Este é o livro em que Manuel Bandeira reuniu, ainda em vida, seus poemas de maior encanto, entre tantos outros de indiscutível valor. Sua obra é permeada por uma angustiante busca pelo significado das coisas, pela reflexão da poesia em si e pela total falta de limites para o lirismo. Há uma maturidade no seu tratamento dos grandes temas da poesia universal, na sua faceta mais cotidiana, na sua 'libertinagem', na sua morbidez, que o torna um dos mais expressivos poetas da história da literatura.
Meus poemas preferidos (Coleção Prestígio) -
Manuel Bandeira
o poeta diante da morte
Manuel Bandeira sempre foi o poeta diante da morte. Ninguém melhor que o próprio Bandeira para explicar essa história: Quando caí doente em 1904, fiquei certo de morrer dentro de pouco tempo: a tuberculose era ainda o mal que não perdoa. Mas fui vivendo, morre-não-morre, e em 1914 o Dr. Bodmer, médico-chefe do sanatório de Clavadel, tendo-lhe eu perguntado quantos anos de vida me restariam, respondeu-me sorrindo: O Sr. tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida; no entanto está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta, em suma, nenhum sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos... Quem poderá dizer?... Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente. E não é que nessa de esperar a morte para qualquer momento, o poeta acabou chegando aos 80 anos em 1966, data que muito apropriadamente resolveu celebrar lançando uma seleção de seus poemas favoritos. E ele começa logo de cara com Desencanto, que também é meu poema predileto de Manuel Bandeira: Eu faço versos como quem chora De desalento... de desencanto... Fecha o meu livro, se por agora Não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente... Tristeza esparsa... remorso vão... Dói-me nas veias. Amargo e quente, Cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre, Deixando um acre sabor na boca. - Eu faço versos como quem morre. Esses versos são belíssimos sob quaisquer circunstâncias, mas quando sabemos dessa peculiaridade da vida provisória de Manuel Bandeira, o poema ganha ainda mais força. Outro poema igualmente marcante e visceral é O Bicho, que uma vez lido, jamais será esquecido: Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. Nessa minha seleção de poemas preferidos entre os preferidos de Manuel Bandeira, destaco ainda Arte de Amar: Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não noutra alma. Só em Deus ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não. Outro poema de Bandeira que amo é Os Sapos, que virou uma espécie de hino modernista contra a escravidão empolada do parnasianismo, que privilegiava a forma em detrimento do conteúdo. Como é um poema mais extenso, a princípio eu me contentaria apenas em citá-lo, mas não resisto a reproduzir aqui a primeira metade: Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: - Meu pai foi à guerra! - Não foi! Foi! Não foi!. O sapo-tanoeiro, Parnasiano aguado, Diz: - Meu cancioneiro É bem martelado. Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos. O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio. Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A fôrmas a forma. Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia, Mas há artes poéticas... Notem que a genialidade desse poema está em ironizar o apego vazio dos parnasianos à rima e a métrica, justamente através de versos que são irretocáveis do ponto de vista da métrica e da rima! A motivação de qualquer poeta para escrever em versos brancos (sem rima) e/ou livres (sem métrica) deveria ser, de fato, um desejo irreprimível por liberdade. E não, como infelizmente acontece amiúde, pela incapacidade de se expressar poeticamente de outra forma. Por isso é que segui e recomendo o conselho de Mário Quintana, outro avatar de nossa Poesia, que sugere que todo poeta treine primeiro escrever sonetos clássicos, antes de se aventurar a fazer poemas sem rima ou métrica, que pode até não parecer, mas são muito mais difíceis. Voltando a essa preciosa seleção dos poemas preferidos de Manuel Bandeira, e também ao tema da morte, senti falta de Pneumotórax, outro de meus favoritos dele: Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico: Diga trinta e três. Trinta e três trinta e três trinta e três Respire. . O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. A edição que li, que acabo de descobrir que foi possivelmente a primeira edição, traz ao final da biografia do poeta a desconcertante informação: Reside presentemente na Avenida Beira Mar, 406, apartamento 806, Rio de Janeiro. Deu vontade de inventar uma máquina do tempo só para bater à porta do poeta e pedir que autografe o meu exemplar... https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2021/08/meus-poemas-preferidos-manuel-bandeira.html
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