As histórias em quadrinhos (ou comics para os norte-americanos, bandes dessinées para os franceses e fumetti para os italianos), embora existam desde 1895, somente passaram a ser reconhecidas como importante meio de comunicação, ao serem "descobertas" por intelectuais europeus como Alain Resnais, Jean-Luc Godard, Cesare Zavattini, Claude Lelouch, Damiano Damiani, Picasso, Fellini e outros. Dorfman e Mattelard, em Para Ler o Pato Donald comprovam como a Disney, com toda a sua galeria de personagens inteligentemente "dirigidos", tornou-se nossa habitual representação coletiva. No Chile, por ocasião do terremoto de julho de 1971, as crianças da cidade de São Bernardo mandaram revistinhas Disneylânidia a seus compatriotas de San Antonio, vitimados pela catástrofe sísmica. A atividade da empresa Disney, porém não se circunscreve às revistas de quadrinhos, mas em tiras diárias em cadeias de jornais, suplementos coloridos dominicais, filmes de animação de curta e de longa metragem, filmes com personagens "vivos", curta-metragens "educativos", programas semanais em televisão, documentários de longa-metragem, áudio-visuais, discos, venda de royalties, além dos decantados e turísticos parques de diversão Disney World e Disneylandia. Foi divulgado recentemente na imprensa que, depois da morte de Walt Disney, em 1966, o faturamento de seus empreendimentos comerciais havia crescido de 116 milhões de dólares para 329 milhões e que os lucros de 12 milhões haviam passado a 40 milhões de dólares. O império Disney, em termos de comunicação de massa é algo que provoca reflexão e - por que não dizer? - um pouco de susto também. No universo de Walt Disney, ninguém trabalha para produzir. Todos compram, todos vendem, todos consomem, mas nenhum desses produtos parece ter custado qualquer esforço. A grande força do trabalho é a natureza que produz objetos humanos e sociais como se fossem naturais. A origem humana do produto é sumariamente suprimida. O processo de produção desapareceu. A simetria entre falta de produção biológica direta e a falta de produção econômica não pode ser casual e deve ser entendida como um estrutura paralela única que obedece à eliminação do proletariado - a verdadeira origem dos objetos, ou no dizer de Gramsci, o elemento viril da história - , da luta de classes d do antagonismo de interesses. Walt Disney é um exorcista da história: expele o elemento reprodutor social (e biológico) e fica com seus produtos amorfos, sem origem, sem a miséria que esses produtos criam na classe proletária. Walt Disney e seus veículoas massivos de comunicação vêm funcionando há anos como lavagem cerebral de populações infanto-juvenis do mundo inteiro. E isso não é assustador?...


