Pessoas morrendo de fome em porões infectos e túneis escuros. Uma corrupção generalizada, que envolve desde a polícia até os palácios governamentais. Lavagem de dinheiro, superfaturamentos. Crianças desaparecidas. Crimes horrendos. Claro, coisas assim só acontecem no Rio, São Paulo e outros lugares deste nosso maltratado Brasil, não é mesmo? Pois olhe, não é não. É nos Estados Unidos, mais especificamente na bem cuidada Chicago, onde Al Capone foi substituído por bandidos menos espalhafatosos, mas de certa forma até mais perigosos, porque escondem seus crimes atrás de fachadas mais sutis. A americana Sara Paretsky oferece aos seus leitores uma aventura radical: um mergulho nesse mundo sombrio e aterrorizante. No romance Visão de túnel, que a Editora Rocco está lançando agora no Brasil, ela quase literalmente se transforma em Victoria I. Warshawski (Vic), que tem diploma de advogada, foi policial e agora, para não se submeter a comandos masculinos, trabalha como detetive particular. Passa por apertos financeiros tão fortes que é obrigada a morar num prédio caindo aos pedaços e condenado à demolição, mas ao menos pode fazer o que mais gosta. E colabora com uma instituição, a Arcadia, que cuida de mulheres vítimas de maridos violentos. Sara Paretsky assume tão inteiramente a personalidade de Vic que atribui a ela a autoria do romance. É um thriller da melhor qualidade, com os mais arrepiantes elementos do gênero, como socos, pontapés, tiroteios, a heroína enfrentando criminosos terríveis e até mesmo descendo aos subterrâneos da cidade durante uma enchente. É lá que ela tem a visão de túnel, onde "milhões" de gordas e pegajosas ratazanas são a coisa que menos causa nojo, pois o que mais enoja é a degradação dos poderosos. A história começa num dia em que a luz falta no tal prédio, e Vic é obrigada a ir ao porão para consertar os fios. Lá descobre uma mulher esquálida, morrendo de fome, com três crianças também quase morrendo. A mulher não queria ser socorrida, com medo do marido, que a maltratava e às crianças, mas Vic acaba conseguindo levá-la a um hospital, de onde ela foge com os meninos, temendo que a polícia a obrigue a voltar para o marido. Na procura da fugitiva, a detetive faz descobertas escabrosas – um professor universitário que maltratava a mulher e violentava sexualmente a filha de 16 anos, grandes firmas que doavam dinheiro a instituições de caridade mas aproveitavam a situação para lavar dinheiro escuso, um senador corrupto, sutis idéias de envolvimento da Casa Branca nesse mundo de trevas. Visão de túnel não é uma narrativa linear. Sara Paretsky não se limita a descrever cenas e provocar emoções fortes. Fez uma pesquisa detalhada de Chicago, de alto a baixo, por fora e por dentro, até as profundezas escondidas. Conta sua história com minúcias que tentam nada deixar de lado, mas não busca tanto as visões exteriores, e sim a visão da alma, não apenas a alma das pessoas; das coisas também. E é aí que traz à superfície a visão de túnel, que pode ser a visão da própria realidade, pois afinal é de dentro dos nossos túneis que enxergamos todas as coisas.

