O argentino Macedonio Fernández (1874-1952), em determinado momento de sua biografia, candidatou-se a presidente do seu país. Como argumento, declarou que muitos eram os que desejavam abrir um bar e tê-lo como ofício e poucos almejavam a presidência, intento que lhe permitia, matematicamente, mais chances de perseverar.
Pela contramão da maioria, o sucesso deu-se apenas literariamente, felizmente.
"Museu do Romance da Eterna", sua mais importante obra, foi lançada no Brasil 40 anos depois de sua primeira edição original.
Foi Macedonio quem abriu as portas para a literatura argentina moderna, quem adiantou-se ao tempo e derrubou fronteiras para que escritores como Jorge Luis Borges - que o chamava de mestre - e Julio Cortázar pudessem consolidar a arte literária argentina para além de sua época e seu espaço.
O livro é composto de 59 prólogos, que anunciam o enredo que parece nunca chegar: a história de um homem que troca a cidade pelo campo após a morte da mulher, indo morar na estância "O Romance", onde cria um mundo que não existe e a pessoa amada se torna eterna.
A narrativa é composta por digressões, caminhos que apontam para a busca de uma estética extremamente original para o período, nos quais a quebra da linearidade e a proposta de que o leitor se sinta lido enquanto vasculha o livro, ao contrário de tomar posição de mero espectador da arte em construção, dá a chave para o modernismo literário.
"Em Macedonio, o inacabado tem qualidade de pensamento filosófico, de teoria estética", pontua o jornalista Damián Tabarovsky no prefácio do livro.
Objeção ao eu e à morte e opinião de que o realismo é a verossimilhança sem invenção permeiam "Museu do Romance da Eterna". A sintaxe de Macedonio, ao estilo da de Guimarães Rosa, é extremamente inventiva. Um pouco difícil, mas admirável pelo rebuscamento.
"O desafio que persigo à verossimilhança, ao disforme intruso da Arte, à Autenticidade - está na Arte, faz o absurdo de quem se acolhe no Sonho e o quer Real... convido o leitor a não se deter a desenredar absurdos, legitimar contradições, e sim seguir o curso de arrasto emocional que a leitura vá promovendo minusculamente nele."
O romance, que começou a ser escrito em 1904, foi rebuscado pelo resto da vida de Macedonio. Foi publicado apenas em 1967, 15 anos após a morte do autor. A ideia dele era conservá-lo para sempre inédito, um organismo vivo em que nenhum personagem ficasse preso à contracapa, para sempre encerrado aos contornos de sua própria realidade.
AO LEITOR SALTEADO
O hoje, tempo em que a linearidade perde representação para meios cada vez mais dinâmicos (internet e suas mensagens sem começo ou fim), esteve presente nas ideias de Macedonio através de sua concepção de leitor salteado, personagem que, em sua quebra ficcional, era o que tinha mais chances de ler seguido. "Ao leitor salteado me acolho. Eis que leste todo o meu romance sem saber, te tornaste leitor seguido e insabido ao te contar tudo dispersamente e antes do romance... és o leitor sábio, pois praticas o entreler que é o que mais forte impressão lavra."