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    MEALHEIRO DE AGRIPA (obras completas de humberto de campos #3) - Cronicas

    Humberto de Campos

    Editora Brasileira
    1961
    269 páginas
    8h 58m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    4
    5 avaliações
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    Esta edição da Obras Completas de Humberto de Campos foi impressa, segundo os desejos dos herdeiros do autor, na ortografia do acordo de ano 1931 entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa, do qual o autor foi um dos signatários e o cujo o vocabulário foi publicado em 1933.

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    Henrique Luiz Fendrich12/02/2023Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Humberto de Campos, cronista esquecido e inimigo de João do Rio

    A crônica anterior a Rubem Braga não só tinha notáveis cultores como havia, até mesmo, certa rivalidade entre alguns deles. Uma das principais rivalidades desse tempo separava João do Rio e Humberto de Campos. Aparentemente, João do Rio havia dito palavras pouco elogiosas a respeito da poesia de Campos, a quem dizia faltar talento, ao que Campos passou a responder com argumentos racistas e homofóbicos, além de preconceitos de classe. Curiosamente, os dois se tornaram membros da ABL, primeiro João, depois Humberto – e, quando soube que seu desafeto também se tornara imortal, João do Rio nunca mais voltou a pisar na Academia. Hoje em dia, João do Rio é celebrado como o autor de A alma encantadora das ruas, enquanto boa parte da sua produção permanece ignorada (e ele escrevia outros tipos de crônicas que merecem ser conhecidos). Por sua vez, a produção de Humberto de Campos, farta em seu tempo, foi praticamente toda esquecida (conhece aí alguém que já tenha lido um livro dele?). Atualmente, Humberto de Campos só é conhecido no meio espírita, pois vários são os livros atribuídos ao seu espírito, desde que Chico Xavier alegou psicografar mensagens do escritor. A alegação renderia inclusive um processo da família de Campos, relacionado a direitos autorais. Mas que tipo de crônica Humberto de Campos fazia quando estava vivo? Escolhemos um livro específico do autor, Mealheiro de Agripa (1921), para observar mais atentamente o seu estilo e verificar em que medida ele merece ou não o esquecimento que a posteridade lhe legou. Algo que chama a atenção logo no início da leitura das crônicas de Humberto de Campos é que a extensão do seu texto é muito parecida com a atual. Em geral, a sua crônica começa em uma página e termina na outra. Bem diferente das crônicas de João do Rio, tanto aquelas feitas à moda da crônica-reportagem como à da crônica política, que levam cerca de oito páginas ao serem transpostas para o livro. Com um tamanho reduzido, evidentemente o cronista não pode entrar em tantos detalhes no texto e precisa demonstrar uma boa habilidade de síntese. O livro de Humberto conta com 74 crônicas, número elevado, mas que são lidas com rapidez. É interessante observar que, nesse conjunto de crônicas, o escritor praticamente se vale de uma única estratégia, manifestada de duas formas diferentes: ou ele menciona uma notícia e faz uma analogia entre ela e alguma referência clássica, histórica, literária, bíblica, popular etc., ou, ao contrário, começa a crônica com essa referência e revela a notícia ao final. Seja como for, o cronista se mostra atento ao noticiário e usa o espaço do jornal para fazer o que alguns críticos chamam de “aprofundar a notícia”, o que, no seu caso, parece consistir em mostrar que não há nada de novo debaixo do sol, pois a referência mostra que algo já ocorreu antes. Como o espaço é curto, porém, Humberto não se aprofunda muito nem na notícia, em geral mencionada muito rapidamente, e nem nas analogias, que precisam ser mais superficiais. Não há demérito em fazer da crônica um espaço para uma reflexão superficial, porque se trata de um gênero do qual não se espera a profundidade de um ensaio ou um artigo jornalístico. Mais tarde, passaríamos a valorizar na crônica justamente a “conversa de bar”, descompromissada. Humberto tem o mérito de, sendo um erudito, usar seu conhecimento para escrever crônicas mais “palatáveis” ao leitor, favorecendo assim pequenas reflexões da população comum. As muitas referências feitas por um cronista contribuem para um objetivo muito nobre para o gênero, que é fazer com que o processo de leitura não se encerre com o jornal ou com o livro, pois, a partir do que leu neles, o leitor pode ir atrás daquilo que foi citado e, aí sim, aprofundar o seu conhecimento. Nesse caso, a crônica serviria então como via de passagem, quem sabe, para uma maior compreensão da realidade, não ficando reduzida às idiossincrasias de quem a escreve. Nas crônicas de Humberto, não há uma linha que diga respeito à sua vida pessoal, já que o seu objetivo era realmente transmitir ao leitor um pouco da sua bagagem cultural. Feitos esses elogios em relação à estrutura e às estratégias da sua crônica, porém, não se pode deixar de apontar que, em meio a esse processo, escaparam algumas ideias, digamos, bastante questionáveis de Humberto, isso, é claro, no julgamento feito um século depois da publicação do livro. A mais problemática de suas crônicas é “O prestígio do sabonete”, em que, valendo-se de frases igualmente problemáticas de Bilac, adota um discurso higienista e manifesta total insensibilidade social, a ponto de chamar os mais pobres de “rebotalhos da sociedade”, além de “inimigos da carta de abc e do banho”, entre outras barbaridades aos olhos do leitor atual. Para Humberto, como para Bilac, seria a caserna que salvaria essas pessoas do seu destino de “animais brutos, que de homens têm apenas a aparência e a maldade”. Bem evidente, pois, o elitismo do autor, aparentemente o mesmo que já usara contra o seu inimigo João do Rio. Mas é de se notar que os dois cronistas rivais tinham lá os seus pontos em comum, como o respeito e a admiração pelo ex-presidente Rodrigues Alves e, mais problemática, a defesa ardorosa do militarismo e do serviço militar generalizado, com uma noção de patriotismo que só não pode ser chamada de completamente defasada porque surgiram simpatizantes nos últimos anos. Aqui e ali, Humberto até tem crônicas que, não conhecêssemos o autor, seríamos capazes até de atribuir a ele alguma inclinação anarquista (com destaque para “A vitória do homem bom”), mas há momentos em que ele se trai, como na crônica “Agatirsos”, quando chama de “esses bárbaros” um povo que conseguia viver em paz, “com delicadezas de dama”, o que os tornava, na cabeça de Humberto, um povo “efeminado” – são opiniões às raias da misoginia. Pelo que se depreende dessa crônica, um homem é alguém que insiste nas suas ideias mesmo que elas levem a uma guerra – o que Humberto quer evitar, a todo custo, é a lastimável e feminina paz. Embora, com suas muitas referências, as crônicas dele pareçam almejar o leitor comum, que não tem a mesma erudição que ele, vez ou outra se tem a impressão que ele escreve para os seus pares, ou, no mínimo, para ostentar o próprio conhecimento. Só os “altos intelectuais” é que seriam capazes de entender longas citações em idiomas como o francês ou o latim sem precisar de uma tradução que nunca passou pela sua cabeça oferecer. Especialmente quando nos deparamos com opiniões elitistas, parece que ele está buscando um leitor parecido o bastante com ele para endossar a sua visão estreita e preconceituosa da sociedade em geral. Semelhante comportamento poderia tornar muito natural que nos simpatizássemos mais com João do Rio do que com Humberto de Campos, mas o ser humano é realmente algo complexo, e uma leitura atenta de A alma encantadora das ruas é capaz de revelar que o próprio João, que tinha uma erudição tão grande quanto a de Humberto, por vezes menospreza e faz juízos de valor temerários a respeito das classes baixas que encontra na rua. O que torna mais grave a situação de Humberto é que ainda se reporta que ele incluía o racismo e a homofobia como forma de atacar o seu oponente, embora não o mencione em nenhum momento nesse livro. Ainda em comparação ao estilo dos dois cronistas, é como se João do Rio tentasse ganhar por nocaute e Humberto de Campos por pontos. Isso porque nem sempre João do Rio acertava, mas, quando acertava, acertava realmente bem, ao passo que Humberto preferia manter um mesmo nível em todas as crônicas, garantindo uma leitura mais fluida que a do seu rival, ainda que, ao contrário dele, nenhuma crônica sua se sobressaia em particular. Isso provavelmente ajuda a explicar por que Humberto caiu no esquecimento e João não: as suas crônicas são um conjunto perfeitamente legível, mas não se pinça um único destaque positivo do meio delas. E como, além disso, pinçam-se alguns destaques negativos, fica realmente difícil mesmo uma eventual missão de resgate das crônicas de Humberto para o leitor contemporâneo. Reforce-se, de todo modo, que elas não perfazem um conjunto “ruim”, há até algumas associações, analogias e referências que são interessantes e podem despertar o interesse por algo mais, há uma ou outra anedota, e a sua produção merece um trabalho mais aprofundado da área de jornalismo, já que as crônicas são quase sempre pautadas por uma notícia, mas também não é o tipo de cronista sobre quem a gente diga “cara, você não sabe o escritor que eu descobri!”. Espera-se que, nos livros que escreveu depois de morto, ele tenha renegado algumas das crônicas que escreveu quando ainda estava entre nós, sujeito ao pesado mundo da matéria.

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    Humberto de Campos Veras

    De origem humilde, era filho de Joaquim Gomes de Farias Veras e Ana de Campos Veras. Nasceu no então município maranhense de Miritiba - hoje batizado com o seu nome. Com a morte do pai, aos seis anos, mudou-se para São Luís, onde começou a trabalhar no comércio local para auxiliar na subsistência da família. Aos dezessete muda-se, novamente, para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará.[1] Em 1910, quando contava 24 anos, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Começa a trabalhar no jornal "O Imparcial", ao lado de figuras ilustres como Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro.[1] Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras, sucedendo Emílio de Menezes na cadeira n.º 20. Um ano depois ingressa na política, elegendo-se deputado federal pelo seu Estado natal, tendo seus mandatos sucessivamente renovados até a eclosão da Revolução de 1930, quando é cassado. Após passar por um período de dificuldades financeiras, é nomeado, graças à admiração que lhe votavam figuras de destaque do Governo Provisório, Inspetor de Ensino no Rio de Janeiro e, posteriormente, diretor da Fundação Casa de Rui Barbosa. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. A obra obteve imediato sucesso de público e de crítica, sendo objeto de sucessivas edições nas décadas seguintes. Uma segunda parte da obra estava sendo escrita por Humberto de Campos quando de seu falecimento, vindo à lume postumamente sob o título de Memórias Inacabadas. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1934, aos 48 anos, em virtude de uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Tendo Humberto de Campos falecido no auge de sua popularidade, diversas coletâneas de crônicas, anedotas, contos e reminiscências de sua autoria foram publicados nos anos seguintes a sua morte, época em que também vieram a lume diversos livros supostamente escritos pelo espírito do escritor, por meio da psicografia do médium Chico Xavier. Os familiares de Humberto de Campos processaram judicialmente este último, alegando a ausência de pagamento de direitos autorais. A demanda, que provocou grande polêmica na época, foi julgada improcedente (conferir detalhes do processo aqui) Em 1950, nova polêmica: o Diário Secreto mantido pelo autor em alguns períodos da década de 1910 e com assiduidade de 1928 até sua morte é divulgado pela revista O Cruzeiro, cujos editores o publicam em livro em 1954. A publicação causou escândalo à época de sua publicação em razão de diversos registros e impressões pessoais feitos por Humberto de Campos a respeito de pessoas de grande notoriedade nas letras, política e sociedade de sua época, incluindo Machado de Assis, Getúlio Vargas, Olavo Bilac, e outros. Sucessivas edições das Obras Completas de Humberto de Campos foram publicadas por diversas editoras (José Olympio, Mérito, W. M. Jackson, Opus) até 1983. As constantes preocupações de ordem financeira, as quais o obrigavam a redigir diariamente crônicas, contos e artigos de crítica literária a fim de garantir sua subsistência, bem como os prolongados problemas de saúde que resultaram em uma morte prematura, impediram Humberto de Campos de se debruçar sobre projetos literários de maior envergadura, razão pela qual parcela substancial de sua bibliografia é constituída de coletâneas de seus escritos, os quais constituem útil instrumento para a análise da vida cotidiana e literária dos anos 1910, 1920 e 1930 no Brasil. A temporalidade que caracteriza essa parcela substancial de sua bibliografia parece ser a principal razão para o pouco interesse que atualmente o seu nome desperta entre os leitores e no meio acadêmico.

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    Maranhão, Brasil

    Humberto de Campos Veras