Esqueça a balela mistica, a linguagem pretensamente oculta e o orgulho desmedido de sugestionar ter dominio de todos os segredos do universo e só dividi-lo com o Grande Pateta ou Viado Mor de adereços, supostamente "iniciado". Somos todos neófitos, afinal.
Dito isso, Dogma e Ritual é uma obra insuperável.Veja-só, Crowley gostava de se gabar das inúmeras "coincidencias" de sua própria vida com a de Levi, e para exemplificar apontava de cara "as enormes semelhanças na fluência e beleza de estilo" entre ambos. Sempre espertinho este Mister Aleister Crowley. Na verdade tenho uma profunda afeição por Crowley, seus são livros pincaros, traduzindo: pináculos do sec.XX, mas quando a questão é tratar de estilo e fluência, bem, aí não tem pra ninguém, Eliphas Levi mata a cobra de bronze e mostra o pau do caduceu gloriosamente.
Sou tarado por literatura mistica, ela é mais poética que a própria poesia pq a busca de deus não é um tema, entre o simbilar dos passaros e as auguras do cotidiano, a busca de Deus É o Tema. Nisto obviamente se cairá inefavelmente no abismo do delirio e loucura, sem contar o mal gosto da pretensão. Manter a cuca fresca e clara nesta insanidade e nesta busca, e a biografia de Levi é um atestado vivo deste glorioso azar insano, eis a Grande Obra do Bardo Mistico Frances.
Dogma e Ritual é a flor, a culminancia do conhecimento mistiso, a mais bela safra, eis uns trechos colhidos não ao acaso:
"Através do véu de todas as alegorias hieráticas e místicas dos antigos dogmas, através das trevas e provas bizarras de todas as iniciações, sob o selo de todas as escrituras sagradas, nas rúinas de Ninive ou Tebas, sob as pedras carcomidas dos antigos templos e na face escurecida das esfinges da Assiria e do Egito (...)encontra-se traços de uma doutrina em toda parte a mesma e em toda a parte escondida misteriosamente. A filosofia oculta parece ter sido a nutriz ou matriz de todas as forças intelectuais, a chave de todas as obscuridades divinas, e a rainha absoluta da sociedade, nos tempos em que era exclusivamente reservada à educação dos padres e reis."
Bacana, né!? este é o primeiro parágrafo da Introdução,quase inofensivamente Eliphas nos chamma atenção para o "Segredo", em seguida desenvolve os caminhos desta "rainha" desde a Persia dos Maggis, por Alexandria, pela queima de De Molay até sua propria epoca, pós napoleonica, observando que:
"Sim, existe um segredo formidável, cuja revelação já derrubou um mundo, como atestam as tradições religiosas no egito, resumidas simbolicamente por Moises no começo do Genesis. Sim, existe um dogma único universal, imperecivel, forte como a razão humana, simples como tudo o que é grande, inteligivel como tudo o que é universal e abslutamente verdadeiro, este dogma foi pai de todos os outros"
Neste momento, em sua poltrona, o leitor incauto e curioso esta prendendo a respiração e, oras bolas, com o cu na mão! E o que Eliphas faz??? Te manda aprender o alfabeto hebraico e se aprofundar no talmud!!! Que os raios de Zeus o partam! vc pensa revoltado. Mas Eliphas é assim mesmo, promete, e se lhe podemos dar desconto pelo que é indescontavel, ele promete belissimamente.
Citar estas promessas seria um exercicio contra a sintese, mas elas estão lá espalhadas por todo o dogma (primeiro capitulo) e o ritual (segundo). Concordo com Crowley que o maior defeito de Levi foi tentar concliar a filosofia oculta com os dogmas da madre igreja romana, mas repito, como exercicio artistico esta obra perdurará ainda muito pelos tempos "ela esta feita, cremo-la duravel, porque é forte como tudo o que é razoavel e consciencioso"