Publicado pelo Circulo do livro, recomendado por Elena Ferrante, este livro é de uma autora que se define como ''uma pessoa que mora sozinha em Roma com seu gato'', que tem poucos amigos, quase todos jovens porque para ela só a juventude mostra interesse e seriedade em relação às coisas importantes. Os adultos, segundo ela, estão sempre envolvidos em acontecimentos triviais e irrelevantes.
Anarquista, considera que a dominação de algumas pessoas sobre as outras, seja financeira, ideológica, militar, familiar, seja de qualquer origem é a coisa mais terrível do mundo.
Com essa apresentação, Elsa Morante precisa ser lida e relida por jovens e adultos (estes últimos, frustrados com a realidade, acabam amargurados num reacionarismo tacanho, num chauvinismo que afasta as demais pessoas, numa incongruência ideológica e guerrinha político partidária sem fim - do tipo ''nós contra eles'', nós os intelectuais contra eles os analfabetos, nós os religiosos contra eles os hereges, nós os burgueses contra eles os pobres, nós os patriotas contra os inimigos da nação, etc., etc., etc.).
A segunda grande guerra destruiu famílias, arrasou cidades, levou pessoas para campos de concentração, adoeceu e matou gente em todos os continentes (da China à África, das Américas ao palco da guerra na Europa).
O livro intercala a narrativa da família de Ida, com notícias do front, fatos da guerra. E é dividido por anos do trágico evento.
Ida, viúva, professora do ensino fundamental, abusada por um soldado alemão, mãe dois filhos, judia, corre o risco de deportação e em meio à tudo isso, corre o risco de perder a casa e a pequena família que lhe resta. O filho mais velho, inicialmente adepto do fascismo faz com que ela relembre com nostalgia da família de origem trabalhadora, do pai anarquista, das canções em dialeto e de um tempo que lamentavelmente acabou e que com o surgimento da guerra destruiu as remotas possibilidades de um mundo um pouco melhor conforme descrito pelas boas utopias, as más utopias acabaram ganhando.
O momento O grande inquisidor do livro é o discurso de Davide no bar, ao final do livro. Onde esse personagem frágil, descontente com o rumo do país e a atitude das pessoas desabafa contra o fascismo que segue mesmo com a morte dos ditadores (Hitler, Mussolini, Stalin), outros surgem, o risco do fascismo dentro dele mesmo, a alienação dos meios de comunicação que transmitem jogos e músicas - em meio à reconstrução de uma Itália que nunca sairia da dependência burguesa e católica, da cultura americana. A ironia é que ele é escutado apenas por uma cadela e seu dono, um garoto epilético, o filho mais novo de Ida, Useppe (Giuseppe). Esse personagem faz recordar Aliosha Karamazov, Myshkin, e os grandes protagonistas não só de Dostoiévski, mas de Tolstoi, dos filmes de Pier Paolo Pasolini, Visconti, Kurosawa. Em suma, um garoto encantador, que como nas histórias de Peter Pan, é cuidado por uma cadela babá, Bella. Que o defende a todo custo desse mundo injusto. Um Quixote com Sancho em forma de cão.
Melodrama? Creio que não, seria mais como a realidade colocada em prosa e texto jornalístico, me recorda Svetlana Aleksievitch.