*Livro #16 de 2026*
Acabei de acabar The Goalie’s Anxiety of the Penalty Kick, do Peter Handke, e acho importante começar pelo gênero: isso é uma novela. E novela, aqui, significa menos enredo e mais estrutura. Não há plot no sentido clássico. O que sustenta o livro é a derive: a narrativa à deriva, sem progressão causal clara, pedindo que o leitor aceite acompanhar um estado, não uma história.
A estrutura é linear, organizada em blocos curtos, quase seções, e tudo funciona por repetição. O crime existe, a busca existe, mas servem mais como tensão mínima do que como motor narrativo. O centro está em outro lugar: na linguagem.
O livro acompanha uma crise em que as palavras deixam de organizar o mundo e passam a pressioná-lo. Tudo vira sinal, tudo parece exigir interpretação. Não é falta de sentido — é excesso. Handke não está interessado em psicologia clínica nem em explicar o personagem; o foco está em mostrar o que acontece quando a linguagem, nosso principal instrumento de mediação com a realidade, começa a falhar.
O estilo acompanha essa proposta com rigor: prosa seca, plana, quase burocrática. Em alguns momentos é desconfortável, até exasperante — e isso é parte do projeto. Não há condução emocional nem ornamentação. A forma espelha o vazio, a alienação e a dificuldade de conexão do protagonista. É um livro experimental, que funciona especialmente bem por ser curto: a ideia se sustenta sem se diluir.
É uma leitura desconfortável, que resiste às expectativas do leitor tradicional. E talvez exatamente por isso seja tão interessante.
Para escritores, é um ótimo exemplo de como forma, estilo e tema podem ser indissociáveis. Aqui, até a recusa do enredo é uma decisão estética consciente.
Gostei o suficiente para querer seguir lendo o autor, e A Sorrow Beyond Dreams deve ser o próximo, para experimentar outro registro.
Não é um livro fácil — mas é um livro que sabe exatamente o que está fazendo.