O Processo Civilizador - Volume I - Uma História dos Costumes

    Nobert Elias

    Zahar
    1995
    280 páginas
    9h 20m
    ISBN-10: 857110106x
    Português Brasileiro

    Nesta obra, o autor analisa a história dos costumes, concentrando-se nas mudanças das regras sociais e no modo como o indivíduo as percebia, modificando comportamento e sentimentos. Norbert Elias buscou informações em livros de etiquetas e boas maneiras, desde o século XIII até os tempos contemporâneos, para mostrar que os hábitos parecem se colocar em um determinado estágio de uma evolução. Ele procura provar que desde a Idade Média, em que o controle das pulsões era bastante reduzido, até os dias contemporâneos, as classes dirigentes foram lentamente modeladas pela vida social, e a espontaneidade deu lugar à regra e à repressão na vida privada.

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    João Victor da Mota Uzer lima07/05/2014Resenhou um livro
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    O Processo Civilizador - Vol.1

    ELIAS. Norbert. Da Sociogênese dos Conceitos de “Civilização e Cultura”. IN: O Processo Civilizador - Vol.1: Uma História dos Costumes. Rio de Janeiro. Jorge Zahar editor, 1993. Norbert Elias busca traças a distinção entre Cultura e Civilização, fazendo uma comparação direta entre os termos alemães Kultur e Zivilisation com os termos Cultura e Civilização, como estes são entendidos na França e na Inglaterra. Assim, Norbert nos demonstra que o termo “Civilização” pode assumir diversas interpretações diferentes. O autor firma que as civilizações buscam se auto afirmar em suas peculiaridades e em seu orgulho por sobre aquilo que, segundo eles, os dão um caráter diferenciado, se não especial para com as demais sociedades. Mas mesmo assim, podem assumir significados diferentes. Pautando basicamente nos modelos Frances, Inglês e Alemão. Elias demonstra que enquanto os termos Frances e Inglês explicam-se por referir-se a termos políticos religiosos, econômicos, sociais ou morais, o termo alemão (Kultur) procura explicar-se pelo meio intelectual. O termo alemão “Zivilisation” não se refere a um orgulho pela importância de sua nação ou busca sua auto afirmação, como o termo “civilização” na França ou Inglaterra, o termo que busca tão explicação na Alemanha é “Kultur”, “Zivilisation” é entendido pelos alemães como algo útil, mas secundário. O conceito de cultura adotado leva um caráter quase que global, enfatizando as características em comum por entre os povos, de certa forma, derrubando algumas barreiras regionais. Por outro lado, o conceito Alemão carrega uma ideologia diferente, ele enfatiza as diferenças nacionais e a identidade de certos grupos. “Ate certo ponto, o conceito de civilização minimiza as diferenças nacionais entre os povos: enfatiza o que e comum a todos os seres humanos ou - na opinião de que o possuem - deveria se-Io. Manifesta a autoconfiança de povos cuias fronteiras nacionais e identidade nacional foram tão plena- mente estabelecidos” “Em contraste, o conceito alemão de Kultur da ênfase especial a dife- renças nacionais e identidade particular de grupos” Desta forma, Elias comprova que os termos de Civilização como é entendido no ocidente abarca um caráter expansionista e englobador, por outro lado o conceito de Kultur apresenta um caráter interno de auto reflexão. Elias continua afirmando que os conceitos são passiveis de ressignificação, citando a palavra “Kultur” que na Alemanha, sofreu uma modificação em seu significado com o passar dos anos, após 1919. Assim, o autor busca explicar como o termo sofreu modificação de significado devido à vida dos povos germânicos. O termo Kultur sugere uma auto critica, como se olhasse para si mesmo já que este termo sofreu ressignificação em um momento onde as mudanças sócias, os contrastes sociais, eram muito elevados na Alemanha e o nobre era identificado como civilizado por falar Frances, assim, da-se a dicotomia entre Zivilisation e Kultur. A diferença social na Alemanha se dava, sobre tudo, pelo fato desta não estar formada como nação, ou seja, a Alemanha neste momento era composta por vários reinados, o que dificultava a política e a economia causando uma forte escassez de recursos, inclusive recursos intelectuais, como livros e etc. No entanto, tal realidade era minimizada na corte, uma vez que esta se espelhava na corte francesa, copiando seus costumes incluindo sua língua. “Se o individuo fala alemão, e considerado de bom tom incluir tantas palavras francesas quanta possível”. Havia assim uma desvalorização dos alemães para com os próprios, tanto sua língua como sua arte e etc. havia uma “barbarização” para com os germânicos. Esta situação começa a encarar uma mudança somente com a ascensão da burguesia, que trazia a “cultura popular” para perto do rei. Com o crescimento da burguesia, mesmo que modesta, o Rei da Prussia viu a necessidade de se aproximar desta classe em ascensão, e como medida de aproximação toma iniciativas de promover a arte e a ciência. Não que esta crescente burguesia buscasse alguma representatividade política, este caráter era completamente negado pelos reinados germânicos, no entanto, essa nova burguesia – de hábitos completamente diferentes dos do rei – viu-se em uma situação de abertura as artes e a literatura ganha força. Norbert Elias reafirma citando o romance Werther de Goeth, quanto se refere à burguesia: “No Werther, Goethe mostra também com particular clareza as duas frentes entre as quais vive a burguesia. ‘O que mais me irrita’, lemos na anotações de 24 de dezembro de 1771, ‘e nossa odiosa situação burguesa. Para ser franco, sei tão bem como qualquer outra pessoa como são necessárias as diferenças de classe, quantas vantagens eu mesmo lhes devo. Apenas não deviam se levantar diretamente como obstáculos no meu caminho.’” Ma França a situação era similar, porem gozava de pequenas distinções. Havia, a exemplo da Alemanha, o crescimento no numero de intelectuais oriundos das classes médias, no entanto, diferentemente do que acontecia na Alemanha – ou melhor, nos reinos germânicos – estes intelectuais eram bem aceitos pela corte. Assim, Elias buscou mostrar como fatores internos influenciaram na ressignificação do termo, causando uma modificação se comparado com as ideias na França e na Inglaterra. A fuga por parte das classes media alemãs se deu basicamente pela literatura, e os livros deste período demonstravam bem esta situação. Tem-se então a ascensão de personagens como o professor ou o membro do clero por encarnarem um papel de disseminadores da cultura da classe média, e as universidades formavam uma espécie de contra-peso. Esta forte dicotomia presente na sociedade e na literatura acaba se manifestando no conceito de “Kultur”. Os poetas e literatos eram, de certa forma, deslocados dos contextos políticos, até porque, este caráter sempre fora negado, uma vez que, era de domínio da monarquia. Assim, termos como Kultur acabam por ter seus significados sempre fora deste plano – político, econômico ou social. Diferentemente do exemplo Alemão já citado, na França a assimilação dos costumes da corte por parte da burguesia se deu muito sedo. E principalmente, todos falavam a mesma língua. Na Alemanha, a burguesia crescente e os intelectuais acabaram por desenvolver uma auto-expressão, quase que uma cultura própria. Outro fator foi o fato de que na França, a burguesia era muito mais próxima da corte que na Alemanha, seja culturalmente – na relação da língua, uma vez que na Alemanha a nobreza falava Frances, enquanto a burguesia não – quanto político, já que na França, a burguesia conseguia por vezes galgar representação próxima aos Rei. Na França, o termo Civilisation deu-se devido ao movimento das ideias reformistas. No século XVIII as estruturas internas da França haviam mudado, houve um crescimento do capital do país, com este movimento, houve por parte da burguesia um descontentamento referente aos impostos e cobranças tradicionais, houve então, por parte da corte uma “burocracia reformista” – como diz Elias. Esta nova filosofia refletiu no conceito de civilisation. Então, Neste momento, a ideia de civilização se transforma de uma forma que produz uma repulsa e ataque a um estágio da sociedade que seria visto como inferior, a barbárie. Entende-se então que a civilização não é um estado mais uma condição, um estágio. Assim, Elias nos demonstra que os termos de civilisation e kultur, sofreram modificações em seus significados devido as realidades pelas quais estas foram produzidas, se na França o termo recebe um cunho mais amplo quanto ao social e/ou político, na Alemanha, o termo assume um caráter mais intimo, referente aos conflitos sociais internos. Este caráter só veio a se modificar na Alemanha com a ascensão definitiva da burguesia.

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