Paulista, o carioca por adoção Nelson Motta Filho (29.10.1945) é dos nomes mais talentosos de sua geração. Compositor, poeta, produtor teatral e televisivo, empresário da noite, jornalista e crítico, também cursou a Faculdade de Direito e a Escola Superior de Desenho Industrial. Tendo estreado na literatura com O Piromaníaco e Música, Humana música, lançou a seguir Brasil F.C., pela Nova Fronteira. Sobras Completas é seu livro mais recente e traz como epígrafe uma frase de Marcel Duchamp, que sintetiza com propriedade o que ele encerra: “Pureza é aquilo que fica depois de todas as somas e restos.” É o próprio autor quem o apresenta: “Não é, como o anterior, um romance, mas uma coletânea de trabalhos produzidos ao longo dos dez anos que passei escrevendo sobre música para O Globo. Senti necessidade de faze-lo para mostrar que sabia escrever outras coisas, que podia enveredar por campos mais extensos do pensamento. Eu estava cheio de fazer sempre o mesmo. Vincular diariamente o mundo da música, ter que afundar nele, viver cercado dele, não ter tempo para fazer diferente. Isso, no começo, a gente consegue suportar. Mas, depois, cansa. E ainda tem as cobranças que nos fazemos a toda hora. Cansei. As pessoas pensam que você é idiota. Resolvi partir para outra.” Em Sobras Completas, Nelson Motta apresenta uma coletânea de textos de temas e gêneros que se alternam. Há contos que reproduzem, no sentido jornalístico do termo, fatos de sua carreira, crônicas nitidamente autobiográficas, homenageando personalidades marcantes de sua vida (Maria Bethânia, João Gilberto, Caetano Veloso, Raimundo Fagner, Garrincha, Sérgio Porto, Glauber Rocha), ensaios, poemas, máximas à la Oswald de Andrade, koans de inspiração confessadamente zen, e até mesmo uma novela curta em torno do futebol – uma de suas grandes paixões. Desenvolvidos com muito humor e emoção, os episódios aqui narrados refletem o olhar emocionado e poético de um adulto com alma de jovem eterno. Glauber Rocha, prefaciador de Brasil F.C., destacou sua criatividade combativa e o cuidado que ele em suas crônicas diárias sempre teve em desmistificar a “boçalidade dos vanguardistas destrutivos”. Escrito em tempo que o autor define como sendo de “altas esperanças”, Sobras Completas é o livro mais instigante e desafiador de um dos autores mais dinâmicos e criativos da nova geração de escritores brasileiros.

