Alcoólatras. Bêbados. Da classe média (às vezes da alta). Falidos. Homens brancos. Veteranos de guerra. E, em geral, insólitos. Essa é a base da galeria de personagens que desfilam nestes 28 contos de John Cheever, o Tchekhov americano.
Em mais uma excelente contribuição para os leitores brasileiros, este livro da Coleção Listrada traz 28 contos selecionados pelo jornalista Mario Sergio Conti - repórter de inteligência aguda que ficou marcado na crônica da vida pública brasileira por entrevistar um sósia do técnico Felipão em 2014 - entre as 61 breves narrativas presentes em The stories of John Cheever, livro que deu ao autor estadunidense todas as glórias possíveis, incluindo um prêmio Pulitzer de ficção.
As histórias de John Cheever são quase monotemáticas. O que, em um primeiro momento, pode parecer jogar contra ele. No entanto, Cheever foi um habilidoso ficcionista e muitas das breves narrativas presentes aqui se sustentam pela força da prosa, que, quando envolventes, prendem os leitores sem deixar espaço para fuga. É o caso dos melhores contos da coletânea, como o fantástico O enorme rádio, que possui um quê de real maravilhoso e é conduzido em ritmo perfeito pelo autor, sendo uma história que possui reflexões práticas em nossa era de superexposição e de redes sociais, e envolve as agruras de um casal que vive das aparências; do borgeano Lamento amoroso, que permite múltiplas interpretações sobre a mulher sempre vestida de preto que atormentava, em diferentes situações, a vida de Jack Lorey, protagonista desta história; das narrativas sobre ingenuidade, pobreza e busca do tão estadunidense sonho americano para alcançar o sucesso ou enriquecer que aparecem em Ó cidade dos sonhos falidos, O pote de ouro e O Natal é uma época triste para os pobres; das histórias que envolvem os problemas conjugais ou de se fazer parte de uma família presentes em Adeus, meu irmão, Os Hartley (esse com clímax chocante que antecede as linhas finais, vale o destaque), Só quero saber quem foi, A cômoda e Reencontro; dos divertidos, inventivos e peculiares O general de brigada e a viúva do golfe e Três histórias; e, é claro, a grande estrela deste livro, o enigmático O nadador, conto perfeito que pode (deve) tranquilamente figurar em qualquer lista sobre o gênero e, de tão extraordinário, possui uma adaptação hollywoodiana estrelada pelo ator Burt Lancaster intitulada por aqui de Enigma de uma vida.
Para o gosto deste leitor, Cheever tem uma qualidade especial para um contista que me desagrada um pouco: ele consegue injetar muita densidade em poucas páginas e, devido a isso, suas narrativas breves possuem uma máscara novelesca. Para quem gosta mais de romances que contos, por exemplo, Cheever será melhor aproveitado. Eu, apreciador da narrativa breve como um momento deslocado no tempo como se fosse um sonho ou uma fotografia, canso com certa facilidade nesse outro estilo de brevidade. Creio, também, que essa característica de Cheever é compartilhada com outro grande nome do gênero: Alice Munro. A canadense ganhadora do Nobel também faz parte dessa distinta vertente da arte da brevidade. Ou pode ser que eu só esteja mal acostumado com a precisa genialidade dos saudosos Lygia Fagundes Telles e Sérgio SantAnna, não vou negar.
Como manda a tradição do gênero, este 28 contos é um livro com veredicto misto. A boa notícia é que a maior parte dos contos pode ser classificada como ótima e excelente, enquanto o restante é composto por boas e agradáveis narrativas (talvez uma ou outra esquecível). No fim, o que fica é a sensação de ter lido um pouco mais sobre a insólita vida burguesa nos Estados Unidos do século passado. E isso não é pouco.
OBS: para quem está com o inglês em dia, vale procurar e conferir a leitura para lá de especial de ninguém menos que Meryl Streep para o conto O enorme rádio (The enormous radio, no original). Ela encena todas as vozes dessa breve narrativa e nem a minha mais profunda imaginação poderia ter dado melhores características às personagens. A participação dela e de outras celebridades (menos) famosas fez parte de um projeto chamado The John Cheever Audio Collection, em que alguns contos ganham vida na voz de gente importante para mostrar que não se brinca com a ficção. Além desse registro especial, vale conferir também a leitura de quatro contos do Tchekhov americano selecionados para o podcast de ficção da tradicional revista New Yorker.