São onze contos ao todo em que o autor argentino radicado na França, Julio Cortázar mostra toda sua maestria como contista. Entre os que mais gostei estão:
TROCA DE LUZES é o primeiro conto do livro, narra a história de um ator de rádio-teatro que não gosta muito da profissão, mas se submete a ela pelo dinheiro que recebe. Faz sempre papéis secundários, com poucas falas, interpretando vilões. Os galãs do elenco recebem inúmeras cartas e presentes das fãs, até que um dia chegou uma carta para ele. Uma moça se revelando admiradora do trabalho dele, das personagens que interpreta, e dizendo que já o conhece através das personagens, sua personalidade, seu caráter, etc. Vieram outras cartas e o primeiro encontro. Se interessou muito por ela, que logo foi morar no apartamento dele. Ficaram juntos, mas com o passar do tempo, ela foi esfriando com ele, o olhava como se procurasse algo que havia perdido, ele queria se declarar de vez para ela, pedi-la em casamento, selar de vez aquela união, mas sempre havia um motivo que o impedia. Até que um dia viu a moça saindo de um hotel acompanhada de um homem.
Em VENTOS ALÍSIOS, temos a história do casal Mauricio e Vera, que já está junto há anos e anos, têm uma afinidade e um entendimento ímpares, a ponto até mesmo de adivinhar os pensamentos um do outro. Experimentaram uma viagem diferente, uma busca por escapar daqueles hábitos tão já estabelecidos, que lhes mostrasse o outro lado, a liberdade. O problema é como ficará essa vida depois da descoberta.
SEGUNDA VEZ é o terceiro conto do livro e, apesar de não explícito, traz uma mensagem importante sobre um período sombrio no contexto histórico argentino, ali nos anos 70. María Elena recebe uma citação em papel amarelo com selo verde indicando hora e lugar para comparecer àquela repartição. Não importam como e nem por que, mas a hora de cada um chegaria. Quase todos em sua volta havia sido convocado pela primeira vez, exceto o amigo Carlos, que já estava sendo convocado pela segunda vez. Foi ao local, preencheu um formulário com perguntas sobre questões pessoais e objetivos de vida próprio, respondeu e os funcionários, sem lhe dar muita atenção, disseram que era para ela voltar dias depois para uma nova convocatória . Saiu, assim como todos, pelo corredor lateral, e estranhou que Carlos ainda não havia saído. Esperou um tempo e nada, e começou a se questionar como Carlos ainda não havia saído, ele que já havia sido convocado pela segunda vez. Será que havia uma outra porta de saída para quem era convocado pela segunda vez? Onde estaria o Carlos? Quando ela voltasse lá pela segunda vez, sairia por outra porta? A mesma de Carlos, que havia desaparecido?
Em VOCÊ SE DEITOU AO SEU LADO, Denise é mãe de Roberto, os dois são muito conectados, desde sempre. Eles estão passando o verão em uma praia, quando a mãe começa a notar os primeiros sinais de puberdade nele. Vê o rapaz se achegando para uma namoradinha, a Lilian, ele tenta transar com a namorada. A mãe tenta ajudar o filho naquela situação, orientar, comprar preservativo, mostrar o caminho para que ele possa ter êxito em seus passos, ao passo que começa a refletir sobre a passagem do tempo, a última vez que viu o filho nu, ainda um menino, brincando na ducha de banho, ou na água do mar. A história em si é sobre o vínculo entre essa mãe e o filho, que de alguma maneira, é quebrado, ou rachado, pelas novas descobertas do adolescente e pela presença da namoradinha, eles não são mais sozinhos.
EM NOME DE BOBBY é narrado pela tia do garoto, que aparentemente mora com ele e com a irmã, mãe do menino. É um conto onde Cortázar trabalha muito bem as principais características dele de deixar coisas no ar, incertezas, por muitos momentos, não sabemos se estamos diante dos sonhos do garoto ou da própria realidade. Basicamente, o garoto tem um certo trauma da mãe, que é boa durante o dia e lhe maltrata de noite. Mas não temos como atestar se esses maus-tratos são da imaginação ou dos sonhos dele ou de fato acontecem. A tia dele tenta desvendar isso e proteger o garoto. Ele tem uma espécie de fixação com a faca grande da cozinha, a tia o flagrou algumas vezes com o olhar fixo no material e na mãe. Ela própria tenta entender isso. O conto encerra com uma cena intrigante, e o autor não nos entrega nada por completo, fica no ar. A tia vai fazer um serviço no jardim, mas antes deixa essa faca bem exposta na gaveta e pede para o garoto ir buscá-la. Ele volta com cara assustada, com uma outra faca bem menor. Ela diz que aquela não serve, seria necessário pegar a outra maior. Ele a abraça, começa a chorar e diz que não consegue.
APOCALIPSE DE SOLENTINAME fala de um personagem que é fotografo e viaja pela América. Fica encantado com umas pinturas que vê por lá e resolve tirar fotos de todas, uma mais interessante que a outra. Quando volta para Paris e revela os negativos, vê imagens horríveis, de violência semelhante às provocadas em ditaduras sofridas pelos países que visitou. Fica chocado, enojado. Vai ao banheiro vomitar. Ali havia uma realidade que ele não enxergou, mas que estava presente, se impondo agora nas fotografias, que revelaram cenas que as lentes não focaram ali na hora. Ao voltar para o quarto, viu a esposa dele maravilhada com as fotos daquelas pinturas populares.
A BARCA OU NOVA VISITA A VENEZA é um texto muito antigo, que Cortázar julgou cheio de falhas mas não ousou reescrevê-lo. Colocou uma personagem no meio para tecer comentários e meio que melhorando o enredo, que é sobre uma mulher que deixa o namorado durante uma viagem, à caminho de Veneza, por resistir àquele sentimento e querer viver algo maior, mas passa por um grande trauma ao ser violentada sexualmente, caindo praticamente eu uma armadilha. O namorado vai atrás dela, que resiste em querer voltar, mas vê novamente o abusador e, no impulso, volta para o antigo amor, que a chama para voltar com ele.
REUNIÃO COM UM CICLO VERMELHO foi originalmente publicado num catálogo de uma reposição do pintor venezuelano Jacobo Borges. Fala como Jacobo vivenciou uma vez experiência aterrorizante durante um jantar, quando sentiu que uma turista inglesa, que estava na mesa ao lado, corria perigo e que ele precisava fazer algo.
ALGUÉM QUE ANDA POR AÍ é o conto que dá nome ao livro. É dedicado a uma pianista cubana, Esperanza Machado. É mais um daqueles textos do autor em que o leitor pode tirar interpretações distintas, que abrem vários caminhos, que estão em aberto. Muitas vezes imaginação e realidade se confundem na narrativa, e deixam o leitor confuso também. Um homem para para descansar em um motel e assiste à apresentação de uma talentosa e bonita jovem pianista, fica encantado. Depois, já na cama, é surpreendido por um homem que está sentado na beira da cama o observando, se assusta, pergunta de onde veio, mas que importa de onde veio ou quem é? O sujeito não está disposto a desfazer esse mistério. Diz apenas que é alguém que anda por aí, e estava lá atraído pela música da pianista, pois ela executou uma canção que lhe trazia boas lembranças, que “no outro mundo” sempre estava longe quando ouvia. Queria mesmo que ela tocasse uma outra canção, mas a pianista não teria suficiente habilidade para executá-la com aqueles dedos tão pequenos e delicados. Seriam preciso dedos maiores, mais longos, como os dele, e o homem que estava deitado viu os dedos que o inesperado visitante os mostrou, enquanto sentia a garganta sendo apertada.