Gastão de Holanda, Caderno B - Jornal do Brasil, outubro de 1979 Em Os banheiros, Victor Giudice mantém originalidade e exuberância de criação que, se não estão fora da nossa maturity of mind ou de nossa maturity of manners, não destoariam de uma comparação com que há de melhor na literatura estrangeira, representada por Borges, Cortázar ou em certo sentido com o conto eslavo, de língua indo-européia, de que se poderia citar um Karinthy. Mas creio que não se deve fazer da obra de um escritor uma colcha de retalhos de influências. A obra de Victor Giudice tem uma forte personalidade, gravita na órbita da obra aberta, em que tem máxima importância "a congenialidade do público com o autor". Tipo de relação produtor-obra de arte-consumidor. Cito estruturas literárias como a de O banquete, de Giudice, de apenas quatro linhas, onde o leitor (perplexo) reconstrói passado e futuro do personagem, com beneplácito de Umberto Eco... Não se poderia negar certo fascínio de Victor Giudice por Edgar Allan Poe ou Maupassant, quando se dedica ao conto de atmosfera gótica, como O visitante e Eles. Nesses contos, particularmente, o ilógico é tratado com linguagem de matemático, o que vem dar à narrativa maior força de expressão, embora a forma não se deixe dissolver na trama.(...) Por outras vezes o autor de Os banheiros é um aristocrata da forma, à maneira de um Visconti, no cinema. Para contar uma estória reconstitui um ambiente em que os mínimos pormenores - seja menção a porcelanas raras, seja a escritores ou compositores clássicos - são inventariados durante a montagem da fita datilográfica. O que não exclui uma boa dose de crítica social, à maneira do Miguel Covarrubra, conto que reconstitui toda uma heráldica brasileira armorial, arraigada à nossa história familiar saudosista.(...)
