Corte na Aldeia -

    Francisco Rodrigues Lobo

    Edições Vercial
    1995
    266 páginas
    8h 52m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Precursor da melhor prosa portuguesa do século XVII, Francisco Rodrigues Lobo revela-se, na Corte na Aldeia, filósofo e humorista de qualidade. Escrita para toda a gente, esta Corte na Aldeia reúne um grupo de amigos que, pelo gosto de conversar, sustentam ameno e familiar colóquio, despretensiosamente humanista.

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    Gabalis17/12/2021Resenhou um livro
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    Matérias proveitosas, engraçadas e cheias de galantaria

    O livro está organizado em dezesseis diálogos entre cinco figuras principais, Leonardo, Lívio, D. Júlio, Píndaro e Solino, e ainda uma porção de outros que aparecem em situações para dar motivo de conversa ou maneira de ilustrar algum ponto. A linguagem do autor tem uma certa complexidade, principalmente na organização das frases, que aliás são até bem compridas, e possuem uma ordem que não se pode chamar de completamente didática. Não é raro encontrar frases como esta do quarto diálogo: “Uma senhora, enojada por a morte de um seu irmão tomava as visitas em uma camilha, como os mais costumam; a esta mandou visitar outra parenta sua por uma pessoa de autoridade que, entrando na primeira casa, a achou tão escura que, pegando-se às paredes, esperou uma dona que lhe servisse de moço de cego, a qual o levou por a mão té uma porta estreita, aonde havia um degrau alto, e ali soltou para passar diante, o qual não alcançou tão bem o degrau que não desse primeiro com as queixadas na ombreira da porta e, saído do perigo, o tornou a guiar a dona da mesma maneira té junto da camilha, aonde o tornou a soltar.” Com este exemplo quero deixar claro que é necessária paciência para ler estes diálogos todos, mas digo logo que vale o esforço. Os diálogos tratam de todo tipo de assunto, com todo tipo de humores e uma enorme variedade de exemplos, anedotas e casos curiosos, tudo sob a ideia geral do que deve saber e como se deve comportar um cortesão. Imagino que desta obra qualquer um é capaz de tirar algo que lhe interesse. Como diz um dos próprios personagens num dos primeiros diálogos “O melhor modo de escrever são os diálogos escritos em prosa, com figuras introduzidas que disputem e tratem matérias proveitosas, políticas, engraçadas e cheias de galantaria, sendo a primeira figura da obra do autor dela e esse que vá guiando e introduzindo as mais, que sejam apropriadas àquelas matérias de que hão-de tratar entre si.” O dito serve também como uma síntese do que vai escrito nesta obra. Aqui vemos discussões acerca de tudo um; religião, amor, política, guerra, língua e muitas outras coisas. Menciono detalhadamente apenas o diálogo que mais me chamou a atenção, que trata sobre as novelas de cavalaria, mas que na verdade pode ser visto como uma discussão sobre o próprio ato de escrever ficção e qual seu uso e lugar na cultura. No fundo é um discurso bem interessante que em nada falta para ser crítica literária. Se por mais nada, Corte na Aldeia vale pela riqueza de ditados “o amor tira os sentidos e o juízo quem se emprega todo em seus cuidados” e casos curiosos do mundo antigo e moderno como o do escravo de Públio Catieno “que, deixando-o o senhor por universal herdeiro de seus bens, pola fidelidade com que servira, ele, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em que queimaram o corpo de seu senhor e morreu com ele, mostrando que estimava mais tal servidão que a vida e as riquezas que lhe deixava.”

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