Se tem uma coisa que fica cada vez mais patente para mim, toda vez que eu leio livros de autores de "esquerda" que pretendem fazer qualquer crítica ao capitalismo (especialmente autores franceses), é que eles precisam de uma senha para poder fazer suas críticas sem consequências.
Afinal, o sistema até aceita críticas, desde que não venham de autores comunistas. E quando eu digo comunistas eu digo comunistas mesmo, marxistas-leninistas, e não essa estirpe que se autointitula "comunista" como uma mera provocação aos liberais e conservadores que assim intitulam tudo o que não entendem ou que consideram perigosos ao seu mundo ideal.
Pois os autores burgueses descobriram que a eles seria permitido críticas ao liberalismo, desde que citassem no texto que o alvo da crítica específica ao sistema capitalista só merecia a crítica porque seria uma espécie de aberração ao sistema, uma anomalia "stalinista", e não uma característica inata do próprio capitalismo.
E assim os autores liberais perceberam nisso uma "senha" para fazerem as devidas críticas ao sistema capitalista, sem, no entanto, serem expelidos do confortável prestígio acadêmico do mundo liberal.
E assim temos uma aberração como este livro em tela. Um excelente livro, erudito nas comparações, sarcástico nas opiniões, mas que insiste em equiparar o pior do liberalismo com "stalinismo". Em certos momentos, com um pouco de concentração é possível até imaginar o comportamento do autor diante de sua escrita, pensando: "já fiz bastantes críticas a um determinado aspecto do liberalismo, é hora de equilibrar um pouco as coisas e lembrar meus patrões de que não se trata de uma crítica ideológica, preciso enfiar um comentário desnecessário sobre o stalinismo aqui. Isso me garante mais umas páginas de salvo-conduto"
* * *
Para o leitor brasileiro que pega esse livro para ler mais de 20 ano depois da primeira edição, é esperada uma dificuldade para entender as diversas referências do autor a acontecimentos e pessoas daquele período. Mas aí não é propriamente culpa do autor. Pode-se dizer que o livro até envelheceu bem, porque a crítica aos economistas e suas práticas continua bastante atual.
Por fim uma curiosidade: fui pesquisar um pouco mais sobre a vida do autor enquanto lia as suas palavras, e descobri que ele infelizmente foi uma das vítimas do atentado à sede do Charlie Hebdo no ano de 2015.