Em A História Sem Fim, Michael Ende nos apresenta a infância sonhada por uma criança. Neste livro é correto dizer que ele nos revela a infância sonhada por um adulto?
Filho de um pintor surrealista, Ende escreve sobre o que vê nas pinturas do pai e com os olhos cheios de dúvida de um filho que busca se impôr como artista, por vezes prostrando-se diante da memória do pai, por vezes buscando suplantá-lo em voo com asas de cera... e como queimam lindamente essas asas!
Tem que ser reconhecido que o Ende não cede à facilidade de explicar as sensações adquiridas durante a leitura, basta o assombro: um homem alado, um touro e um relógio na cabeceira de uma cama, uma múmia cercada de guarda-chuvas...
Desse caleidoscópio imagético brota a unidade sobre a qual o leitor passeia e depois de entrar em O Espelho no Espelho, ultrapassar suas conivências e armadilhas, é muito difícil sair dele, justificando assim o subtítulo do livro: Um labirinto.