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    The Spirit of the Rainforest - A Yanomamo Shaman's Story

    Mark Andrew Ritchie

    Island Lake Press
    1996
    271 páginas
    9h 2m
    ISBN-13: 9780964695214
    4.5
    4 avaliações
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    Resenhas (2)Ver mais
    Héber Fernandes Negrão picture
    Héber Fernandes Negrão03/03/2011Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Adoradores de Yai Pada

    A narrativa do livro é descrita do ponto de vista de “Homem da Selva”, um poderoso xamã yanomami que descreve detalhadamente sua sociedade e como ela foi transformada pela ação de missionários que chegaram trazendo-lhes uma mensagem sobre um antigo e poderoso espírito muito respeitado por este povo: Yai Pada. A leitura do livro é cativante e muito comovente. O narrador, por ser um nativo, descreve a história de acordo com a sua cosmovisão cíclica, dificultando um pouco a compreensão dos acontecimentos para a nossa mente linear ocidental. Ele começa a falar de um personagem no começo do livro e logo em seguida não o menciona mais; depois de dois ou três capítulos este personagem volta ao enredo da história. Isso ficou muito evidente no decorrer de todo o livro. Essa seqüência, para nós um tanto avessa, demonstra a maneira de pensar dos yanomami, para eles a história é cíclica, repetindo-se sempre a cada estação. Como ela anda progressivamente esse movimento assemelha-se a um espiral, que avança, mas seguindo um padrão circular. Percebemos claramente isso na narrativa de “Homem da Selva”. A lógica yanomami presente no livro é muito interessante de ser observada, e muitas vezes ela é tão lógica que nos deparamos com nossos próprios pensamentos mesquinhos imaginando que eles pensam diferentes, quando a lógica deles é muito mais prática e aplicável do que a nossa. Não acreditamos, ou não aceitamos o fato de que eles pensam como nós em muitos aspectos. Infelizmente enquanto lia o livro me percebi imaginando que eu queria que eles agissem ou pensassem diferentes de mim. Talvez no fundo, não somos tão diferentes quanto achamos que fôssemos. Outra característica impressionante destacada com muita nitidez no livro foi os pontos de vistas que os yanomami tinham sobre os espíritos. Todas as informações que eles tinham sobre esse assunto eram aquelas que seus próprios espíritos lhes davam. A descrição que Homem da Selva faz sobre os seus espíritos é belíssima, por outro lado a visão que os yanomami tinham sobre Yai Pada, o Espírito Inimigo, era distorcida pelos seus espíritos atribuindo a Ele um caráter de perseguidor e destruidor dos yanomami. Eduardo Viveiros de Castro chama isso de perspectivismo. Segundo ele o perspectivismo é uma concepção indígena na qual o modo como os seres humanos vêem os animais e outras subjetividades que povoam o universo é profundamente diferente do modo como esses seres vêem os humanos e se vêem a si mesmo. Ou ainda é uma concepção comum a muitos povos do continente segundo a qual o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não-humanas, que o apreendem segundo pontos de vistas distintos. No pensamento indígena cada ser pode enxergar um ao outro do seu ponto de vista específico. Um animal vê a si mesmo e a outros de sua mesma espécie como humano. Era exatamente isso que estava ocorrendo com os yanomami. Eles não tinham uma visão coerente sobre o todo. Só acreditavam profundamente naquilo que seus espíritos lhes mostrava, naquilo que eles podiam sentir e conhecer. Assim sendo, a história de Yai Pada e o relacionamento com este Grande Espírito lhes era vetado, seus espíritos lhes mostravam o medo que tinham ao se aproximar do território de Yai Pada. Eles diziam para não jogarem fora seus adereços de proteção porque se o fizessem estariam vulneráveis ao ataque dos espíritos maus. Segundo o Homem da Selva, tudo o que seus espíritos lhes mostraram era mentira para manter os yanomami afastados do Grande Espírito onde eles poderiam encontrar paz e alívio de seus antigos e traiçoeiros costumes. E revoltante a atuação dos antropólogos naquela região. Com o conhecimento que nós temos não podemos generalizar e desprezar todas as classes de antropólogos baseado no que sabemos sobre esse acontecimento isolado nestas aldeias yanomami. Sabemos que os antropólogos contribuíram muito para o conhecimento que os missionários têm hoje sobre as etnias em que trabalham, mas não podemos deixar de considerar que sua presença e mentalidade paternalista é uma grande ameaça para o trabalho missionário. Infelizmente temos visto que eles são agentes de mudança da cultura que pesquisam tanto quanto o são os missionários que as evangeliza. Os próprios índios estão convencidos da situação miserável em que vivem. Depois de um massacre a uma aldeia inimiga eles ficam dominados pelo medo de retaliação dos amigos da aldeia atacada. Mulheres são estupradas e ridicularizadas, crianças são violentadas, homens são agredidos sem piedade. Toda essa cultura é desprezível aos próprios yanomami. Eles procuram por mudança, eles procuram por uma vida melhor. E percebemos que o esforço para abrir mão de seus velhos costumes chega a ser ridicularizado e é considerado um ato de muita humilhação extrema. O livro é impressionante e instigante. Leva o leitor a mergulhar no universo, na mentalidade e na cosmovisão do povo yanomami. Infelizmente não o temos disponível em português. Sem dúvida é uma obra que faz imensa falta nas estantes dos nossos missionários e na formação da missiologia brasileira.

    2 curtidas

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