso, pois estava justamente em uma fase da minha adolescência onde estava com uma curiosidade ativa querendo entender qual era o meu papel no mundo, pois enquanto estava sendo nerdola para mim outras pessoas estavam sendo muito mais interessantes. O Dilema de Wendy foi o primeiro livro mais psicológico que li, nele temos o psicologo Dan Kiley apresentando uma pesquisa que conta com entrevistas de mulheres da sua época, mas que remete a conceitos presentes até hoje. São mulheres que falam sobre serem mães para seus parceiros, em como não gostam de serem assim, mas, ao mesmo tempo, entram em uma armadilha social que impõem essa questão a elas. Um assunto deveras importante até hoje, pois sabemos que muitos homens tratam suas parceiras como mães e também existem mulheres que tratam seus parceiros como filhos. O segundo que li em minha vida foi Morte e Desenvolvimento Humano, escrito pela pesquisadora e psicologa Maria Júlia Kovács. Confesso que só fui pesquisar sua trajetória acadêmica para a escrita dessa resenha e fiquei muito contente que ela produz conhecimento até hoje, muito doido pensar que li seu livro quando tinha 16 anos. Nesta obra ela conta como a morte reflete o desenvolvimento humano enquanto conta as mais variedades perspectivas da morte em culturas pelo mundo, refletindo sobre seus conceitos e como isso impacta a própria realidade que toda uma cultura vive. Seu livo esta na minha mente até hoje e já o citei em algumas aulas de Sociologia enquanto misturava conceitos de Foucault e Bourdieu, dois autores importantes da Sociologia e das Ciências Humanas. O terceiro livro é mais misterioso de todos, pois não me lembro totalmente de seu nome ou do autor, mas seu conteúdo por ser um gatilho ficou gravado na minha memória. A obra se tratava de cartas deixadas por pessoas que se suicidaram, lembro que todas eram de pessoas brasileiras, logo o autor também era brasileiro. Não entrarei em detalhes, mas li cartas de todas as idades possíveis e das mais diferentes situações, e isso me marcou muito. Foi um choque de realidade ler isso com apenas 16 anos e guardei apenas para mim, pois não tinha como discutir isso com mais ninguém da minha realidade na época, pois sabemos que até hoje este assunto é um tabu. Para tal, feita a devida recapitulação da minha própria existência de literatura psicológica, percebe-se que não tenho muita experiência no assunto. Mas, depois de uma estudante de psicologia da minha universidade no começo do ano passado colocar vários livros dela a venda em um gruo de sebo no WhatsApp, encontrei um em específico que me chamou mais atenção. Conheço pouco de Jung, o máximo de informações que chegaram até mim sobre ele foram por meio das redes sociais ou de conversas com amigos que já conheciam algo dele. O que gravei na minha memória até então é que ele foi um amigo e parceiro de estudos em um momento da sua vida com outro psicologo chamado Sigmund Freud, até que separassem suas ideias por terem uma visão da mente diferente um do outro. Nesta obra, Introdução a Psicologia de Jung, chamando a atenção e desejo pontuar, aqui é a autora. Frieda Fordham foi uma assistente social psiquiátrica, analista junguiana e escritora que teve seus conhecimentos iniciados com Jung enquanto trabalhava com ele, então ela foi uma das pessoas que mais esteve perto do analista mais importante da psicanálise, conversando e aprendendo. Ao pesquisar mais sobre a autora, este é o único livro conhecido e publicado por ela, isso é curioso, pois sendo uma pesquisadora da mente como Jung, seu conhecimento se limita apenas a um livro. Mas se formos ver quem foi seu esposo, temos uma maior visibilidade em todos os aspectos. Michael Fordham também foi um analista junguiano e especializado em psicologia infantil, sendo um dos escritores das obras completas de Jung, onde foram publicados mais de dez exemplares. Ao pesquisar sobre ele é possível achar seus livros, fotos do autor e os mais variados artigos sobre seu trabalho, mas sobre sua esposa nem uma foto de sua face aparece na página inicial de pesquisa do Google. O fato aqui tem nome e perpassa todas as mulheres na ciência, seja com Marienne Weber, Marie Curie ou aqui com Frieda Fordham. A pressão do patriarcado em um machismo estrutural apaga muitas mentes brilhantes de mulheres resumidas a esposas de homens científicos adorados pela história, algo que sempre devemos chamar a atenção em toda obra lida, e esta aqui sobre Jung é uma delas. Pois com uma escrita leve e fácil de compreender, a autora passa a cada capítulo desde o nascimento de Jung, relatando alguns aspectos de sua família, até indo para seus feitos na psicologia e sua vida pessoal que se mistura com seus estudos. Influenciando como pensa o mundo a sua volta conforme a sua vivência como ser humano. Isto fez com que a cada capítulo fosse possível conhecer o Jung como um cientista da mente mas também como um filho que cresceu com vários problemas, mas pela sua curiosidade teve a vontade de refletir e questionar algumas características que o rodeavam. Fazendo com que ele adentrasse a mente. Tornando-o como um crítico mas também curioso que com o tempo o fez criar uma nova forma de olhar pela mente através dos sonhos e da mitologia criada pelas culturas do mundo. Assim, a característica marcante dele é dizer que devemos olhar para a mitologia como uma forma de estudo séria, pois ali poderemos conceber mais sobre nós em uma escala profunda. Quando um povo cria rituais para um dia importante, ou ao se criar um costume entre gerações por meio de um arquétipo de uma deusa ou deus poderoso, Jung se sujeita a interpretar isso e tenta entender qual é o significado para aqueles que o adoram. Os sonhos se tornam um meio importante para isso, pois em um momento do livro a autora conta de algumas sessões que o psicanalista atendia com seus pacientes que contavam seus sonhos. Misturando a religião que em sua maioria era católica com acontecimentos que para eles pareciam fora do normal, mas ao serem analisados sempre podem ser interpretados com uma característica do próprio paciente. Entretanto, em algumas partes, quando Jung fala de histeria (que hoje se chama transtornos mentais) e mulheres, percebe-se uma interpretação marcada pela época em que ele viveu. Uma época onde ser mulher se resumia em vestir roupas apertadas, serem delicadas e servirem ao sistema do homem, então algumas interpretações quando uma mulher ficava doente eram remetidas a frases como ela está longe do marido ou ela precisa apenas tomar um ar. Estes conceitos me deram curiosidade em como Jung fala sobre mulheres em suas obras na íntegra, cabendo a estudos e leituras futuras sobre o tema. O interessante é que a própria autora é mulher e não ha nenhuma crítica sobre isso. Algo que é possível compreender, pois podemos acreditar que para Frieda talvez era desta forma com que a psicologia tratava uma mulher, e olhar para esses escritos hoje é muito fácil, pois sabemos de seus erros. Introdução a Psicologia de Jung é um livro curto que poderia ser lido em apenas uma semana, mas por ordens do destino acabei demorando mais de um mês, lia e parava em vários momentos. Mas depois que me prendi em seus conceitos devorei em apenas uma semana. Jung se tornou um psicologo analítico que lerei mais vezes para estudos próprios que desejo fazer este ano. A sua visão pelos sonhos, mitologias e culturas que não sejam europeias são o ponto importante que reconheci se ligarem a alguns passatempos que desejo aprofundar. Entendo que alguns conceitos possam parecer críticos, mas é impossível negar que Jung é uma figura peculiar e importante na psicologia por ser um ponto fora da curva em tudo que estava sendo produzido na psicologia moderna, seja dentro ou fora da academia. Sendo assim, é isso que o torna alguém importante de ser lido, pois mesmo que ele seja um intelectual da mente, também é um adorador do oculto, do mistico e do poder que isso pode influenciar na mente humana. Os sonhos são apenas a ponte inicial para um mundo de estudos que remetem ao que o nosso cérebro pode fazer ao criar. Frieda Fordham promove uma síntese sobre os principais métodos e visões de mundo de Jung, sendo sua obra um ponto inicial para leigos como eu, para conhecer mais sobre este homem, pela visão de uma mulher que escreve como uma cientista da mente.
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