Seu nome em Angola era Luís Fernando. Vivia em família com seu pai, sua mãe e seus irmãos de aldeia. Uma vida harmoniosa com a mata e seus presentes: frutos variados, sementes, raízes, madeira boa e terra fértil. Num domingo ensolarado, Luís Fernando vai com seu pai em busca de um tronco para a confecção de um bonito tonel e o pior acontece: cercados por brancos, os dois são violentamente raptados e colocados em um navio negreiro juntamente com outros de seu povo. O pequenino Luís Fernando, aterrorizado, jamais voltaria a ver sua mãe. O destino era uma terra distante chamada Brasil e começava ali uma trajetória de dor e uma nova vida para o negrinho Miguel, nome dado a Luís Fernando em terras brasileiras por vovó Joana, uma velha e bondosa escrava que amparava as crianças recém-chegadas da África, sem nome, sem família e sem passado.
Lições da Senzala -
Maria Nazareth Dória
Edições (3)
Ver maisO mesmo é uma obra considerada antiga e conta a história do próprio Luis Fernando em uma das suas encarnações e narrada por ele mesmo. Com isso, o amigo espiritual começa contando sua vida, ainda na infância, em Angola. Com seus pais, irmãos e sua rotina normal na aldeia, inclusive com suas plantações e descobertas do dendê. Depois de um tempo, ele e seu pai são capturados e colocados em um navio negreiro. E a partir de então, o leitor acompanha a saga da dupla e todos os fatos pesados existentes na época em um navio cheio de negros. Chegando ao Brasil, Luis Fernando e seu pai são separados e o rapaz vai para uma fazenda onde encontra três coisas: Sua nova realidade, seu novo nome chamado MIguel e vovô Joana que vira uma mãe e família para o menino. Sendo assim, vamos vendo o passar dos dias de Miguel, seus senhores que, durante a narrativa, foram três. O primeiro tratava a todos muito bem e como gente, o segundo o fez virar o reprodutor da fazenda, ou seja, deveria engravidar todas as escravas que ainda eram virgens e tratava a todos muito mal e o terceiro também era gente boa e entendia toda a situação. Além disso e de todo o seu trabalho escravo, Miguel também manuseava ervas e fazia remédios artesanais para auxiliar ao seu povo e a quem desejasse também. Por esse motivo, foi chamado para ajudar no parto da esposa de um dos seus senhores. A mesma estava grávida de gêmeos e não sabia, e achando que um deles tinha morrido, sumiu para senzala com o bebê. Contrariando a expectativa de Miguel, a neném sobreviveu, passou um tempo morando com os escravos e depois encaminhada para outra fazenda. Com o passar dos anos, Miguel se tornou referência de escravo, ajudava e participava nas comunicações com os orixás e era sempre correto em todos os momentos. Só a questão da criança retirada dos pais e jogada no mundo, digamos assim, ainda o incomodava tremendamente. Mesmo Lucien tendo se tornado uma moça bem cuidada e quista na sociedade na época. Depois de um tempo e alforriado, Miguel volta a Angola para encontrar os seus, se identificar e ver quem é afinal o Luis Fernando e não somente o escravo Miguel e também para encontrar Dalva, criar laços e ter filhos por amor e não mais somente por obrigação. As partes espirituais ficam a cargo de Joana, que auxilia ao protagonista tanto ainda encarnada quanto desencarnada e aos orixás durante toda a narrativa. O livro fala também sobre perdão, empatia, soberba, usar o poder em malefício de algo, as realidades dos escravos e depois do alforriados e a evolução moral e espiritual de Miguel e de Luis Fernando também. O texto é de fácil entendimento e a leitura, apesar de densa em muitos momentos, é mega envolvente. Mal começou o ano e já é meu romance preferido do ano por tamanha sensibilidade, realidade e espiritualidade. Recomandadíssimo.
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