A proposta dessa antologia é, a partir de histórias representativas de cada época, contar a própria evolução do conceito do amor.
Maravilhas do Conto Amoroso (Maravilhas do Conto Universal) -
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Outra viagem das mais interessantes promovida pela maravilhosa coleção “Maravilhas do conto” é a que trata do “conto amoroso”, pois permite que acompanhemos não apenas o desenvolvimento da literatura sob essa temática, mas também o do próprio conceito de amor na sociedade. Sim, pois esse conceito sofreu evoluções com o passar dos anos. O amor de “Catela no banho”, conto de Boccaccio presente no livro, seria visto, ao olhos de hoje, não apenas como algo doentio, mas, principalmente, criminoso. É que naquela época a ideia de amor justificava todas as torpezas e baixezas de caráter, e não havia nenhuma preocupação moral quando o objeto da paixão já tinha algum tipo de compromisso. O livro começa com um conto do Mahabharata (“Savitri”) e outro das 1.001 noites (“Uma história de amor”), sendo que este também impressiona pelas incríveis peças engendradas para vingar uma desfeita amorosa, as quais, ao fim de tudo, resultam em arrependimento e amor entre as partes. Há aqui também a famosa fábula de “Amor e Psiquê”, de Apuleio. “Os três cavaleiros e a camisa”, de Jakes de Basin, fala sobre o tempo em que os homens se colocavam em combate simplesmente para atender os agrados de uma mulher, sendo capazes dos maiores sacrifícios unicamente para satisfazer a sua vontade. Interessante observar nesse conto o papel do “corno”, que sequer considera que tinha alguma obrigação de censurar as aventuras cavalheirescas da esposa, de certo por ser homem pacífico, o que não devia ser bem visto. “Louise e Thérèse”, de Restif de la Bretonne, conta uma boa história de um sujeito que descobre a felicidade em uma jovem e sua amiga, mas se vê obrigado a abandoná-las por ser casado. Há Stendhal, com o conto “Vanina Vanini”, em que a pátria se coloca como empecilho ao amor, e então vem o imenso Dostoievski com “Noites brancas”, a melhor obra do livro, ainda que não seja exatamente um conto, mas uma novela. Ali há o platonismo das mentes sonhadoras e o amor visto como resgate das tragédias pessoais. Há um conto do Gorki, “A historia de Platão Bacrof”, mas eu não acharia ruim se o conto escolhido fosse outro, “Por desfastio”, embora os dois tenham o mesmo fim trágico após a incompreensão alheia. Na história de Platão Bacrof, no entanto, a crueldade também vem do próprio objeto amado. “Belas de dia”, da Colette (escritora que precisa ser resgatada) apresenta um interessante ponto de vista a respeito da “produção” feminina, a sedução dos homens e o momento em que a mulher se mostra como ela realmente é. Há o Thomas Mann com o estranho “O armário”, Virgínia Woolf com o não menos estranho “Lapine-Lapinova”, apesar do enredo original em que, para suportar o casamento, um casal cria um universo imaginário em que ambos são coelhos. James Joyce com “Casa de hóspedes” trata da obrigação de se casar com uma mulher a quem o homem, digamos, conheceu. “O pântano”, de D. H. Lawrence é outra grande pedida do livro. Começa de forma despretensiosa, mas a história cresce e conduz a um improvável romance, em circunstâncias das mais inusitadas. Já “Raquel”, de Erskine Caldwell, que encerra o livro, é um conto dolorosíssimo, em que se mostra o amor a partir da perspectiva da pobreza. O livro é do começo dos anos 60 e certamente contaria com ainda outros tipos de romances se abrangesse os dias de hoje.
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