Pope é fantástico (uma alma grandiosa!) e as traduções estão muito boas.
A sabedoria de Pope muitas vezes se aproxima do Budismo, outras vezes se aproxima da antiga sabedoria clássica (estoicismo) ou daquela lembrança da morte sempre presente típica da Baixa Idade Média.
Abaixo, transcrevo a sinopse e todos os poemas do livro (exceto o maior, a íntegra dos 5 cantos do poema herói-cômico "A violação da Madeixa" ("The Rape of the Lock"). O livro contém ainda um ensaio inicial do tradutor (21 páginas), uma cronologia da vida de Pope (4 páginas) e 62 notas aos poemas.
Sinopse:
Poeta da razão, da moderação e do equilíbrio, Alexander Pope fez da perfeição formal o princípio unificador de sua obra, o que explica o caráter altamente artificioso, contido e sutil de sua poesia. Maior poeta do neoclassicismo inglês, Pope foi um mestre no uso de comparações metafóricas e de confrontos irônicos.
O brilho verbal, o discurso inteligente e meditado, tornou muito de seus versos proverbiais. Eis alguns exemplos: "Uma erudição pequena é coisa perigosa"; "Quem há de decidir quando os médicos divergem?"; "Errar é humano, perdoar é divino"; "A mordida não mata, mas sim a baba".
Influenciado pela tradição, pelos cânones do classicismo, Pope não desviou os olhos do mundo urbano e do universo social de sua época. Isso lhe permitiu reconciliar, de modo admirável, a razão moderna e a autoridade clássica.
A presente antologia, - organizada por Paulo Vizioli - selecionou os melhores momentos desta obra. Contém excertos de Ensaio sobre a crítica, A Asníada, Ensaio sobre o homem e a íntegra de sua obra-prima A violação da madeixa, dos poemas Elegia à memória de uma dama infortunada, Ode à solidão, e ainda de A oração universal.
Abordando os gêneros lírico, didático e satírico, Pope nos dá amostras não só de um estilo regular e ordenado, como também de um profundo senso moral, de um notável espírito crítico e de uma aguda visão satírica.
POEMAS
ODE À SOLIDÃO
(1717, 1736)
Feliz quem seus desvelos e atrativos
Nins poucos acres paternais encerra,
Contente em respirar ares nativos
Na sua própria terra.
Do gado o leite vem, da messe o pão,
Da ovelha o traje simples e macio;
No calor, sobra as árvores lhe dão,
Fogo lhe dão no frio.
Bendito quem, atarefadamente,
Ao voo dos dias e anos presencia;
Com o corpo sadio, em paz a mente,
O sossego de dia,
Sono profundo à noite; de mistura
Ócio e labor, gentil recreação;
E a inocência, que de melhor se augura,
Com a meditação.
Assim eu viva, obscuro e só comigo;
Sem lamentos, assim eu me consuma;
Que eu me esgueire do mundo, e meu jazigo
Não mostre pedra alguma.
A ORAÇÃO UNIVERSAL
(1715, 1738)
Pai de Todos, que, em todas as paragens
E idades tens adorador;
Buscam-te santos, sábios e selvagens,
Jeová, Jove ou Senhor!
Causa primeira, Tu, Ser misterioso,
Que ataste os sentidos que emprego
Para eu saber apenas que és bondoso,
E que eu próprio sou cego.
Mas permitiste, neste obscuro estado,
Que eu distinguisse o bem do mal;
E, mesmo unindo a natureza ao fado,¹
Me deste a opção moral.
No que a consciência ordena a mim, discerno
(Se me insta a agir, se impõe limiar)
Algo maior do que fugir do Inferno
Ou do que o Céu buscar.
Nenhuma bênção que por Ti me é dada
Eu jogue fora na imprudência,
Pois, quando o homem recebe, a Deus agrada:
A ventura é obediência.²
Que eu não limite às dimensões terrenas
De tua mercê os dons fecundos,
Ou Te julgue Senhor dos homens apenas,
Tendo em volta mil mundos.
Não pretenda esta mão arremessar,
Ignara e fraca, os raios teus;
Nem leve a danação a quem julgar
Inimigo de Deus.
Se eu estou certo, dá-me o galardão
De não sair de onde me alinho;
Se estou errado, faz meu coração
Achar o bom caminho.
Ou salva-me da estúpida altivez
E do desgosto que é impiedade³,
Pelo que me negou tua sensatez
Ou me deu tua bondade.²
A dor de outrem ensina-me a provar,
Ou a esconder o seu senão;
E, se perdão aos outros eu mostrar,
Mostra-me igual perdão.
Embora vil, não sou de todo assim,
Que o sopro teu vida me dá;
Na vida ou morte de hoje guia a mim,
Para onde quer que eu vá.
Concede-me este dia a paz e o pão;
Mas tudo o mais que o sol abraça,
Tu sabes se é melhor ceder ou não...
E o teu querer se faça.
A Ti, que tens por templo o espaço imenso,
Por altar terra, mar e alturas,
Envie a natureza seu incenso,
Seu coro as criaturas.
¹ Isaac Newton.
² Estoicismo: conforma-te ao teu destino. Querer o que tem, não querer o que não tem.
³ "Or impious Discontent".
A ASNÍADA
- versos finais do livro IV e último -
(1745)
O Triunfo da Obtusidade
Em vão, em vão... A criativa Hora beata
Tomba sem resistir a Musa à Deusa acata.
Ela vem! Ela vem! No trono ei-la afinal
Do Caos antigo e de sua Noite primordial!
Ante ela, as nuvens de ouro perde a Fantasia,
E a seu arco-íris variegado renuncia.
Seus momentâneos fogos lança o Engenho em vão,
O meteoro cai e expira num clarão.
Assim como, um por um, ao mando de Medeia,
Os frouxos astros apagaram sua candeia,
E os olhos de Argo, ao caduceu de Hermes superno,
Um por um se fecharam para o sono eterno,
Assim, a vinda dela e a seu potente açoite,
Arte após Arte vai em bora, e tudo é Noite.
A seu antro a Verdade esquiva torna a pressa,
Com pilhas de Casuísmo em cima da cabeça!
Já a Filosofia, não mais do Céu afim,
Se encolhe na segunda causa, e chega ao fim.
Na Metafísica, eis que a Física se escuda,
E a Metafísica aos Sentidos pede ajuda!
Da Matemática os Mistérios se socorrem!
Em vão! Olham, se aturdem, rosnam, e então morrem.
Corando, a Religião seus sacros fogo vela,
E a Moral, de inopino, expira ao lado dela.
Nenhum clarão, privado ou público, ilumina;
Não existe centelha humana, nem divina.
Eis restaurado, CAOS, o teu Império acerbo;
A Luz sucumbe face o teu estéril verbo;
À cortina, grande Anarca, vem fechar tua mão,
E enterra a Tudo universal Escuridão.
(versos 627-656)
ENSAIO SOBRE O HOMEM
(1733, 1734)
Da Epístola I
No mar, nos ares e na terra, observa atento
Quanta matéria vive, e irrompe em nascimento.¹
Quão alta a vida em cima, em progressão fecunda!
Quão extensa, ao redor! Embaixo, quão profunda!
Oh cadeia do Ser!² que vasta criou Deus -
Entes etéreos, o homem, o anjo, aves dos céus,
Peixes, insetos, o que o olhar não vê por si,
Nem lente alcança; do Infinito para ti,
De ti ao nada. - Quem poderes superiores
Preme, premido pode ser por inferiores;
Ou quem deixa um vazio à Criação abala,
Onde o romper de um grau destrói a grande escala.
Não importa qual seja esse elo que falseia;
Grande ou minúsculo, quebrada está a cadeia.
E, se cada sistema em gradação volvendo
É igualmente essencial para o Todo estupendo,
Qualquer perturbação que basta um só sentir,
Não a ele apenas, mas ao Todo faz cair.
Saia da órbita a terra e perca seu aprumo:
Sóis e planetas pelo espaço vão sem rumo;
Tombem anjos regentes para o abismo fundo:
Ser sobre Ser se arruína, e mundo sobre mundo.
Que respeitem o centro as fundações dos céus,
E acate a natureza o trono de seu Deus.
Romper a ORDEM temível?! - E por quem? Por ti?
torpe verme! Oh impiedade, orgulho, frenesi!³
(versos 233-258)
¹ Schopenhauer chama a atenção para o outro lado: tudo que nasce morre. A esmagadora maioria dos seres, ml nasce já morre. Poderíamos chamar a Natureza (de forma não menos apropriada) de "Mortureza".
² Ideia do final da Idade Média. Em Portugal, o cronista Fernão Lopes recorre a ela em suas argumentações.
³ Há na Ilíada um episódio sobre isso. Zeus quer salvar um seu herói preferido, mas Hera o avisa: "Você pode salvá-lo, mas todo o Cosmos ruirá por causa dessa transgressão!"
Tudo é parte de um todo de sem par grandeza,
Cuja alma é Deus, e cujo corpo é a Natureza;
Que por tudo se altera e em tudo é o mesmo ainda,
Grande na terra e na amplidão etérea infinda;
Refresca a nós na brisa, a nós no sol aquece,
Brilha nos astros, e nas árvores floresce,
Por toda vida vive, a todo alcance alcança,
Se estende e não se parte, opera e não se cansa,
Sopra a alma e molda a carne, esse mortal quinhão,
Pleno e perfeito, num cabelo ou coração;
Pleno e perfeito, quer num homem vil que chora,
Quer no enlevado serafim que ardendo adora;
Para ele não há baixo ou alto, ou grande ou miúdo;
Ele nutre, restringe, liga e iguala tudo.
Cessa! Nem à ORDEM chames mais de imperfeição:
No que acusamos se acha a nossa redenção.
Vê teu limite: essa porção justa e devida
De cegueira e fraqueza a ti é concedida.
Sujeita-te... Ou nesta, ou em qualquer esfera,
Garante as bênçãos todas que teu ser tolera -
Um ser na mão de um só poder dispensador,
Na hora do nascimento ou na hora em que se for.
A Natureza toda é uma arte ignota a ti;
Todo acaso, desígnio, que não vês aqui;
Toda discórdia, uma harmonia que ouves mal;
E todo mal parcial, o bem universal:¹
Malgrado o orgulho, o pensamento pouco aberto,
Uma verdade é clara: TUDO O QUE É, É CERTO.
(versos 267-294)
¹Leibniz, o melhor dos mundos possíveis...
Da Epístola II
Busca a ti conhecer, em vez da Divindade;
É através do Homem que se estuda a humanidade.
Um ser num istmo que em lugar médio se expande,
Obscuramente sábio e rudemente grande:
Tem, para um cético, incomum sabedoria,
E, para o orgulho estoico, é fraco em demasia;
Entre o repouso e a ação não sabe escolher qual;
Não sabe se se julga deus ou animal;
Entre o Espírito e o Corpo oscila sem parar;
Nasce para morrer, medita para errar;
Sua ignorância e sua razão mostram-se iguais,
Quando pouco a pensar, quando a pensar demais;
Caos de Emoção e Pensamento, um turbilhão,
Ele próprio se avilta e obtém sua redenção;
Para erguer-se e cair o fez a natureza;
Grande senhor de tudo, e que de tudo é presa;
Da verdade é o juiz, mas no erro mais profundo;
O ridículo, a glória, o enigma deste mundo!
(versos 1-18)
ENSAIO SOBRE A CRÍTICA
(1709, 1711)
Não sei dizer se a incompetência é mais usual
No indivíduo que escreve ou no que julga mal;
Mas, desses dois, menos perigo apresenta
Quem entedia a nós que quem nos desorienta.
Poucos falham ali, mas muitos deste lado:
Dez punem sem razão por um que escreve errado;
Antes o tolo expunha-se sozinho à tosa;¹
Hoje um em versos cria muitos mais em prosa.
Os julgamentos e os relógios em porfia
Jamais coincidem, mas cada um no seu confia.
Nos poetas o gênio é coisa que anda rara,
E nem sempre o bom gosto os críticos ampara;
ara ambos deve a luz do alto do céu descer:
Nasce um para julgar o outro para escrever.
Ninguém senão quem sobressai ensine a alguém,
Censurando sem peias o que escreve bem.
Se os escritores são parciais com seu talento,
Não são assim os críticos no julgamento?
Mas, se olharmos de perto, vemos que as sementes
Do julgamento, a Natureza pôs nas mentes:
Um bruxuleio ao menos ela no oferta,
E o traço, mesmo fraco, segue a linha certa.
Porém, como um esboço de beleza pura
Quando mal colorido perde a sua finura,
O saber trôpego ao bom senso desfigura.
A alguns confunde o emaranhado das escolas;
Outros, cheios de si, são só cabeças tolas.
Na ânsia da glória, a insensatez é sua política,
E, em sua própria defesa, partem para a crítica.
Há nos que escrevem, nos que não, ardor igual:
Todo o despeito de um eunuco ou de um rival.
O prurido do escárnio o tolo sente em si,
E sempre quer estar do lado de quem ri.
Se, a despeito de Apolo, Mévio escrever deve,
Há quem critique ainda pior do que ele escreve.
(versos 1-35)
¹ Em latim a palavra para "ingênuo, tolo" é a mesma que para "ovelha".
Primeiro segue a Natureza, e forja a mente
Por seu justo padrão, que nunca é diferente;
A Natureza que não erra, alto fanal,
Uma luz fúlgida, perene e universal,
Vida, força e beleza esparze em toda parte,
Ao mesmo tempo a fonte, o fim e a prova da arte.
A arte daquele fundo, as provisões divide,
Trabalha sem alarde, e sem festões preside.
Assim, num belo corpo, o espírito instrutor
Nutre com ânimo, enche o todo de vigor,
Dirige-lhe as moções, os nervos lhe sustenta,
Mas só é visto nos efeitos que apresenta.
Alguns, a quem o Céu foi pródigo em engenho,
Querem usá-lo com ainda mais empenho,
Pois Julgamento e Engenho podem contender,
Embora unidos, qual marido com mulher.
Nada de esporas! Ao corcel da musa guia;
Antes conter do que atiçar sua galhardia;
Qual generoso equino, esse ginete alado
Mostra melhor o brio se o curso é refreado.
Tais leis antigas, que não são coisa inventada,
São inda a Natureza, mas metodizada;
E, como a liberdade, a Natureza é adstrita
Somente pelas regras que ela mesma dita.
(versos 68-91)
A cada obra lerá o bom Avaliador
Segundo o espírito com que escreveu o autor;
O Todo vê - com falhas leves complacente,
Se a natureza move e o enlevo aquece a mente;
Nem perde, com obtuso e pernicioso empenho,
O prazer generoso de fruir o Engenho.
Mas a poesia que não cai nem extravasa,
Corretamente fria e normalmente rasa,
Que, mantendo um só tom, evita o desabono,
Foge, de fato, da censura... mas dá sono.
Como na natureza, o que comove na arte
Não é a exatidão que ostenta cada parte;
Não chamamos beleza um olho ou uma boca,
Mas a força do todo e o efeito que provoca.
Assim, na cúpula proporcional que assoma
(Justo assombro do mundo, e mesmo teu, oh Roma!),
Nenhuma parte nos surpreende em separado;
Aos olhos que contemplam, tudo vem ligado;
Sem monstruosa altura ou comprimento no ar,
O todo, ao mesmo tempo, é ousado e regular.
(versos 233-252)
O escrever fácil só com arte é que se alcança,
Como melhor se move o que aprendeu a dança.
Não basta que o poema seja comedido:
Deve o som parecer um eco do sentido.
Maviosa é a música se branda expira a brisa,
E em métrica mais doce o doce rio desliza;
Mas se a vaga vergasta o litoral plangente,
O verso rude e rouco ruge qual torrente.
Se vasta rocha Ajax esforça-se a atirar,
Também labuta a linha, e avança devagar;
Não assim, se veloz Camila varre o plano,
Vai sem dobrar o trigo e sem roçar o oceano.
Que surpresas Timóteo cria em suas canções,
Num subir e descer de alternas emoções!
(versos 362-375)
ELEGIA À MEMÓRIA DE UM DAMA INFORTUNADA
(1717)
Que fantasma me acena, às sombras do luar,
E na clareira adiante me convida a entrar?
É ela! Mas por que seu peito foi sangrado
E a espada visionária tem fulgor velado?
Oh sempre tão amiga, sempre tão sublime,
Dize: amar bem demais será no céu um crime?
Ter a alma muito meiga ou muito decidida,
Desempenhar papel de amante ou suicida?
Não merece luzente reversão na altura
Quem pensa com grandeza ou morre com bravura?
Por que, numes,mandastes sua alma então voar
Sobre os baixos desejos que há no ser vulgar?
É vosso lar sagrado que a ambição exalta:
Fê-la de anjos e deuses a gloriosa falta.
Só depois disso à terra ela desceu tranquila,
E nos peitos dos reis e dos heróis cintila.
Muita alma expõe-se uma só vez a vida inteira,
Da gaiola do corpo obtusa prisioneira;
Fosco facho de vida, que alguns anos dura,
Inviso, inútil, como luz em sepultura;
Qual monarca oriental, no ócio do trono enorme,
Em seu próprio palácio se confina... e dorme.
De gente assim talvez (mais cedo do que o devido)
A sorte a arrebatou ao céu compadecido.
Como os espíritos mais puros fluem para o ar,
Largando embaixo a sua escória familiar,
Sua alma fluiu para um lugar afim lá em cima,
Sem deixar mérito que a estirpe sua redima.
Mas tu, de tal encargo o pérfido guardião,
Tu, o vil desertor do sangue de um irmão,
Olha nos lábios de rubi o tremor forte,
A face que definha ao hálito da morte!
Frio o peito que ao mundo oferecia calor,
Paralisado o olhar que dardejava amor!
Porém, se uma justiça eterna rege a esfera,
Vossos filhos e esposas igual fim espera;
Uma vingança em toda a linha se pressente:
Vereis nos portões vossos féretro frequente.
Apontando, dirá a gente ali postada
(Enquanto os funerais negrejam toda a estrada):
"Eis aqueles a quem as Fúrias aceravam
E inexoráveis no ânimo amaldiçoavam."
Os orgulhosos vão-se assim, sem nostalgia,
O cortejo do tolo e o desfilar de um dia!
Assim pereça aquele a quem não incendeia
O alheio bem, e não comove a dor alheia.
O que irá reparar, oh sombra injuriada,
O rito não cumprido e a sorte não pranteada?
Piedade familiar e amiga compaixão
Não confortaram tua alma e ornaram teu caixão.
Mão estranha fechou teus olhos já sem choro,
Mão estranha compôs teus membros com decoro,
Mão estranha ataviou-te o túmulo tacanho,
O estranho te velou, e lamentou-te o estranho!
Que importa que nenhum amigo em negro pano
Chore uma hora talvez, ande de luto um ano,
E vá exibindo um simulacro de aflição,
Enquanto assiste à peça ou dança no salão?
Que importa que não te olhe as cinzas um cupido,
Nem te imite as feições o mármore polido?
Que o solo consagrado te recuse impura,
Nem se murmure nênia em tua sepultura?
Botões de flores te ornarão o último leito,
E a verde relva te será leve no peito;
Vai dar-te ali a primeira lágrima a manhã,
E ali vai florescer a rosa mais louçã,
Enquanto, com as asas, anjos anteparam
O chão, que agora tuas relíquias consagraram.
Assim descansa em paz, sem lápide, sem nome,
Quem teve bens, beleza, títulos, renome.
Se honra e amor conheceste, não adiantam nada,
De quem foste parente, nem por quem gerada.
Um punhado de pó restou de teu viver.
É tudo o que és, e o que os altivos hão de ser!
Também passa o poeta - como os que saúda:
Surdo, o ouvido louvado; e a doce língua muda.
Mesmo estes, que seus tristes cantos geme agora,
Vai logo precisar da lágrima que chora;
De seus olhos sem luz teus traços fugirão,
E a dor final te fechará seu coração;
Finda um suspiro o vão comércio desta vida,
E a musa está olvidada, e tu não mais querida!