Eu havia lido um livro do Maupassant no começo dessa minha jornada pelo mundo dos contos, no início do ano passado, e até havia gostado de algumas histórias, mas sem exageros, sem me empolgar tanto assim. Agora, depois de dar a “volta ao mundo” por meio dos contos, eu decidi pegar mais um livro dele para ler e a impressão foi bem diversa: “Histórias eternas” é um livro bastante empolgante e Maupassant um escritor fenomenal.
É difícil dizer o que mudou da primeira leitura para essa. No livro da Cultrix, estão de fora alguns dos maiores clássicos do autor, como “Bola de sebo” e “O horla”, pois a proposta é trazer ao leitor textos menos conhecidos do autor. Não há uma divisão temática, como está na moda fazer nos dias de hoje, não há grandes explicações sobre os contos, há simplesmente uma história atrás da outra, e elas são deliciosas.
São 27 contos e no máximo 2 eu poderia dizer que não me agradaram muito. Trata-se de um escritor incrivelmente imaginativo e extremamente versátil. Há uma veia “poética” (que vem de Poe) muito forte, que faz o Maupassant insistir em histórias “misteriosas”, beirando a literatura fantástica, com alucinações ou presenças sobrenaturais, embora, frequentemente, elas não sejam mais do que o resultado de uma imaginação acerbada.
Há os dramas dos arranjos e desarranjos familiares, os segredos guardados, às vezes por toda uma vida, a luta para sobreviver, a submissão ao destino e, eventualmente, a esperança em dias melhores. Há o medo, há a solidão, há principalmente o humano, o que inclui seus interesses pouco louváveis e inconfessáveis. Há mesmo a poesia e a beleza.
Com frequência todo esse caldo desemboca em alguma tragédia. Maupassant lança mão mesmo de lances dramáticos, mas nada me pareceu exagerado, nada me pareceu que não fosse o realismo da vida que acontece todos os dias e até os dias de hoje. Vez ou outra, há também a comédia e é interessante como mesmo ela, por vezes, é acompanhada de elementos trágicos. Tudo numa linguagem objetiva e, ainda que depois da tradução, tão natural que parece muito fácil alguém se sentar e escrever uma história semelhante – ledo engano.
Um dos contos que mais gostei foi “O albergue”, espécie de meio termo entre Poe e Jack London, onde há o medo, o mistério, a alucinação, mas também há a aventura gelada, na história de dois homens sozinhos cuidando de um albergue vazio durante o inverno, até o dia em que um some e o outro passa a ouvir a sua voz à noite, situação que não termina nada bem para o cachorro de quem cuidavam.
Gostei muito também de “Pierrô”, o drama do cachorro assim chamado que, em verdade, é também o drama das suas proprietárias, que tiveram a sua própria humanidade e compaixão despertadas só depois de largarem o inditoso animal em um buraco para que nele perecesse.
“A aventura de Walter Schnaffs” eu já conhecia e passei a gostar mais nessa leitura, pois, em meio às situações cômicas vividas pelo personagem, não se deixa de fora a crítica à lógica da guerra.
“O afogado” também é uma beleza, conto que retrata o terrível drama da mulher constantemente espancada e humilhada pelo marido marinheiro, que um dia, supostamente, parece ter perecido no mar, mas ele volta, ou parece voltar, na voz de um papagaio, que acaba pagando o pato numa cena antológica – atente-se para o grande desfecho em que a mulher ainda se sente culpada e pede perdão a Deus.
“Meu Tio Jules” também me chamou a atenção ao mostrar a frustração de uma família pobre que tinha a esperança de “tirar o pé da lama” quando um dos seus parentes voltasse da América, onde havia ido fazer fortuna – mal sabiam eles em que estado iriam encontrar o Tio Jules.
Há outro tio, “O Tio Amable”, que é o maior conto do livro, com 20 páginas (a maioria varia entre 6 e 10, ou seja, contos de leitura rapidíssima), sobre um velho surdo, bem mais afeito a interesses financeiros do que à felicidade do filho que queria se casar com uma mulher que já tinha um filho. Também aqui se percebe o tema dos desarranjos familiares, levando aqui a um trágico desfecho.
Há histórias que evidenciam grande violência, como a vingança de “Uma Vendetta”, e outras em que o mal se dá de forma mais sutil, mas o resultado é igualmente criminoso, como na morte de um bebê em “A confissão”.
A sensibilidade com os mais desafortunados da vida é expressada no conto “O armário”, que revela, de surpresa, a presença do filho de uma prostituta.
Uma crítica até certo ponto mordaz está por trás daquilo que, de outra maneira, seria apenas um conto de literatura fantástica, como é “A morta”, pois nele, subitamente, os mortos levantam de suas tumbas e “corrigem” os seus epitáfios, falando quem eles foram de verdade, em oposição ao que deles se dizia.
A teimosia e o conservadorismo de lideranças religiosas, em oposição aos arroubos da juventude, aparecem de forma lírica em “Luar” e de forma um tanto cômica em “Uma surpresa”.
Segredos de paixão dão o tom de “Mademoiselle Perle” e “Alexandre”, sem falar em “O abandonado”, em que o fruto de uma paixão proibida é buscado depois de muitos anos, e talvez fosse melhor que nunca o buscassem.
Questões do amor maternal podem ser vistas em “Drama humilde” e no notável “No campo”, quando um casal sem filhos literalmente compra uma criança pequena e um dia ela volta muito bem de vida, para a ira do filho de outros pais que não haviam querido vendê-lo.
Há ainda outros contos muito bons, e tudo termina em “Na água”, com o seu grande e lindo desfecho.