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    A Linha de Sombra - Uma Confissão

    Joseph Conrad

    RBS
    2003
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-10: 8589489442
    Português Brasileiro
    3.7
    69 avaliações
    Leram101Lendo7Querem116Relendo0Abandonos3Resenhas8
    Favoritos0Desejados116Avaliaram69

    Última obra-prima escrita por Joseph Conrad, "A linha de sombra" (1917) marca o limite — tão indefinível e incompreensível, quanto inquietante e doloroso — que num determinado momento da vida configura, de modo irrevogável, o fim da juventude. Para o protagonista deste romance intenso, a ultrapassagem dessa fronteira coincide com uma experiência excepcional e dramática: oficial da marinha mercante, em seu primeiro comando se defronta com uma interminável calmaria no clima insalubre dos mares do sudoeste asiático, enquanto vê sua tripulação ser dizimada por uma violenta epidemia de febre. A imobilidade cada vez mais ameaçadora e sinistra do navio contrapõe-se a intensificação, nos homens que o deveriam conduzir, de uma angústia e de um medo que deixam o comandante na desolada solidão de sua responsabilidade e de sua importância. Nos vinte dias de calmaria — metáfora de um tempo e de um espaço espantosamente concentrados, ele parecerá atravessar todas as fases de uma existência, descobrindo a maravilha no terror, a ânsia irremediável nos sobressaltos e de alegria ou ainda a sutil sensação de derrota que permeia um episódio de libertação. Quando vencer essa situação, o comandante exibirá o traço indelével de uma ferida da alma, no fundo da qual encontrará confusa e corajosamente a consciência definitiva da condição humana.

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    Leandro de Miranda da Silva23/06/2025Resenhou um livro
    3 (Bom)

    A Linha de Sombra: Uma Confissão - Joseph Conrad - Nova Fronteira

    Ao perambular diante da minha estante, como se não houvesse nada para ler em meio a tantos livros, incerto do que escolher, ataquei este belo box, que possui uma genialidade na elaboração da lombada dos livros, formando um cordame de navio, com três obras de Conrad: O Coração das Trevas, tido como seu magnum opus, Lord Jim, o mais extenso, e o tímido A Linha de Sombra. Com os olhos saltando de um para outro, hesitando entre os menores e, por consequência, mais rápidos de ler, optei pelo menos aclamado. Agora, após a leitura, posso compreender, em parte, o que Conrad queria nos transmitir sobre esse ímpeto juvenil em que, tomados pelo tédio, escolhemos algo abruptamente, quase com raiva, que possa, de fato, valer nosso tempo. Eu não queria pegar um livro "ruim". Não queria desperdiçar meu tempo — e mesmo que não tenha gostado, não o considero um desperdício, muito pelo contrário, como hão de ver. Como eu já tinha conhecimento das edições da Nova Fronteira, ainda que formidáveis em aparência, carecem muito de notas de rodapé, das quais genuinamente senti falta, seja por termos náuticos, seja pela estranha prosa de Conrad que é — da melhor maneira que posso tentar descrever — aérea, divagante, como alguém que se debruça e, enquanto fuma, olha as nuvens passarem, ao invés de se ater ao que supostamente deveria importar. Tais coisas, escanteadas, tornam um pouco confuso o acontecimento dos fatos. Tudo isso, é claro, embebido de lirismo e um ar recorrente, como posso dizer? Metafísico? Em que, por vezes, uma breve explicação viria a calhar. Não obstante, o prefácio, ainda que curto e de caráter revelador da trama, do qual é passível de crítica, acredito ter-me dado fôlego, ao saber do destino final da história e o que eu teria de suportar até chegar lá. A história se abre de prontidão para explicar do que se trata a tal linha de sombra e parece querer delinear, seja uma filosofia autêntica, seja uma visão inovadora do espírito humano, ou uma contemplação vivida que acredita ser esclarecedora para seus leitores. A linha da sombra é, até onde pude mergulhar, uma barreira metafísica que nubla o outro lado, o da maturidade, e somente uma embarcação cheia de vento nas velas é capaz de cruzá-la. Um barco, assim como o de Salvador Dalí, cujas velas não estão mais encasuladas, mas abertas como borboletas que detêm a capacidade e experiência necessárias para voar. Mas infelizmente não tenho muito mais o que dizer. Ainda que um belo conceito, trata-se de algo óbvio e infelizmente, tendo sido somente tratado nas primeiras e últimas páginas com maior pujança do que no miolo, do qual irá ser tocado agora, pode-se resumir a uma única palavra: miasma. Uma vez em alto-mar, temos que acompanhar as intempéries e lástimas de um bando de marujos com malária, obra de uma tremenda má sorte e não de falta de maturidade do capitão, como o livro parece querer sugerir. A vida lúgubre no convés, por horas, parece beirar o gótico e faz-nos perguntar se há algo realmente sobrenatural, o que desperta certo interesse para outras avaliações. Porém, como pude tomar conhecimento em rápidas pesquisas, Conrad faz questão de dizer um "não". Ainda assim, como bom pescador que gosto de crer que sou, consegui pescar um pouco neste mar parado. Na contramão dos ventos e do próprio Conrad, quem realmente personifica o amadurecimento, e não o envelhecimento, como bem demonstra o narrador — agora considerado mais velho — ao desembarcar, é Ransome. Seja por seu problema cardíaco ou não, ele é o único que, assim como o mar calmo, compreende que só se atravessam as adversidades com calma e constância. Essa ideia ressoa com o livro de Murakami que estou lendo sobre corrida, no momento em que escrevo. É isso: constância e calma. Silêncio e diligência no trabalho permitem atravessar qualquer tempestade. Isto é ser maduro. Por fim, rapidamente sobre um ponto que vi ser manifestado entre os leitores, é que poderia haver, da maneira em que o narrador descreve, uma homoafetividade para com Ransome, descrevendo-o como bem afeiçoado e afins — o que seria certamente interessante explorar. Mas penso que isso se dá por outro motivo: em meio a tanta doença e pestilência, Ransome — torço para que não seja um trocadilho com Handsome — esbanjava certa beleza em sua vitalidade e rosto corado de vida. Do mesmo modo podemos ver o narrador empregando elogios para com seu navio, que ele atribui como um lindo corcel árabe entre cavalos de carga. Parece-me ser do tipo que nomeia o bacamarte com o nome da amada. Então o que encontrará aqui é um Holandês Voador amaldiçoado por um capitão vil — ou não — a se demorar no mar não por tempestades, mas por pura inércia ectoplásmica, e aprenderá sobre o que é amadurecer, envelhecer, deslizar sobre o convés, enquanto os outros tropeçam, como Ransome e saber que não só uma viagem ruim, ou quase fatal, pode tirar do mar um marujo que nasceu para navegar. Se Ícaro não tivesse recebido as asas tão facilmente, teria o sol se incomodado em brilhar tão forte?

    5 curtidas

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    Avaliações

    3.7 / 69
    • 5 estrelas17%
    • 4 estrelas36%
    • 3 estrelas38%
    • 2 estrelas9%
    • 1 estrelas0%
    Józef Teodor Konrad Korzeniowski profile picture

    Józef Teodor Konrad Korzeniowski

    Foi um escritor britânico de origem polaca. Muitas das obras de Conrad centram-se em marinheiros e no mar. Exilado com a família na Rússia, teve o primeiro contato com a língua inglesa através do pai, tradutor de Shakespeare, e outros autores de renome. Ganhou cidadania britânica em 1886, apesar de sempre ter se considerado polonês. Após abandonar sua carreira na Marinha, publicou o primeiro livro, A loucura do Almayer (1895). A esse se seguiram doze obras de caráter realista e romântico e 28 narrativas breves. Entre as mais importantes estão Lord Jim (1900), O coração das trevas (1902), Nostromo (1904), entre outras. Joseph Conrad morreu em 1924, na Inglaterra.

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    168 Seguidores

    Józef Teodor Konrad Korzeniowski