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    Em defesa das causas perdidas -

    Slavoj Žižek

    Boitempo Editorial
    2011
    480 páginas
    16h 0m
    ISBN-13: 9788575591635
    Português Brasileiro
    4.1
    37 avaliações
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    Um dos grandes filósofos políticos do nosso tempo, Slavoj Žižek investiga nesta obra o cerne das chamadas “políticas totalitárias” do passado. A fim de examinar os dilemas do momento presente e propor alternativas, coloca-se como observador da história para, calcado nas bases teóricas críticas da psicanálise e do marxismo, resgatar o que ainda podemos aprender com as chamadas “Causas perdidas”. Momentos de mudança radical ocorridos a partir de grandes causas são férteis, candentes de idealismo e capazes de abrir e iluminar caminhos, ainda que seus meios provem-se equivocados. Com seu estilo sempre contestador e sagaz, Žižek desfaz ponto a ponto a trama das análises prontas e desgastadas, elaborando sua defesa das causas perdidas para, de acordo com ele, não “defender, como tal, o terror stalinista, mas tornar problemática a tão facilzinha alternativa democrático-liberal”. De acordo com o jurista e filósofo Alysson Leandro Mascaro, que assina o prefácio da obra, Žižek faz a passagem entre a constatação factual e a plena intervenção política, alcançando o estágio que denota a maturidade política de um filósofo: o apontar dos caminhos. Tudo isso sem deixar de lado as provocações que o tornaram conhecido do grande público, articulando Lacan, Hegel e Marx, o cinema, a música, a cultura popular e os objetos de consumo. O livro consolida uma perspectiva de filosofia política que ganha ares de proposição específica: a defesa das causas perdidas e o encontro das visões filosóficas não liberais existenciais e marxistas. Para além de Lacan e Marx, Žižek alinha Heidegger e Foucault em sua empreitada política. Ao discorrer sobre as formas de luta pela emancipação universal e a iminente crise ecológica global, reivindica a possibilidade de reinvenção do terror revolucionário e da ditadura do proletariado. A proposta de ruptura teórica com o bem-estabelecido tem em vista que o capitalismo só pode vicejar em condições de estabilidade social básica. Esse pano de fundo ideológico precisa ser gerido por um forte aparelho cultural e educacional que mantém a confiança simbólica intacta, produzindo indivíduos que não só aceitam a própria responsabilidade por seu destino, como também confiam na “justiça” básica do sistema. Repetir o passado não é provar a fraqueza do que se busca novamente, mas sim demonstrar a necessidade premente de concretizar sua grandeza, buscando no mínimo errar menos nessa nova retomada do processo revolucionário. A defesa das causas perdidas não está envolvida com nenhum tipo de jogo desconstrutivo, seu objetivo é aceitar com coragem a concretização total de uma Causa, inclusive o risco inevitável de um desastre catastrófico. “Parafraseando a memorável frase de Beckett, à qual voltarei várias vezes adiante, depois de errar pode-se continuar e errar melhor, enquanto a indiferença nos afunda cada vez mais no lamaçal do Ser imbecil”, conclui Žižek. De acordo com Mascaro, “Em tempos dinâmicos que chegam até a plena manipulação tecnológica da natureza, onde a única grande estabilidade é a própria exploração capitalista, contra a qual já se luta e já se perde há tempos, trata-se de mostrar que é possível fazer a defesa das causas perdidas, para agora perder melhor ou, quiçá, plenamente ganhar”. “Restam somente duas teorias que ainda indicam e praticam essa noção engajada de verdade: o marxismo e a psicanálise. Ambas são teorias de luta, não só teorias sobre a luta, mas teorias que estão, elas mesmas, engajadas numa luta: sua história não consiste num acúmulo de conhecimentos neutros, pois é marcada por cismas, heresias, expulsões. É por isso que, em ambas, a relação entre teoria e prática é propriamente dialética; em outras palavras, é de uma tensão irredutível: a teoria não é somente o fundamento conceitual da prática, ela explica ao mesmo tempo por que a prática, em última análise, está condenada ao fracasso – ou, como disse Freud de modo conciso, a psicanálise só seria totalmente possível numa sociedade que não precisasse mais dela. Em seu aspecto mais radical, a teoria é a teoria de uma prática fracassada: 'É por isso que as coisas deram errado...'. Costumamos esquecer que os cinco grandes relatos clínicos de Freud são basicamente relatos de um sucesso parcial e de um fracasso definitivo; da mesma forma, os maiores relatos históricos marxistas de eventos revolucionários são descrições de grandes fracassos (da Guerra dos Camponeses Alemães, dos jacobinos na Revolução Francesa, da Comuna de Paris, da Revolução de Outubro, da Revolução Cultural Chinesa...). Esse exame dos fracassos nos põe diante do problema da fidelidade: como redimir o potencial emancipatório de tais fracassos evitando a dupla armadilha do apego nostálgico ao passado e da acomodação demasiado escorregadia às 'novas circunstancias'”.

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    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa picture
    Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa21/03/2011Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Tratamento de Choque

    "Em defesa das causas perdidas" é uma síntese do crescente interesse de Slavoj iek pelas grandes revoluções e seus momentos de terror revolucionário notadamente em edições comentadas de textos de Robespierre, Lênin e Mao, publicadas no Brasil com suas críticas da cultura de massas e do pensamento político e filosófico contemporâneo. Publicado em inglês em 2008, ficou mais instigante ao chegar aqui em 2011, depois que a crise econômica global e a série de revoltas árabes encerraram uma era de aparente prosperidade econômica e marasmo político mundiais. A trajetória de iek se assemelha à de muitos dissidentes do Leste Europeu. Membro do partido comunista esloveno até 1988 embora tivesse conexões com dissidentes e sua tese de mestrado fosse condenada como não marxista em uma fase de endurecimento do titoísmo podia ser considerado sem muitas dúvidas como pós-marxista nos últimos anos do regime e primeiros da nova ordem, quando chegou (em 1990) a ser candidato à presidência da Eslovênia pelo centrista Partido Liberal-Democrata. Muitos europeus do Leste inicialmente entusiasmados com as possibilidades da democracia liberal e da integração à União Europeia desiludiram-se: pesquisas de opinião mostram a força da nostalgia da era soviética. Já iek não lamenta os velhos tempos, mas busca de uma saída para a frente e é hoje menos marxista do que pós-pós-marxista. O objetivo da nova obra, apesar de vastas digressões (valiosas em si mesmas) que abordam desde a crítica da música de Prokofiev até as relações da Turquia com a União Europeia, é problematizar a democracia e a chantagem liberal, a ideia de que todo projeto político de emancipação leva a catástrofes e ditaduras, e refletir sobre o conceito de revolução. Para iek, o problema não é redescobrir a ortodoxia marxista, mas reinventar a imaginação e enfrentar o medo e a condenação moralista do sonho revolucionário. Implica aplaudir a ousadia da ruptura, não só apesar da violência radical como, até certo ponto, por causa dela. Ainda que a recíproca não seja verdadeira, não há ruptura autêntica sem terror pois é assim que os fatos são vistos a partir do paradigma violentado, de quem é expropriado do que tinha como justo e natural: moral, direitos, propriedades e privilégios. Para melhor enfatizar o argumento, iek discute entre as causas perdidas que merecem resgate teórico, além dos jacobinos e marxistas-leninistas, o apoio de Michel Foucault à revolução iraniana que levou os aiatolás ao poder e até mesmo Martin Heidegger, filósofo que aderiu ao nazismo em 1933 e nunca o repudiou totalmente. Para iek, foi o passo certo, embora na direção errada. Avisa, por outro lado, que o terror pode ser uma maneira de encobrir o fracasso, o equivalente político da passagem ao ato no sentido psicanalítico a situação no qual o indivíduo troca a conscientização por ações transgressivas e excessivas que têm uma relação apenas simbólica com seus desejos. A revolução cultural de Mao seria exemplo dessa impotência de gerar o novo, que se refletia também na rejeição maoísta do conceito hegeliano-marxista de negação da negação, a síntese dialética que deveria resultar da tese e antítese e que o líder chinês só conseguia entender como uma indesejável acomodação entre uma posição e sua negação radical ou simples destruição do inimigo. iek explica seu verdadeiro significado: Em primeiro lugar, a velha ordem é negada no interior de sua forma político-ideológica; depois essa própria forma tem de ser negada. Os que temem dar o segundo passo e superar a própria forma querem a revolução sem revolução. A verdadeira vitória não é quando o inimigo é vencido ou aniquilado, mas quando passa a falar a língua do vencedor como quando os social-democratas de Tony Blair passaram a aceitar a lógica do neoliberalismo de Margaret Thatcher. Mao ou Stálin falharam não por serem extremistas, mas por encobrirem com o terror sua incapacidade de serem revolucionários de fato. Mas iek só dá exemplos de causas perdidas. Como distinguir a revolução falsa da verdadeira, capaz da transformação social real? Nesse ponto, o pensamento do filósofo esloveno, em geral racional apesar dos ziguezagues e da ocasional falta de rigor, flerta com o misticismo. Melhor o engajamento desastroso que a indiferença. A fé no Evento redentor e imprevisível, capaz de trazer a mudança revolucionária, se torna um valor em si, mesmo que leve a apostar em Hitler. Soa como a aposta de Pascal e está sujeito à mesma objeção: ainda que se aceite o argumento de que vale a pena apostar a vida na existência de Deus, como saber em qual deus apostar? Se o centro-esquerda, principalmente o europeu, perdeu o sentido da verdadeira política para defender posições morais dentro do arcabouço neoliberal, parece que iek igualmente o perdeu para defender posições filosóficas e existenciais distantes da prática. Quando trata do aqui e agora, o esloveno só mostra simpatia para com a mobilização das favelas por Hugo Chávez, mesmo se é claro que também não rompe com o capitalismo. E o livro conclui com um Que se há de fazer evocativo de Lênin que aponta mais para o medo do que para a esperança: a proposta de justiça igualitário-revolucionária para impor a todos os países as mesmas restrições per capita de consumo de energia e emissão de dióxido de carbono. Mesmo que se aceite isso como justo e necessário, não há nessa fórmula abertura ao novo, mas uma espécie de alternativa coletivista, de esquerda, ao sobrevivencialismo individualista da direita dos EUA, sem outro horizonte do que o da subsistência física, com uma ênfase no terror e na repressão soa mais como um vingativo ecofascismo do que como um ecossocialismo que aspire a uma nova forma de vida, desenvolvimento e liberdade. Mesmo que seja mais uma sarcástica provocação de iek, que páginas antes advertia sobre a ecologia do medo e o ecologismo como novo ópio do povo, é um sinal de que estar consciente da necessidade de superar os referenciais do atual debate político não é o mesmo que saber fazê-lo.

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    Slavoj Žižek

    Influente filósofo e professor esloveno, dá aulas na Universidade de Liubliana e é diretor internacional da Birkbeck, Universidade de Londres. Influenciado fortemente por Lacan, Hegel e Marx, faz análises críticas com seu estilo idiossincrático e polêmico.

    57 Livros
    166 Seguidores
    República Socialista da Eslovênia, República Socialista Federativa da Iugoslávia

    Slavoj Žižek