Começo dizendo que fiquei muito confusa enquanto lia. Não, o livro não é confuso, é muito bem escrito. O personagem principal, Quenton Cassidy, vive tantos dilemas, dúvidas e crises existenciais que me perdi entre elas. Não é nenhum dilema extraordinário, é relacionado às corridas e ao meio que o cerca, mas são decisões que qualquer um de nós poderíamos ter de tomar, direcionadas à vida de cada um, é claro.
"Tentou se concentrar em emoções difusas, como um fotógrafo metafísico que mirasse nos contornos nítidos para centralizá-los no visor. O que estava sentindo? Nostalgia? Arrependimento? A mente se contraiu e ecoou a pergunta: ‘Estou amolecendo?’
Ele não sabia. Mais uma vez, se dava conta de como tinha se especializado em não conseguir dizer certas coisas. Suas emoções estavam calejadas, assim como seus pés."
Conforme lia, desejei ser como ele em algumas situações, ter sua força, sua certeza. Aliás, o leitor sente que mesmo quando Cassidy não tem certeza, ele age como se tivesse. Em outros momentos, desejei que ele não se cobrasse tanto. Sentimos vontade de ser um de seus amigos para conversar com ele.
Também no começo da leitura, me senti uma intrusa. O livro retrata tão bem o mundo dos corredores que me senti chegando na turma e não conhecendo ninguém. Era como se eu tivesse ouvindo (lendo) conversas secretas.
“Muito cedo Cassidy compreendeu que um verdadeiro corredor corre mesmo quando não tem vontade e disputa provas quando tem de disputar, sem inventar desculpas e sem reservas. Corria para vencer: se necessário, seria capar de morrer no processo, e não se deixava impressionar pelos que criticavam uma motivação assim tão fundamental. ‘Não se pode renunciar ao que não se possui’, ele pensava."
A história passa tanta realidade que sai procurando se Quenton Cassidy era real. Não era, mas sempre guardarei um lugar para ele, como se fosse.
A sinopse já nos mostra o que moverá a história, mas a leitura revelará o que impulsionou Cassidy e suas decisões.
"Correr, para ele, era algo real; o modo como o fazia era a coisa mais real que conhecia. Era pura alegra e tristeza, duro como diamante; aquilo o deixava esgotado além da compreensão. Mas também o tornava livre."
É um livro inspirador, cheio de frases fortes, me emocionei em muitas partes porque, como faço com todas as leituras, separei aquilo que poderia usar em minha vida. O capítulo 28 é extremamente poético e, posso apostar, que todos nós já nos sentimos assim em algum momento de nossas vidas.
"Estava cansado de ficar cansado.
Escreveu de trás para a frente no vidro gelado e suado da janela: SOCORRO! ESTOU PRESO EM FEVEREIRO."
Quem nunca se sentiu preso e cansado?
Cassidy não queria ser o herói, nem exemplo de ninguém. Suas motivações, escolhas e decisões foram influenciadas por ser um corredor. Sabemos que para tudo há consequências, mas ele estava disposto a viver com elas.
Se aconselho a leitura? É claro! Recomendo muito. Agora você já tem uma ideia do que encontrará.
http://redomadecristal.com.br/2011/04/29/era-uma-vez-um-corredor-john-l-parker-jr/