Não há como prescindir de comparações para analisar o mais novo trabalho do norte-americano Bret Easton Ellis, Imperial Bedrooms. O romancista que já foi o queridinho precoce da literatura dos Estados Unidos já não é precoce. Queridinho também não. Tem hoje seus críticos e seus entusiastas. E, como demonstra nessas suas novas 192 páginas, continua com um arsenal infindável de recursos que lhe sustentam inegável criatividade.
Ser criativo pode ser continuar o que já foi iniciado há tempos – por que não? Imperial Bedrooms é uma continuação de Abaixo de Zero, o livro que colocou o então moleque Easton Ellis nos píncaros da glória, tanto por parte da crítica como de público. Os personagens jovens, ricos, entediados e promíscuos, de uma Los Angeles glamurosa apenas em seu conceito, foram parar até no cinema, com um resultado considerado fraco. Mas em livro, atormentaram o autor por um bom tempo.
A estreia de 1985 continua sendo apontada como seu momento definitivo, ainda que outras excepcionais obras tenham saído de sua lavra – uma delas, Psicopata Americano, causou escândalo quando surgiu no início dos anos 1990.
Voltar aos personagens antigos era arriscado. Imperial Bedrooms é uma música de Elvis Costello que sucede Less Than Zero, outra do inglês, e que deu nome ao romance original. A capa da edição americana é também inspirada na de Abaixo de Zero.
Desconforto com vidas dispensáveis
Clay, o protagonista, 25 anos depois é um requisitado roteirista. Deixando um relacionamento desgastado e focado na escolha do elenco da filmagem de seu roteiro, retorna de Nova York à Costa Oeste, de maneira que pode ou não ser definitiva. Como em grande parte dos textos de Ellis, a paranoia se faz presente. Clay acha que está sendo seguido por um carro, e que objetos têm mudado de lugar em sua suíte no hotel Wilshire.
Ao mesmo tempo, amigos e namorada do passado – dos quais não chegou a se afastar nesses 25 anos – voltam a cruzar seu caminho. Julian, o melhor amigo, está longe da bebida e das drogas. É o que parece. Blair, a ex-namorada de Clay, ainda tenta entender melhor o relacionamento com o protagonista. Nesse ambiente, desenvolve-se uma trama que une suspense, violência dos mais pesados filmes policiais e sofisticação noir.
Mais do que criar um desfecho cinematográfico, o que parece interessar Ellis é provocar o desconforto que sua obra, não é de hoje, causa. Um leitor tomando contato com o universo de Ellis pela primeira vez, pela lógica, não vai curtir muito Imperial Bedrooms. Muito menos entender onde o livro quer chegar. Ele demanda certa cumplicidade de seu público – especialmente o que já leu seus seis trabalhos anteriores –, quer que ele revisite personagens e suas vidas providas de conforto mas destituidas de sentido, dispensáveis até, um retorno ao mundo desses riquinhos de meia idade que não tem sobrenome. E que, passados 25 anos, envelheceram e não amadureceram.
O romance anterior de Easton Ellis, Lunar Park, fez a mesma convocação. Era, porém, muito mais ousado: o personagem era o próprio escritor numa arrepiante trama que nada fica a dever a Stephen King. Ao mesmo tempo, era uma homenagem sincera ao seu pai, morto recentemente.
Imperial Bedrooms é para os iniciados. E, se não à altura de seus demais livros, inusitado o suficiente para satisfazer a demanda de leitores fiéis.
(Diário Catarinense, 16/11/2010)