Em 1894, Alfred Dreyfus, jovem e brilhante capitão da artilharia do exército francês, foi acusado de alta traição, julgado a portas fechadas por uma corte marcial e condenado ao degredo perpétuo na ilha do Diabo. A base para a acusação foi um papel que enumerava segredos militares franceses entregues ao adido militar na embaixada alemã em Paris. O antissemitismo recrudescia na sociedade francesa da época e era ainda mais acentuado no exército, de modo que o nome de Dreyfus saltou à vista dos encarregados de encontrar o traidor. O Caso Dreyfus dividiu a sociedade francesa entre os que exigiam um julgamento justo e os que não admitiam que se contestasse a palavra de membros da cúpula do exército francês para defender um judeu. O resto do mundo horrorizou-se com o desrespeito às regras de procedimento jurídico no país da liberdade, igualdade e fraternidade. A habilidade de Begley como escritor e seus conhecimentos jurídicos traduzem com clareza a complexidade do Caso Dreyfus. Seu relato provoca indignação e chama a atenção para o fato de que não se vê esse mesmo estarrecimento quando se trata dos desmandos e torturas cometidos contra prisioneiros de Guantánamo, que nunca tiveram um julgamento justo.
O Caso Dreyfus - Ilha do Diabo, Guantánamo e o Pesadelo da História
Louis Begley
Em Defesa da Verdade
“Há coisas na cabeça de um oficial que nem seu quepe é autorizado a saber” Em 1894, o governo francês soube que um oficial francês desconhecido havia enviado uma lista de compras de segredos militares para a embaixada alemã (a lista era conhecida como ‘O Bordereau’). O documento não estava assinado e dava apenas algumas dicas sobre a identidade do remetente, mas logo as suspeitas recaíram sobre o capitão da artilharia Alfred Dreyfus, um oficial ambicioso designado para o Estado-Maior. Um homem independente, casado com uma mulher rica, socialmente desajeitado, era talentoso em seus deveres e notavelmente patriótico. Sua família era da Alsácia e quando a província foi anexada pelos prussianos, seu pai recusou sem hesitar a cidadania, permanecendo um súdito francês e mudando-se para a Suíça. No entanto, havia um detalhe do passado de Dreyfus que levou seus superiores a marcá-lo como o principal suspeito: ele era judeu. Ele era um judeu sem conexões no alto escalão militar, sem grandes nomes políticos o apoiando. Em suma, ele poderia ser condenado e trancafiado com relativa impunidade. Na fatídica manhã que mudaria sua vida para sempre, o capitão Dreyfus foi convocado para o que presumiu ser uma inspeção. Foi recebido numa sala por Du Paty de Clam, que fingiu um ferimento na mão e pediu ao capitão para escrever uma carta. Paty ditou cuidadosamente as palavras que foram encontradas na lista de segredos militares. Depois de obter uma amostra da caligrafia de seu alvo, Paty declarou que o capitão estava preso e entregou um horrorizado Dreyfus ao Major Hubert-Joseph Henry, um dos primeiros oficiais a acreditar na inocência do colega. Dreyfus é condenado e deportado para uma prisão na costa da América do Sul, a temível ‘A Ilha do Diabo’. Esse é mote central dessa incrível história real narrada de maneira primorosa por Louis Begley num dos melhores livros de Não-ficção que já li na vida. Begley de maneira muito engenhosa contextualiza para nós todo o panorama sócio-político que permeou esse episódio francês numa pesquisa cuidadosamente organizada para facilitar a nossa compreensão de um fato histórico militar que aconteceu no final do século XIX. É muito interessante que ele consegue encaixar cada ‘personagem’ dentro da história e desenvolver seus arcos narrativos como se estivesse escrevendo uma ficção. Não são apenas os nomes mais famosos que o autor cita, mas sim nomes que de uma forma ou de outra movimentaram a história de uma forma ou de outra. Begley nos conta porque escritores como Anatole France, Émile Zola e Marcel Proust foram peças cruciais atuando a favor de Dreyfus. Porque a obra-prima de Proust, a emblemático “A La Recherche du Temps Perdu”, nasceu desse episódio de corrupção no coração do tribunal militar francês. A misteriosa morte de Zola. São fatos extremamente relevantes para a obra. O autor nos conta detalhe por detalhe as atuações dos próprios militares envolvidos no caso como George Picquart (o capítulo 3 é totalmente dedicado a ele). Parece que estamos lendo um romance policial de espionagem. Fala do traidor Esterhazy, do extremista de direita Henri Brisson, do nacionalista apaixonado Godefroy Cavaignac. A desmoralização do Tribunal Militar Francês perante a sociedade, o nascimento dos movimentos ‘Dreyfusards’ (os que acreditavam na inocência do capitão) e ‘anti-dreyfusards’ (os que acreditavam no ‘devido processo legal’ do tribunal militar). De uma maneira bizarra e fascinante, o caso de um homem condenado por traição e preso por quatro anos em uma ilha remota (assistam ao filme estadunidense de 1973 ‘Papillon’ de Franklin J. Schaffner, que conta sobre essa ilha) dividiu uma nação. O barulho chegava dos tribunais e salões do parlamento às reuniões públicas e às ruas e, ao mesmo tempo, aos salões de festas e salas de jantar e até aos quartos dos amantes. Mobilizou políticos e intelectuais, militares e clérigos, católicos e ateus, protestantes e judeus, antissemitas e nacionalistas. O autor levantou questões que remontaram da Revolução Francesa ao Holocausto. Enquanto a opinião pública estava contra Dreyfus desde o início, sua esposa, Lucie e seu irmão mais velho, Mathieu, lançaram uma apaixonada campanha para limpar seu nome. Seus esforços incansáveis valeram a pena e eles conseguiram atrair intelectuais franceses para o seu lado, principalmente Émile Zola, que escreveu o magnífico “J´Accuse...!”, uma condenação pública do tratamento infame dado ao capitão da artilharia por parte do tribunal militar e, continua sendo uma das cartas abertas mais influente da história judicial e literária. Em 2009, quando o advogado e romancista Louis Begley escreveu esse livro, estava preocupado com os abusos então recentemente expostos pelas tropas estadunidenses contra prisioneiros muçulmanos em Abu Ghraib, no Iraque, e, de forma mais geral, por um pós 11/9 e pela erosão dos direitos civis no seu país por meio de legislação como a ‘Lei Patriota’, criada para combater o terrorismo. O medo e a xenofobia dos Estados Unidos da América do Norte no início do século XXI lembraram a Begley da atmosfera da sociedade francesa na década de 1890. Hoje, a indignação do autor com o racismo e o desrespeito ao devido processo legal pode sim lembrar-nos o famoso ‘Caso Dreyfus’. O que há nesse episódio que tanto polarizou a França na década de 1890 e continua a ressoar aos dias de hoje com um imediatismo misterioso que nos faz pensar se a humanidade é realmente capaz de aprender com seus erros do passado? E quais foram de fatos as ‘lições’ que aprendemos com esse caso? Begley escreveu esse livro para fazer um paralelo do episódio francês do século XIX com o episódio estadunidense do século XXI. O caso Dreyfus e a guerra ao terror estadunidense foram temas centrais abordados nessa obra. O caso estadunidense fica mais para o final do livro, mas também é de fácil compreensão, até porque é um episódio contemporâneo e todos nós (suponho) temos um mínimo de entendimento do imperialismo estadunidense em terras orientais. Eu simplesmente fiquei maravilhado com a obra de Begley. Esse é um episódio da história dos homens na Era Moderna que a defesa da verdade de um homem inocente havia sido enganado por vilões, que se aproveitaram do preconceito étnico em um país católico ainda tem muito a nos ensinar. Isso foi feito desafiando as regras, tradições e procedimentos simples da própria ordem militar e do sistema judicial francês, e teve que ser remediado por aqueles que acreditaram na inocência do capitão da artilharia. A lição a ser aprendida foi a lição que Clemenceau tentou ensinar ao júri no julgamento de Zola. O desejo de proteger a nação de seus inimigos é natural, mas o que acontece quando o coração do tribunal militar se corrompe quebrando leis para defender a sua instituição condena um dos seus que é claramente inocente dividindo seu próprio país em lados diametralmente opostos? Às vezes, longas histórias têm uma moral curta, como diria Proust. ☭🇫🇷👨🏽⚖️☕️📖🇺🇸🪖🎖⩜⃝🕰⌛️☭
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