Outra obra que me faz pensar que Shakespeare escrevia tudo bêbado, no mínimo.
Sonho de uma Noite de Verão é uma das comédias românticas mais populares do bardo, tanto por seu ambiente irreal quanto pelos versos. Mas, o que deve se manter em mente ao lê-lo é que o autor era patrocinado pela corte real inglesa, a mesma que ele se esforçava em agradar ao mesmo tempo que escondia sua zombaria.
Há várias subtramas que compõe o fio narrativo dessa peça, temos a principal com o casamento de Teseu e Hipólita, o drama entre o quadrângulo Hérmia, Lisandro, Demétrio e Helena, a representação dos artesão e as duas cortes de Titânia e Oberon.
Como, então, criticar a própria mecena sem ser acusado de traição? Transformando toda a sua crítica em uma grande piada mitológica.
Criticar a guerra velada pelo matrimônio da Rainha Elizabeth? Vamos colocar Titânia e Oberon separados. Apontar a homossexualidade e pedofilia rompante nas monarquias inglesas e francesas? Vamos colocar uma criança indiana como objeto de disputa. Que tal zombar da incipiente burguesia europeia que se atirava em busca das regalias reais? Esse é o papel da trupe de artesãos.
Claro, essa é uma forma extremamente irônica de analisar essa peça... mas, não consigo ver de outra forma um trabalho em que a única parte verdadeiramente romântica acontece no que seria a quebra da quarta parede com a peça-sobre-peça de Piramo e Tisbe, e uma rainha se apaixonando por um homem com cabeça de burro.
Recomendo.