Religião e o declínio da magia - Crenças populares na Inglaterra, séculos XVI e XVII

    Keith Thomas

    Companhia das Letras
    1991
    728 páginas
    1d 0h 16m
    ISBN-13: 9788571641815
    Português Brasileiro

    Religião, astrologia e magia ajudam o homem a enfrentar momentos difíceis, ensinando-o a evitar as desgraças ou, pelo menos, dando uma explicação para elas. Numa época de muita pobreza, muitas doenças, medicina precária e desgraças súbitas - como a Inglaterra dos séculos XVI e XVII - essas crenças desempenhavam um papel essencial na sociedade como fonte de alívio material e meio de explicar infortúnios de outra forma incompreensíveis. Neste livro erudito e fascinante, Keith Thomas examina minuciosamente a função de astrólogos, curandeiros, adivinhos, bruxos, profetas e o sistema de crenças relacionadas que permeavam toda a sociedade inglesa, embora tivesse presença mais marcante entre as classes populares. Nesse terreno controverso e, com freqüência, pantanoso, o autor constrói uma obra de rigor exemplar, que desfaz mitos, põe por terra interpretações que pareciam corretas, desentranha relações complexas e vai fundo em cada aspecto estudado, sempre fundamentado em uma documentação impressionante e fazendo uso de interpretações esclarecedoras, como as da antropologia contemporânea. Ao mesmo tempo, traz à vida personagens cativantes, algumas obscuras, cujas histórias estavam perdidas em arquivos judiciais, e outras de astrólogos famosos, que chegaram a alcançar notoriedade e deixaram seus livros de casos para a posteridade. Algumas das crenças aqui descritas parecem-nos completamente estranhas: acreditava-se, por exemplo, que um toque de mão do rei curava doenças, ou que uma pomada aplicada numa arma ajudava a sarar o ferimento que ela provocara. Outras nos são mais familiares, pois extravasam do local e da época para continuarem presentes de alguma forma no mundo de hoje. O próprio autor nos adverte que, embora a importância da magia tenha declinado no final do século XVII, ela não desapareceu, nem vai desaparecer: "Se a magia for definida como o emprego de técnicas ineficazes para mitigar a ansiedade quando as eficazes não estão disponíveis, então devemos reconhecer que nenhuma sociedade jamais estará livre dela".

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    Bruno Godinho10/02/2017Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Religião e magia em meio às mentalidades

    Esse livro de Keith Thomas é um dos trabalhos lapidares sobre o estudo da cultura em geral e da cultura inglesa, em particular. É uma pesquisa tematicamente exaustiva (nenhuma pesquisa histórica será exaustiva do ponto de vista da documentação), mas não definitiva e as conclusões do autor atestam isso. Sem dúvida, sua leitura é fundamental a todos aqueles que se interessam pela conexão da cultura com a formação do tecido social. O fundamental é perceber, em todas as partes do livro (religião, magia, astrologia, o apelo ao passado, bruxaria e as crenças auxiliares), que se trata de um estudo acerca de crenças coletivas. Nenhum dos fenômenos culturais que Thomas estuda são casos isolados, eles pertencem todos a uma série de desdobramentos de uma mesma estrutura social na qual convergiram diversas matrizes culturais. Pode-se mesmo dizer que esse é o cenário da cultura europeia desde o século XII. É evidente que Thomas é versado nas mais diversas frentes que atacaram o problema da cultura, mas sua predileção (se podemos assim dizê-la) fica na antropologia e na sociologia. Ele recorre a Evans-Pritchard, Malinowski, Weber e até a Lévi-Strauss, entre tantos outros, e ainda assim esbarra no mesmo muro que os historiadores franceses têm esbarrado desde Marc Bloch e Lucien Febvre: as mentalidades. Um conceito que carece de definição precisa, mas que no manejo da documentação salta aos olhos de todos os historiadores sociais. Evidenciam-se estruturas mentais nas sociedades, mas é basicamente impossível traçar seu desenvolvimento e declínio com certeza. É por isso que Thomas conclui que diversos aspectos (a revolução científica, a filosofia mecânica, as reformas religiosas) da vida moderna contribuíram ao declínio da magia, mas sem conseguir estabelecer com precisão as conexões entre esses aspectos: porque eles constituem uma mudança nas mentalidades (no plural, pois de fato ele evidencia mais de uma) da Inglaterra dos séculos XVI e XVII. A mentalidade é a faca de dois gumes da história social: é altamente evidente, mas dificilmente precisada. Para todos os efeitos, o livro de Thomas é um estudo exemplar da história social. Serve a todos aqueles que tiverem interesse não apenas pela cultura inglesa, mas também pelas implicações sociológicas e antropológicas da cultura em geral na formação das relações sociais.

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