“O caminhante solitário”, do escritor alemão W. G. Sebald, não foi lançado no Brasil. Esta edição da Teorema/ Portugal, é de 2009, e conta com a tradução de Telma Costa.
Neste livro, Sebald nos apresenta seis retratos de pessoas admiradas por ele e que influenciaram sua vida e obra. São eles: Johann Peter Hebel, Jean-Jacques Rousseau, Eduard Mörike, Gottfried Keller, Robert Walser e Jan Peter Tripp.
Em tom de homenagem, e tendo a memória como sustentáculo de sua narrativa, Sebald nos conduz e envolve com uma mescla de fatos – importantes da História alemã -, e interpretações romanceadas. Além de conhecermos aqueles escritores e o pintor Jan Peter Tripp, percorremos as paisagens alpinas, de outros tempos, inclusive.
É inegável que os retratados são complexos e nem sempre tiveram suas obras reconhecidas, ou suas vidas compreendidas. Mas em nenhum momento duvidei da qualidade desses trabalhos que inspiraram Sebald – não há corporativismo. E sim respeito e afeto. Reflexões lúcidas, lembranças pessoais, poesia e distância documental tornam a leitura muito agradável.
As ilustrações são co-adjuvantes no livro, pois o poder imagético se dá por meio das palavras de Sebald: fluidas, bem escolhidas, sem exageros ou pedantismo. É assim que nos encantamos com fragmentos de Keller e Walser, para citar os que mais me impressionaram. Acabei a leitura com vontade de conhecer melhor esses artistas. Se não temos os livros citados (à exceção de Jakob Von Gunten) traduzidos no Brasil, pelo menos é possível encontrar no Google [valem a busca!], algumas obras de Jan Peter Tripp. La déclaration de guerre * é um bom exemplo do fascínio visual sofrido por Sebald, que agora temos ao alcance dos olhos.
* “Quadro de 370 cm x 220 cm, em que se vê um par de elegantes sapatos de senhora pousados num chão de mosaico. O desenho azul claro e creme dos mosaicos, as linhas cinzentas das juntas, os losangos de chumbo do envidraçado de uma janela numa rede projetada pela luz do sol sobre a parte central da imagem, que é onde se encontram os sapatos, delimitada por duas zonas de sombra: tudo isto cria um motivo geométrico de uma complexidade que é impossível descrever por palavras. O motivo ilustrativo da dureza das diferentes situações, de vínculos e enredos, e o misterioso par de sapatos pretos compõem uma espécie de enigma visual que o observador que ignore a história anterior não alcançará decifrar. Quem é a mulher dona dos sapatos? Para onde foi? (...) Os sapatos não revelam o seu segredo.” – páginas 156 e 157.