(Apenas) para quem ama a Inglaterra
Esse livro traz uma ideia bem peculiar. O que aconteceria se a Inglaterra, a terra de Shakespeare, dos Beatles, do chá das 5, do futebol e de uma história que atravessa séculos, fosse transformada em uma 'marca' e vendida como um parque temático? Eu não sou muito fã de literatura mais contemporânea, e dificilmente algum livro mais moderno me conquista, mas eu fiquei tão encantado com a leitura de O PAPAGAIO DE FLAUBERT que quis conferir outras obras do mesmo autor. E como eu adoro a Inglaterra, imediatamente coloquei na minha lista e estava superanimado para ler. Mas, infelizmente, a leitura acabou não se revelando isso tudo que eu esperava. INGLATERRA, INGLATERRA é uma grande fantasia especulativa, misturando ficção e realidade, uma espécie de distopia satírica. Neste livro, o autor questiona o que é ser inglês, numa história bem provocativa e irônica sobre identidade, a cultura britânica e a sociedade de consumo atual. O poderoso multimilionário Jack Pitman, ao mesmo tempo que aproveita todas as facilidades do mundo moderno e globalizado para enriquecer cada vez mais, também é extremamente conservador no que diz respeito às tradições do seu país. E a última ideia do Jack Pitman é simplesmente manter a essência da Inglaterra, mas em um outro local, uma espécie de parque temático onde os turistas podem conhecer todos os pontos turísticos e viver experiências tipicamente britânicas em um final de semana, e gastando muito menos tempo e dinheiro do que se fizessem uma viagem real ao país. E o que a princípio parecia ser uma grande piada, aos poucos, com subornos, chantagens, documentos forjados, manipulação das mídias e muito marketing, o empreendimento vai tomando forma e o parque sai do papel. A coisa vai crescendo, a ilha acaba proclamando sua independência e vira um novo país, pleiteando reconhecimento internacional e o ingresso nos organismos internacionais, em especial a Comunidade Europeia. Ao mesmo tempo em que a cópia se desenvolve, a velha Inglaterra vai definhando, muda de nome para ANGLIA, e faz o que pode para tentar retomar sua autenticidade roubada. É um livro que, de forma satírica, toca em temas bastante atuais, como o contraste entre o mundo real e o mundo do espetáculo, onde o que importa não é o genuíno, mas o que pode ser vendido e gerar lucro. O que é importante é ter uma realidade manipulável, e uma das formas de fazer isso é manipulando o conhecimento, com isso não só costumes e lendas antigos mas também fatos históricos são alterados para se adequarem ao projeto, e como todas as atrações da ilha são familiares, a história é reescrita para se encaixar nos padrões políticos e sociais vigentes e na total supressão de qualquer conteúdo sexual, ou seja, a Inglaterra, Inglaterra é um local totalmente dentro do politicamente correto. É uma história bastante interessante e que questiona tradições inventadas, autenticidade da história, massificação do turismo, como a memória coletiva é construída e manipulada, critica a sociedade de consumo, nessa preferência pela experiência rápida e falsa, em detrimento do conhecimento legítimo e a questão da identidade nacional. Mas, a meu ver, é um livro que explora temáticas importantes e reflete muito da insegurança britânica dos anos 90, assuntos de grande relevância para os ingleses. Mas, para o restante do mundo esses tópicos já não chamam tanta atenção, então o interesse no livro ficou um tanto restrito aos ingleses ou a quem tem um interesse maior no país. Um outro ponto é o aspecto cômico do livro. É um livro engraçado, mas com o famoso humor britânico, que é bem peculiar, que está mais para um sorrisinho irônico do que para uma sonora gargalhada, e isso também não agrada a todo mundo. Por fim, especialmente na terceira parte, o autor foge um pouco desses aspectos mais coletivos para focar quase exclusivamente na jornada pessoal de uma personagem, administradora do projeto, que ao longo da narrativa vai percebendo que sua vida é tão falsa e rasa quanto as atrações do parque, embarcando em uma busca da verdade sobre as origens, tanto sua quanto da verdadeira Inglaterra, que ela só poderá encontrar na decadente e quase esquecida Anglia. No final das contas, foi uma leitura bastante válida, agradável, divertida, mas que eu não recomendo para todo mundo, especialmente para quem não está muito informado sobre a história da Inglaterra ou não curte o peculiar humor britânico. Mas se esses aspectos não te incomodam e você gosta de livros extremamente irônicos, que nos causam um certo desconforto e que fazem a gente pensar e questionar sobre nossos próprios papéis na sociedade, talvez seja uma leitura que agrade. De minha parte, continuo gostando do autor e já tenho outras obras dele na minha lista de leituras futuras.

