A língua absolvida - História de uma juventude

    Elias Canetti

    Companhia de Bolso
    2010
    344 páginas
    11h 28m
    ISBN-10: 8535917667
    Português Brasileiro

    A língua absolvida, Uma luz em meu ouvido, O jogo dos olhos: trilogia autobiográfica em que o prêmio Nobel de 1981 relembra seus anos de formação, da Bulgária pré-Grande Guerra à Berlim dos anos 30. Em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos. Canetti é alguém que sentiu de forma profunda a responsabilidade das palavras; e muito de sua obra esforça-se por comunicar algo do que ele aprendeu a respeito de como prestar atenção ao mundo. — Susan Sontag

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    Karin de Guise06/02/2026Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A língua que revela

    O que mais me marcou em A língua absolvida não foi a formação de um escritor, mas a intensidade quase sufocante de um vínculo: a relação de Canetti com o pai — e, depois, com a mãe. A morte do pai, quando Canetti tinha apenas sete anos, deixando a mãe viúva aos vinte e sete, o marcou de maneira indelével. A partir daí, ele passa a tentar ocupar o lugar do pai junto à mãe: protege-a, vigia-a e não suporta a ideia de que ela venha a se casar novamente. Esse arranjo tem um custo alto. A mãe sofre, passa por sanatórios, afasta-se dos filhos; a comunicação entre ambos se dá sobretudo por cartas, e a relação acaba se tornando um misto de amor e ódio, admiração e ressentimento. A mãe é uma figura peculiar e profundamente ambivalente. Ama o filho com ferocidade, mas também o fere: despreza seu amor pelos animais, humilha suas paixões e afirma, sem rodeios, que ele se tornou arrogante — “não foi para isso que eu me sacrifiquei”. Há nela algo de destrutivo, e é difícil não supor que esse sacrifício exigido e reiterado carregue também muito ressentimento. Ao longo do livro, Canetti parece não perceber aquilo que a própria narrativa revela: ele se torna, em grande medida, aquilo que a mãe o acusa de ser. Suas reflexões sobre arte e cultura frequentemente assumem um tom de superioridade que cansa, um pedantismo que não soa apenas juvenil, mas persistente. Talvez esteja aí a ironia maior do livro: ao tentar se absolver pela linguagem, Canetti acaba expondo suas próprias falhas. A Europa do início do século XX — a Primeira Guerra, o antissemitismo crescente — serve de pano de fundo para essa história profundamente humana, que narra menos a formação de um grande escritor do que a formação de uma pessoa marcada por vínculos intensos, perdas precoces e conflitos nunca inteiramente resolvidos.

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