INTRO: A EDITORA HEMUS
Hoje a editora Aleph é um alicerce para nós, aficionados por ficção científica, mas o que muitos não lembram é do papel que a editora Hemus teve nesse sentido há mais de 50 anos. Eles criaram a coleção FC, que publicou desde autores mais conhecidos — como Arthur C. Clarke, Asimov (Fundação saiu nessa coleção) e Ray Bradbury — até completos desconhecidos para nós brasileiros, como Edmund Cooper e Lloyd Biggle Jr. A curadoria deles era inacreditável e, se hoje temos algum fandom de sci-fi em nosso país, eles podem ser considerados um dos nomes pioneiros.
Dentre esses autores desconhecidos publicados na coleção FC estava Fritz Leiber, representado pelo desconhecido livro "Os Cérebros Prateados", editado por aqui em 1981.
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O LIVRO:
Lançado em 1961 sob o título original "The Silver Eggheads", "Os Cérebros Prateados" descende de uma versão menor do romance publicada na revista The Magazine of Fantasy & Science Fiction, em 1959, e narra uma realidade onde os escritores como conhecemos hoje não existem mais, pois foram substituídos pelas "Fábricas de Palavras" — máquinas enormes que criam romances baratos de entretenimento para as massas — livros desprovidos de profundidade e criados unicamente como entretenimento barato.
"Eram as máquinas que produziam a matéria que alimentava os desejos e apaziguava as mentes subconscientes dos habitantes de três planetas, de meia dúzia de luas e de vários milhares de satélites e de naves espaciais durante suas trajetórias." — lê-se em determinado trecho. Qualquer semelhança com a nossa realidade NÃO é mera coincidência.
Os escritores humanos ainda existem, é verdade, mas eles são apenas responsáveis pela manutenção das máquinas e, apesar de posarem para fotos de contracapa dos livros, não escrevem sequer uma palavra.
Nossos olhos nessa realidade são, em primeiro lugar, Gaspard de La Nuit, um desses “escritores”; Zane Gort, um robô de personalidade forte e que de fato escreve livros, mas direcionados a outros robôs; e a enfermeira Bishop, mulher de personalidade direta e forte, que trabalha em uma espécie de hospital/creche nada convencional.
Acontece que o Sindicato dos Escritores (todos fajutos) acaba se revoltando contra as editoras responsáveis pelas Fábricas de Palavras e destrói todas elas — máquinas que, teoricamente, não poderiam ser destruídas, pois os engenheiros daquela atualidade não têm conhecimento técnico para construí-las ou consertá-las — até mesmo esse conhecimento vinha das próprias Fábricas.
Mas o que os escritores não previam é que eles simplesmente não sabiam escrever, e, sendo assim, a galáxia inteira passa a não receber mais suas remessas de livros para as massas.
O livro, como vocês devem ter percebido, é uma crítica muito bem-humorada a toda a indústria da literatura: desde editores que só pensam em números e não em arte, passando pelos escritores vazios e até mesmo pelos leitores pouco exigentes — afinal, livros rasos produzem leitores rasos!
Para quem ficou curioso, imaginem uma mistura entre: o humor sarcástico de Douglas Adams (antes dele, que fique claro!); o amor pela literatura de Ray Bradbury em "Fahrenheit 451"; e o desgosto pela apatia humana e uso de robôs como contraponto de K. Dick em "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?". Este é The Silver Eggheads!
É de uma injustiça sem tamanho que este escritor não seja mais lembrado, pois sua escrita é muito elegante e distinta, apesar de um tanto verborrágica. Mas, vejam, isso casa perfeitamente com o tom irônico da obra, uma vez que o termo “egghead” é usado de forma depreciativa para o que aqui chamamos de “intelectualoides”.
Aliás, se há um adjetivo a ser conferido aos escritores desta realidade, "intelectuais" não é um deles. Assim como em obras de K. Dick, todos os humanos são retratados como pessoas vazias, infantis e egocêntricas, ficando para Zane Gort, o robô azul de apenas um olho, o papel de destaque da trama — o bom senso desta realidade — que demonstra sentimentos humanos e que é o fio de razão neste mundo maluco inventado por Fritz Leiber. É claro que até mesmo este robô sensato acaba perdendo a cabeça com os humanos (quem poderia julgá-los?) em cenas impagáveis, como quando ele dá palmadas (ele não usa exatamente palmas...) em um escritor que ameaça fisicamente seu interesse amoroso na história, a "robix" (feminino de robô) cor-de-rosa da censura chamada de "Miss Blushes", ou quando a enfermeira Bishop lhe dá a ideia de mexer com os circuitos da robix para que eles fiquem em sintonia — ideia que é tomada como afronta pelo robô azul, que fica ofendidíssimo! Esse personagem é simplesmente impagável, sendo muito melhor do que — por exemplo — seu "primo" depressivo "Marvin" de "Guia dos Mochileiros das Galáxias".
Algo que Zane Gort traz consigo são as referências e piscadelas a Isaac Asimov e Karel Čapek — aqui Leiber escancarando suas influências, citando uma das 3 Leis da Robótica ou o livro "Eu, Robô". Neste universo, Čapek e Asimov foram canonizados como santos pelos robôs — por mais de uma vez Zane usa "Pelo Santo Isaac" ou "Por São Karel" como exclamações em determinados momentos.
É claro que eu não poderia finalizar esta análise sem falar sobre os cérebros prateados do título: tratam-se de cérebros de grandes escritores da "antiguidade" que foram mantidos em ovos metálicos por muitos anos para a preservação de seus intelectos. Ao longo do tempo eles foram mantidos em um hospital/creche, sendo cuidados por linhagens inteiras de enfermeiras, da qual a enfermeira Bishop faz parte. O hospital era de propriedade de um editor que nunca ligou para eles por sempre manter seus lucros com as Fábricas de Palavras, mas com a destruição dessas máquinas, se vêem obrigados a apelar para os cérebros dentro dos ovos de prata — e é aí que está o ouro deste livro: os cérebros são totalmente descolados da humanidade, são sarcásticos e desdenham absurdamente dos humanos e seus "palavrórios". E para dar algumas amostras do temperamento dos cérebros, separei alguns trechos que eu gostei muito:
"- Quero falar e não me interrompa! — disse a voz esquisita que saía do alto-falante. Fiquei a ouvi-los por muito tempo, fui muito paciente, mas temos que dizer a verdade. Entre vocês, encarnados, e nós há uma distância de mundos, aliás mais do que mundos, porque não há matéria, não existem mundos onde eu me encontro Há argila, não há carne. Eu existo dentro de uma escuridão tão negra que, em comparação com a escuridão intergaláctica, pode ser chamada de luminosa.";
"Como foi que vocês conseguiram imaginar que íamos nos rebaixar e escrever livros para vocês, inventando combinações e permutações de seus ódios e seus comichões?";
"Nossa solidão está além de sua compreensão. Ela se arrasta, estremece e apavora pela eternidade. Transcende sua solidão, como a morte por tortura lenta transcende o morno e róseo fim provocado pelos barbitúricos. Aturamos nossa solidão e de vez em quando nos lembramos, sem qualquer carinho, entendam bem, do homem que nos colocou nesta situação, daquele cirurgião-inventor egomaníaco e monstruosamente talentoso, que queria apenas dispor de uma biblioteca particular de trinta mentes aprisionadas, para poder discutir filosofia, e nos lembramos do mundo que nos condenou a uma noite eterna e depois continuou seu caminho rangendo, aos trancos e solavancos.";
"- Cavalheiros — disse um dos ovos maiores —, suponho que vocês compreendem que somos apenas cérebros e nada mais. Podemos apenas ver, ouvir e falar. Nosso equipamento glandular é mínimo, podem acreditar, apenas o suficiente para evitar que vegetemos. Então pergunto aos senhores, com toda humildade, como é que os senhores podem esperar que tenhamos qualquer interesse em escrever contos que descrevam ações em áreas do umbigo para baixo, sensações apropriadas para débeis mentais conformistas, e com uma pesadíssima ênfase naquela tediosa intumescência que vocês, através de um eufemismo, chamam de amor?"
Apesar da verborragia gostosa que pode ser vista nos trechos acima, "Os Cérebros Prateados" é uma crítica despretensiosa, que não possui a proposta de ser a melhor obra da humanidade, onde Leiber provavelmente desabafou de maneira bem-humorada sobre como enxergava o mercado editorial de seu período e até mesmo estende a crítica à própria sociedade da qual fazia parte. E eu me sinto bastante agraciado por ter tido a chance de conhecer este livro, que me divertiu muito durante sua leitura, ao mesmo tempo que provocou reflexões diversas e muito interessantes! Que bom que nós tivemos uma editora como a Hemus, que foi muito além do padrão e trouxe para nosso país um livro tão único e desconhecido como "Os Cérebros Prateados"!
TS:
Frank Zappa no aleatório, de diversas fases, com destaque para versões de estúdio e ao vivo de músicas como:
"Montana";
"City Of Tiny Lights";
"Honey, Don’t You Want a Man Like Me?";
"The Torture Never Stops";
"Son of Orange County";
"Dinah-Moe Humm";
"Muffin Man"
Dentre muitas e muitas outras !!!!