As Sagradas Escrituras, para Ricoeur, são vistas como conjunto de “auscultações epistolares” do Deus de Israel ao seu povo, construídas em longo período de tempo. A beleza da carta aberta que é a Sagrada Escritura está em que continua a conseguir criar nos seus leitores o desejo e a presença de Deus. Não explicam ou esgotam a realidade, aliás, como nenhuma linguagem humana o consegue, pois a realidade é maior do que as palavras, ainda que a realidade necessite aceder sempre à palavra, à linguagem, à escritura, ao texto. Assim, o texto bíblico não é conjunto de respostas sobre Deus, o humano ou o mundo. É palavra de Deus ao humano e ao mundo, o que é totalmente diferente, e como qualquer palavra digna desse nome é para ser lida, porque nela se encontra o sentido, desafia o leitor e incita-o a novo modo de ser. Por isso, sua antiguidade é apenas aparente. O texto bíblico lê Deus, o humano e o mundo, pois os contempla Nele e, o leitor recolhe-se na contemplação do mistério, logo não é uma leitura qualquer, pois narra, mais não pode fazer do que se colocar diante do leitor. Em face a este mistério, o leitor e o mundo são desafiados à possibilidade de um novo modo de ser, uma nova forma de olhar as coisas. A diversidade da linguagem bíblica reproduz a pluralidade da vida humana na sua diversidade contextual e actancial, na polifonia do texto e do mundo bíblicos. Daí, as diversas nomeações de Deus, a realidade plural da experiência bíblica, ou seja, a humana, com as respectivas contradições e aporias.

