Ao perambular diante da minha estante, como se não houvesse nada para ler em meio a tantos livros, incerto do que escolher, ataquei este belo box, que possui uma genialidade na elaboração da lombada dos livros, formando um cordame de navio, com três obras de Conrad: O Coração das Trevas, tido como seu magnum opus, Lord Jim, o mais extenso, e o tímido A Linha de Sombra. Com os olhos saltando de um para outro, hesitando entre os menores e, por consequência, mais rápidos de ler, optei pelo menos aclamado. Agora, após a leitura, posso compreender, em parte, o que Conrad queria nos transmitir sobre esse ímpeto juvenil em que, tomados pelo tédio, escolhemos algo abruptamente, quase com raiva, que possa, de fato, valer nosso tempo. Eu não queria pegar um livro "ruim". Não queria desperdiçar meu tempo e mesmo que não tenha gostado, não o considero um desperdício, muito pelo contrário, como hão de ver. Como eu já tinha conhecimento das edições da Nova Fronteira, ainda que formidáveis em aparência, carecem muito de notas de rodapé, das quais genuinamente senti falta, seja por termos náuticos, seja pela estranha prosa de Conrad que é da melhor maneira que posso tentar descrever aérea, divagante, como alguém que se debruça e, enquanto fuma, olha as nuvens passarem, ao invés de se ater ao que supostamente deveria importar. Tais coisas, escanteadas, tornam um pouco confuso o acontecimento dos fatos. Tudo isso, é claro, embebido de lirismo e um ar recorrente, como posso dizer? Metafísico? Em que, por vezes, uma breve explicação viria a calhar. Não obstante, o prefácio, ainda que curto e de caráter revelador da trama, do qual é passível de crítica, acredito ter-me dado fôlego, ao saber do destino final da história e o que eu teria de suportar até chegar lá.
A história se abre de prontidão para explicar do que se trata a tal linha de sombra e parece querer delinear, seja uma filosofia autêntica, seja uma visão inovadora do espírito humano, ou uma contemplação vivida que acredita ser esclarecedora para seus leitores. A linha da sombra é, até onde pude mergulhar, uma barreira metafísica que nubla o outro lado, o da maturidade, e somente uma embarcação cheia de vento nas velas é capaz de cruzá-la. Um barco, assim como o de Salvador Dalí, cujas velas não estão mais encasuladas, mas abertas como borboletas que detêm a capacidade e experiência necessárias para voar.
Mas infelizmente não tenho muito mais o que dizer. Ainda que um belo conceito, trata-se de algo óbvio e infelizmente, tendo sido somente tratado nas primeiras e últimas páginas com maior pujança do que no miolo, do qual irá ser tocado agora, pode-se resumir a uma única palavra: miasma.
Uma vez em alto-mar, temos que acompanhar as intempéries e lástimas de um bando de marujos com malária, obra de uma tremenda má sorte e não de falta de maturidade do capitão, como o livro parece querer sugerir. A vida lúgubre no convés, por horas, parece beirar o gótico e faz-nos perguntar se há algo realmente sobrenatural, o que desperta certo interesse para outras avaliações. Porém, como pude tomar conhecimento em rápidas pesquisas, Conrad faz questão de dizer um "não". Ainda assim, como bom pescador que gosto de crer que sou, consegui pescar um pouco neste mar parado.
Na contramão dos ventos e do próprio Conrad, quem realmente personifica o amadurecimento, e não o envelhecimento, como bem demonstra o narrador agora considerado mais velho ao desembarcar, é Ransome. Seja por seu problema cardíaco ou não, ele é o único que, assim como o mar calmo, compreende que só se atravessam as adversidades com calma e constância. Essa ideia ressoa com o livro de Murakami que estou lendo sobre corrida, no momento em que escrevo. É isso: constância e calma. Silêncio e diligência no trabalho permitem atravessar qualquer tempestade. Isto é ser maduro.
Por fim, rapidamente sobre um ponto que vi ser manifestado entre os leitores, é que poderia haver, da maneira em que o narrador descreve, uma homoafetividade para com Ransome, descrevendo-o como bem afeiçoado e afins o que seria certamente interessante explorar. Mas penso que isso se dá por outro motivo: em meio a tanta doença e pestilência, Ransome torço para que não seja um trocadilho com Handsome esbanjava certa beleza em sua vitalidade e rosto corado de vida. Do mesmo modo podemos ver o narrador empregando elogios para com seu navio, que ele atribui como um lindo corcel árabe entre cavalos de carga. Parece-me ser do tipo que nomeia o bacamarte com o nome da amada.
Então o que encontrará aqui é um Holandês Voador amaldiçoado por um capitão vil ou não a se demorar no mar não por tempestades, mas por pura inércia ectoplásmica, e aprenderá sobre o que é amadurecer, envelhecer, deslizar sobre o convés, enquanto os outros tropeçam, como Ransome e saber que não só uma viagem ruim, ou quase fatal, pode tirar do mar um marujo que nasceu para navegar.
Se Ícaro não tivesse recebido as asas tão facilmente, teria o sol se incomodado em brilhar tão forte?