Maomé e Carlos Magno - O Impacto do Islã Sobre a Civilização Européia

    Henri Pirenne

    Puc Rio e Contraponto
    2010
    312 páginas
    10h 24m
    ISBN-13: 9788578660321
    Português Brasileiro

    Em Maomé e Carlos Magno: o impacto do Islã sobre a civilização europeia (Editora PUC-Rio e Contraponto), o historiador belga Henri Pirenne analisa a formação da Europa Ocidental de modo inovador, na medida em que coloca em cena a possibilidade de novas perspectivas históricas sobre a vida, as transformações e o desaparecimento de grandes civilizações. Pirenne faz um contraponto necessário à reflexão sobre as crises e possibilidades que a ideia de civilização e barbárie assumiu ao longo da história ocidental. Na primeira parte da obra, Pirenne relativiza a oposição intransponível entre civilização e barbárie ao desconstruir a ideia vigente de uma ruptura violenta entre a civilização romana e uma Europa barbarizada. Em sua pesquisa, enumera sinais que evidenciam que os reinos bárbaros do século V ao VII não acabaram com o Império Romano, mas continuaram com a civilização mediterrânica no Ocidente por uma evidente “vontade de romanização”. A segunda parte do livro trata das conseqüências do fechamento do Mediterrâneo para uma nova possibilidade de formação social que inaugura o que ele identifica como Idade Média, que, para ele, foi marcada pela estagnação das cidades e pela redução do consumo a um âmbito local. Na narrativa civilizacional de Pirenne, a Idade Média europeia representa uma nova forma de organização política, social e econômica diferente dos antigos impérios (Roma, Bizâncio e Arábia). Uma Europa animada por vários centros urbanos que trocavam entre si e compartilhavam um mesmo horizonte cultural. Do mesmo modo que ele não faz coincidir o fim da Antiguidade com a queda de Roma, ele não identifica o fim da Idade Média com a tomada de Constantinopla, e sim com o século XII, com a revolução comercial e a expansão das cidades. Nesse sentido, Pirenne apostava na possibilidade desafiadora da unidade na diversidade e vice-versa. A presente edição é um passo significativo diante dos desafios atuais ao pensamento em tempos de tantas incertezas que atingem, sobretudo, a escrita da história e o lugar do historiador. O autor O belga Henri Pirenne (1862-1935) foi um dos maiores historiadores do século XX. Segundo o historiador Marc Bloch, “é necessário repetir o valor das qualidades que fazem de cada uma das obras de Pirenne, desde o seu lançamento, clássicos da historiografia, no sentido próprio do termo”.

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    Bruno Godinho29/07/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Livro velho (ainda) faz história boa

    A primeira versão do texto desse livro apareceu em 1922, como artigo com o mesmo título do livro. Já se vão quase cem anos desta contribuição fundamental à historiografia medievalista e a pergunta que pode surgir é: por que ler um livro tão antigo? Para o leigo, realmente é desaconselhável ler teses antigas como a de Pirenne. A pessoa que tem interesse temático, digamos assim, pela Idade Média vai encontrar um texto enfadonho e de difícil leitura. Difícil não pela dificuldade das ideias - pelo contrário, o autor é excepcionalmente claro em sua escrita -, mas pela disposição do texto em si. As notas de referências são muitas e se encontram todas ao fim do livro, o que quebra o ritmo de leitura até para o mais interessado dos especialistas. Eu mesmo tive que abandonar a leitura das notas para poder prosseguir com a leitura. E sobre o tema, por outro lado, as descrições dos costumes, hábitos e da vida são pouco atrativas para um leitor que deseja apenas passear pelos tempos medievais. Os especialistas, por outro lado, encontram aqui temas interessantes. O primeiro deles é o argumento do choque civilizacional como motor de mudanças. A civilização ocidental só se constituiu propriamente em reação ao avanço do islamismo. De outro lado, a periodização que acompanha essa trama político-cultural: se Roma caiu no século V, a "romanidade" só declinou verdadeiramente quando os muçulmanos ameaçaram a Europa. Hoje retornamos a discutir as questões de periodização na História e o livro de Pirenne é um excelente exemplo de como recortar os dados pode ser mais relevante à periodização do que a escolha arbitrária de um período para buscar sua "essência", seu "espírito", ou seja lá o que for. <i>Maomé e Carlos Magno</i> é uma tese superada, de vários pontos de vista: materiais, teóricos, metodológicos, etc. O que não significa que seu valor deixe de existir. Nas mudanças que ocorrem no campo da história como ciência, os textos vão ganhando novos significados à medida que novas discussões os façam emergir do fundo do baú. Sempre há valor na leitura de um clássico, especialmente porque o valor surge, justamente, à luz da leitura que fazemos dele.

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