Logo nas primeiras páginas do livro uma interessante observação de Forster através de Helen, uma das irmãs Schlegel (a outra é Margaret, ou Meg): "A vida às vezes é vida; outras vezes, teatro apenas." Ela se refere aos Wilcox, família inglesa de alta classe média, proprietária de Howards End, onde se encontra hospedada. Para Helen, grande parte do tempo o comportamento dos Wilcox era pura peça de teatro.
São embates emocionais e ideológicos que se apresentam a toda hora neste livro. Os valores humanitários versus os outros valores, e como diz o sr. Wilcox a certa altura, “um sólido homem de negócios fazia mais pelo mundo do que uma dezena de reformadores sociais.”
Livro inglês que não toca no problema de classes sociais falta alguma coisa. Neste sobra. Quem leu Passagem Para a Índia, do mesmo autor, sabe do que estou falando (e naquele livro ainda havia o problema do colonialismo, também caro para os ingleses).
Além dos Wilcox e dos Schlegel (Meg, Helen e o irmão Tibby são meio ingleses, meio alemães), entra na trama o jovem Leonard Bast, e sobre ele Forster escreve: "(...) Esta história diz respeito à gente bem ou àqueles que são obrigados a fingir que são gente bem. O jovem Leonard Bast situava-se no limite extremo do espaço ocupado pela gente bem. Não estava no abismo, mas podia vê-lo e, em certas ocasiões, pessoas que ele conhecia haviam despencado e não eram mais levadas em conta.” São esmiuçadas as relações que as irmãs Schlegel mantêm com Bast, rapaz simples, que almeja ser culto, e que ocupará um papel fundamental no desenlace dessa história.
As reflexões que Forster faz ao longo de todo o romance, ele mesmo ou através de algum de seus personagens, alguma filosofia (Nietzsche, por exemplo), algum Shakespeare e até mesmo certas considerações acerca da quinta sinfonia de Beethoven tornam este livro um clássico moderno. Os diálogos são saborosos, plenos de ironia (delicada, é claro), que fazem com que a obra permaneça atual em nossos dias. Mesmo porque eles envolvem política e economia (capitalismo x socialismo), "luta de classes", cultura literária e artística em geral.
Howards End trata bastante de nacionalidade (a inglesa versus a alemã; aqui representada pelos Wilcox e pelas Schlegel), classes sociais, status econômico, e como cada um desses fatores interfere nas relações pessoais. A tônica do livro é essa, como parece ser a da maioria das obras de E. M. Forster. Margaret e Helen (também Tibby, estudante em Oxford) são intelectuais, dedicam-se às artes, especialmente a literatura, leem muito, têm muitos livros. Os Wilcox são pouco preocupados com coisas ligadas ao intelecto ou ao coração, mas às "virtudes tais como limpeza, decisão e obediência, virtudes de segunda ordem, sem dúvida, mas foram elas que formaram nossa civilização”, nas palavras de Wilcox.
As questões e as disputas presentes nesse romance faziam muito sentido por volta de 1910, quando o livro foi lançado, e não envelheceram com o tempo, tornando-o um clássico do século XX. Ainda que Passagem Para a Índia seja o livro de Forster mais lembrado e conhecido, os críticos ingleses costumam considerar, no entanto, Howards End sua obra-prima.
Lido entre 04 e 07.01.2012.