Quando deixamos de entender o mundo
É difícil fazer avaliações de livros que são "somente" conteúdos históricos. Como você faz uma resenha de um diário, por exemplo? Para o historiador, o que conta não é apenas a beleza da escrita ou a concatenação dos fatos, mas a honestidade intelectual e emocional do autor, a pertinência de suas colocações e, talvez no limite, seja uma avaliação da própria vida. Foram essas as sensações que tive antes de escrever uma resenha de "Querido Ivan". A emoção, a sinceridade e a riqueza de detalhes é o que tornam este livro um documento indispensável, que enriqueceu ainda mais a leitura de um livro prévio de Haroldo Maranhão, o Rio de Raivas - quase como se fosse um posfácio. E por quê o livro pode ser visto dessa maneira? Essencialmente, Querido Ivan é uma coleção de cartas de Haroldo Maranhã a seu irmão, Ivan Maranhão. Ivan, jornalista de formação (obtida nos EUA), foi diretor do jornal O Imparcial e Flash, além de diretor do suplemento literário da Folha do Norte, jornal chefe dirigido pelo avô Paulo Maranhão. Pela sua formação teórica robusta e moderna aliada à experiência e genuíno entusiasmo, Ivan era, aos olhos de Haroldo, o único cidadão com as mínimas condições de herdar e administrar os jornais da família, mas infelizmente a história não lhe fez justiça. Como visto (de maneira cifrada) no final de Rio de Raivas, a Folha do Norte, a partir da morte do patriarca Paulo, entra numa espiral de decadência incontrolável - com a família inteira tentando saquear a fortuna amealhada pelos periódicos, o filho João Maranhão e os netos Ivan e Haroldo são depostos de seus cargos e assume o interventor Augusto Magessi, almirante que não entendia patavinas de jornalismo. A intervenção de Magessi, encerrada de forma melancólica com a venda da Folha do Norte a Rômulo Maiorana entre 1972-4, significou o fim do capital simbólico da família Maranhão e a perda da fortuna da maioria de seus membros, incluindo Ivan e Haroldo - este último, ao se mudar para Petrópolis no começo dos anos 70, perde contato com o irmão, que permaneceu em Belém. No fim de 1992, porém, uma drástica circunstância força a retomada do contato por parte de Haroldo: Ivan descobre um agressivo tumor na garganta, que o mata poucas meses depois - nem pela doença em si, mas porque o tumor cresceu tanto que ele se asfixiou. Com a brutal evolução da doença não deixando margem para uma sobrevivência, Haroldo escreve, entre março e maio de 1993, 21 cartas as quais, ele sabia, não seriam lidas pelo destinatário. E são algumas das missivas mais belas que conheço em língua portuguesa. Essencialmente, as 21 cartas gravitam em temas nostálgicos, quase como uma literatura de conforto. São mencionadas a infância excêntrica nas oficinas da Folha do Norte, o único lugar em que os meninos podiam brincar sem estarem sob risco dos capangas de Barata; das disputas familiares em torno da Folha do Norte, e do brutal destino que lhe reservou Maiorana (ironicamente, ex-colunista de lá); os relacionamentos e escapadas dos dois; a bibliofilia herdada do avô Paulo, professor de literatura antes de se tornar burguês da imprensa; as injustiças sociais e a culpa burguesa que assola os dois... enfim, são uma variedade de temas para todos os gostos, que me fazem ter uma empatia enorme pelos irmãos sem nem conhecê-los O que me leva a caracterizar este livro como uma literatura de conforto não são apenas os temas e o estilo nostálgico de escrita de Haroldo Maranhão, mas também a brutal diferença deste livro com seu antecessor espiritual, o Rio de Raivas. Por contraste, tive a sensação que, no romance, Haroldo destilou a família que realmente tinha; aqui, na intimidade com o irmão, desabafou sobre a família que realmente queria. Isso fica claro quando Haroldo menciona ao Ivan algumas de suas outras irmãs, falando sobre suas vidas, enquanto que no romance (algo público) todos participam da pilhagem do "Folharal" (Folha do Norte). Em um mundo onde geralmente essas posições estão invertidas (quer dizer, ao público aos louros, e por trás as chibatadas), essa diferença de tratamento vara muito entre o instigante, o melancólico e o comovente. Não sei se é um livro que faria outras pessoas chorarem. Mas certamente poderão ver os sonhos perdidos dos dois meninos que só queriam brincar com os tipógrafos da Folha do Norte em detrimento de seus colegas ricos. *Co-edição entre a Grafisa e o Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto. Este assina um prefácio que contextualiza historicamente o jornalismo paraense e também a relação das cartas

