Pesquisando sobre a multifacetada América Latina e alimentando ainda mais o desejo de viajar e conhecer seus diversos e ricos países, decidi que era hora, enfim, de ler Sabres e utopias, um livro que estava há anos parado na estante, mas que eu não sabia exatamente quando seria o momento certo de encará-lo.
Sim, Mario Vargas Llosa é um dos meus autores favoritos da vida, tendo me fisgado de maneira intensa, principalmente quando apresenta, no meio da trama, o cenário político de um país de maneira brilhante, como fez em A festa do bode e a ditadura dominicana, ou Lituma nos Andes com as atrocidades do grupo comunista Sendero Luminoso, ou ainda a ditadura - tão presente na história da América Latina! - de Fujimori, em Cinco Esquinas; no entanto, encarar um livro de ensaios políticos não estava sendo empolgante, para ser franco.
O fato é que é impossível separar o Llosa escritor do Llosa político, afinal, o próprio foi candidato a Presidência do Peru em 1990, perdendo para Fujimori, que implantou uma ditadura no país até 2000, o que causou, obviamente, uma ferida eterna no autor, logo, Sabres e utopias se mostrou um brinde sobre o panorama político não somente do Peru, mas da América Latina como um todo, afinal, ao mesmo tempo em que analisa o país, Llosa aproveita para compará-lo com seus vizinhos, que estão melhores ou mais decadentes nesse aspecto. A velha verificada se a grama do vizinho está mais verde.
Como não poderia deixar de ser em um livro de ensaios de um autor encharcado no mundo da política, Llosa nos conta tudo, até mesmo de maneira biográfica, suas intenções, pensamentos e frustrações políticas, como o amor juvenil pelos ideais esquerdistas, passando para o reposicionamento para a direita, quando decide candidatura, perde e, desiludido com as escolhas da terra natal, decide se reinventar na Espanha, onde obtém nacionalidade espanhola e se dedica exclusivamente na literatura, para nossa satisfação.
No entanto, apesar de focar â
em textos políticos e econômicos, Sabres e utopias é muito mais, trazendo ainda panoramas culturais de diversos políticos, concentrando-se na literatura, óbvio, embora ainda explane para a pintura. Tudo com muito cuidado, atenção e paixão.
É aqui que conhecemos, por exemplo, a paixão e devoção do autor por Euclides da Cunha, Nélida Piñon e, com um tanto de ressalvas, Lula. Foi extremamente prazeroso vê-lo falar sobre Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, e ver que alguns de seus ensaios foram escritos aqui mesmo.
Um livro sensato e bem pontuado, Sabres e Utopias é um livro necessário para quem quer entender ou conhecer nosso continente, quase sempre desprezado ou ignorado, ante a potência de outros, como a Europa, por favor. É um relato forte e sincero de que, apesar das problemáticas, a América é rica, bela e poderosa.
Este livro faz parte do projeto "Lendo Nobel". Mais em: