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    O livro das vidas (Jornalismo Literário) - Obituários do New York Times

    Matinas Suzuki Jr. (org.)

    Companhia das Letras
    2008
    312 páginas
    10h 24m
    ISBN-13: 9788535911541
    Português Brasileiro
    4.3
    97 avaliações
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    O livro das vidas, uma seleção de obituários publicados no New York Times, é também uma aula de jornalismo, assinada por profissionais que combinam humor, ironia, poder de síntese e raro talento para contar a história de pessoas comuns que levaram vidas incomuns. Este título da coleção Jornalismo Literário apresenta ao leitor brasileiro uma pequena amostra da arte de escrever obituários. O livro das vidas reúne uma seleção de textos publicados na seção de obituários do New York Times, com ênfase nas histórias de pessoas comuns, cujas vidas ganham outra dimensão ao serem descritas com o olhar curioso e afetuoso dos repórteres do diário americano. Em detalhado posfácio que acompanha o volume, Matinas Suzuki Jr., coordenador da coleção Jornalismo Literário, mostra como a seção de obituários foi ganhando importância nos jornais americanos e ingleses ao longo das últimas quatro décadas. Suzuki relembra a trajetória de Alden Whitman, imortalizado por Gay Talese como o Sr. Má Notícia (em perfil incluído na coletânea Fama & anonimato), que deu novo impulso a este tipo de texto ao entrevistar figuras famosas com o objetivo declarado de recolher informações para os seus futuros obituários. "A seção de obituários do Times é uma cerimônia de adeus diária de bom jornalismo e uma das campeãs de leitura do jornal mais influente do mundo. Há quem pense que a valorização do obituário pela imprensa de língua inglesa seja um ritual de morbidez, mas isso é uma falsa impressão", escreve Suzuki. Para além dos "mortos ilustres", esta coletânea mostra como a seção de obituários pode alcançar grandes momentos ao descrever, com humor, ironia e notável poder de síntese, histórias de pessoas que dificilmente frequentariam as páginas dos jornais. Gente como Angelo Zuccotti, o sujeito que cuidava da porta de El Marocco, famosa boate nova-iorquina, e que considerava sua atividade uma arte. Ou Anton Rosenberg, amigo dos beatniks Jack Kerouac e Allen Ginsberg, que tinha uma atitude tão cool e uma despreocupação e indiferença tão grandes que "nunca chegou muito a nada". Entre os autores dos obituários desta coletânea, um merece atenção especial: Robert McG. Thomas Jr., que levou ao requinte literário a tarefa de sintetizar a vida dos personagens em uma única frase, a primeira do texto. Autor de 657 obituários - ou McGs, como ficaram conhecidos no New York Times -, morto aos sessenta anos, tornou-se ele próprio personagem de um texto nesta coletânea.

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    Alexandre Figueiredo picture
    Alexandre Figueiredo03/05/2021Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    Sínteses do fim

    A ausência inevitável. A única certeza da vida. Morte. Em plena pandemia resolvi ler um livro que trata do fim. E valeu a pena. Em “O livro das vidas”, uma seleção de textos organizada pelo jornalista Matinas Suzuki Jr., os leitores se deparam com um espaço nobre presente no jornalismo diário que passa, na maioria das vezes, despercebido do grande público: os obituários. Negligenciados pelos olhos menos atentos e pelos editores egocêntricos, o obituário é um momento de liberdade para qualquer jornalista. É nele que a escolha de fontes, a organização do texto e o tom da matéria podem ser os mais independentes possíveis, pois estamos falando de vidas em retrospecto. E aqui temos muitas vidas em retrospecto. A galeria de personagens oferecida tenta atender aos mais variados gostos possíveis. O microcosmo que amarra todos é a cidade de Nova York - afinal, são os obituários do New York Times -, mas somos convidados a descobrir no meio da multidão vidas incríveis que o silêncio esconde. Entre os 69 textos da seleção, estes são os meus preferidos: “O melhor amigo dos donos de gatos”, que com muita informação e bom humor conta a incrível história de Edward Lowe, o homem que descobriu acidentalmente o granulado que hoje é usado mundialmente nas caixinhas de necessidades dos felinos domésticos; “Apaixonada por genes”, obituário de uma qualidade informativa sem igual de Barbara McClintock, geneticista ganhadora do Nobel de Medicina em 1983, incentivadora de bolsas para meninas na ciência e a quem eu nunca tinha ouvido falar; o incrível e provável melhor texto desta coletânea, “Uma mulher do século”, sobre a anônima Rachel Neufeld, sobrevivente do Holocausto e do campo de Auschwitz que pelo mal gosto do destino faleceu ao atravessar um cruzamento e se chocar com a parte frontal de um ônibus; os complementares “Testemunha da peste, vítima da peste” e “O cara do New York Times com aids”, sobre o jornalista Jeffrey Schmalz, que cobria a epidemia de HIV em seu auge e faleceu devido ao vírus, um texto muito comovente; e por fim o interessantíssimo “Justiça a todo custo” sobre a inspiradora vida de Burnita S. Matthews, a primeira mulher a servir como juíza federal nos Estados Unidos e uma ferrenha defensora dos direitos das mulheres, que chegou a montar uma equipe inteira formada somente por elas, aterrorizando os corredores machistas da justiça do país mais poderoso do mundo. Em resumo, um livro especial. Mas um aviso aos navegantes: a estrutura textual é bem repetitiva por se tratar de um estilo jornalístico, e isso pode incomodar alguns leitores. É preciso fazer uma menção honrosa ao excelente texto final do próprio Matinas, que traz toda a história dos obituários modernos. Essencial para jornalistas, esse é um bom livro para quem procura uma leitura diferente sobre a nossa finitude.

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