Nesse curto e inspirado livro, Jacques Verger circunscreve a figura dos "homens de saber": indivíduos treinados e educados em diferentes formas de conhecimento dispensadas pelas principais instituições educacionais europeias entre os séculos XIV e XV. Deixando de lado a tradicional definição de "intelectual" (divergindo, assim, do clássico livro do medievalista Jacques Le Goff), Verger opta por uma terminologia que dá maior ênfase às nuances medievais da constituição social, política e cultural desse grupo de homens que tinham suas vidas entrelaçadas com as principais figuras do poder na Idade Média — a Igreja Católica e as monarquias. As três partes do livro articulam as três dimensões nas quais o historiador vê emergir seus protagonistas: os fundamentos culturais (os saberes, as instituições e os livros), as competências (o serviço prestado à Igreja e à monarquia, a integração com a sociedade), a representação de grupo (como esses homens viam a si mesmos e o que desejavam para si mesmos como instância diferenciada da sociedade).
Homens e saber na Idade Média (Educar) -
Jacques Verger
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Ver maisJacques Verger é conhecido por sua carreira dedicada à história social da vida intelectual medieval. Esse livro é, certamente, um ponto de síntese de suas pesquisas e das de vários outros historiadores do assunto. Olhando retrospectivamente ao pequeno, mas interessantíssimo, livro de Jacques Le Goff, <i>Os intelectuais na Idade Média</i>, Verger se dedica a fazer uma espécie de ajuste ao ensaio de Le Goff. Onde o grande mestre decidira identificar "intelectuais", Verger propõe uma outra categorização: "homens de saber". Essa classificação é um deslocamento importante. O livro de Le Goff já contava com quatro décadas à época da publicação de Verger. Por isso, houve amplo tempo para que novas pesquisas fossem feitas sobre as pessoas (em sua maioria, é verdade, homens) que se dedicavam às atividades intelectuais na Idade Média ocidental. E, com razão, Verger decide resumir a relação deste seleto grupo com o saber pela via não mais das "atividades intelectuais", mas sim das práticas e das representações. Em voga desde a época que Verger publicou até hoje, as práticas e representações são dois instrumentos fundamentais de análise dos quais o historiador se serve para reconstruir, à sua maneira, as relações sociais de uma sociedade já inexistente. Saindo do corte sociológico de Le Goff (isto é, do olhar sobre a formação dos "intelectuais" como grupo social mediada por uma análise das origens sociais, do processo de formação de uma corporação, etc.), Verger introduz um corte cultural na história social desse grupo. Assim, desenvolve por dados estatísticos a proposição de que os "homens de saber" eram, em sua maioria, marcados por uma série de disposições fundamentais que, de um lado, eram recebidas das instituições nas quais eram educados e formados e, de outro, eram reproduzidas nas instituições nas quais desempenhavam as funções que adquiriam mediante essa educação formal. Para falar no linguajar sociológico mais próximo de Pierre Bourdieu, esse livro trata-se de uma descrição das condições que informaram o <i>modus operandi</i> dos homens de saber, seu <i>habitus</i>. Por essa via, Verger consegue delimitar que as práticas dos homens de saber estavam intrinsecamente ligadas às representações que tinham de si mesmos: uma elite altamente educada, servidora dos maiores poderes da Europa, ciosa de seu lugar privilegiado e desejosa de conservar seus privilégios, galgando ao mesmo tempo melhorias pelas vias possíveis que lhes eram abertas. Verger apresenta, então, um modelo de "homem de saber". Evidentemente, as pessoas de carne e osso que viveram entre os séculos XIII e XV desviavam de múltiplas maneiras dessa classificação historiográfica. Isto, contudo, não diminui uma importante contribuição baseada em evidências coligidas ao longo de muitas décadas por uma série de pesquisadores. Ao nos fornecer um modelo, aumenta a potência do fazer historiográfico permitindo que possamos identificar em pessoas concretas o funcionamento das normas sociais e os meios pelos quais elas se serviam delas, ao mesmo tempo que podemos analisar os desvios e inovações que ocasionaram as mudanças na cultura e na sociedade.
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