Morena de Angola. É Clara guerreira, lá vem trovoada. Mulher à frente de seu tempo, determinada, corajosa, de personalidade forte, Clara Nunes carregava um ímã no olhar. Transmitia verdade. Sua voz emocionava. Máquina de fazer dinheiro, dava Ibope e fez a mídia e a indústria do disco renderem-se a ela. Um livro que mostra a brasileira cantora, mulher e espiritualista, que cantava ponto em terreiro e comungava em igreja católica. E que fez da voz sua poderosa arma de guerra. A cantora mineira Clara Nunes (1942-1983) é cultuada pela nova geração. Marisa Monte já a apontou como uma de suas artistas prediletas, e novatas como Mariana Aydar incluem em seus discos canções que fizeram parte do repertório de Clara. Essa biografia ajuda a entender as razões de tanta admiração. O jornalista Vagner Fernandes reconstitui a trajetória da cantora, que começou cantando boleros de gosto duvidoso antes de se converter ao samba – no qual fez história, criando registros definitivos das melhores composições do gênero. Há também histórias de bastidores sobre a rivalidade de Clara com Beth Carvalho, na disputa do posto de a maior sambista do Brasil – que, aliás, cabe ainda hoje a Clara Nunes.
Clara Nunes - Guerreira da Utopia
Vagner Fernandes
Edições (2)
Ver maisO mar serenou.
Eu me lembro de Clara, vestida de branco, descalça, com os cabelos revoltos, dançando , girando e cantando no palco do "Cartas e Cartazes", quadro final do Programa Raul Gil, no SBT, por volta das 6 da tarde de um sábado qualquer de 1982. Para um criança de 7 anos, a visão era algo perturbadora, mas a intensidade da imagem não deixava dúvidas : tratava-se de uma força da natureza. Lembro também de meu pai ouvindo no rádio as matérias sobre o velório de Clara, na quadra da portela, em abril de 83. Essas lembranças se misturam aos discos de vinil, estampados com o selo da velha Odeon, que eram empilhados a tantos outros como Roberto Ribeiro, João Nogueira e Paulinho da Viola ( da mesma gravadora), além do imbatível Martinho da Vila (esse, da RCA Victor)que se alternavam na trilha sonora lá de casa. A agonia da cantora foi acompanhada feito novela, com direito até mesmo a um esquemático desenho, exibido no Jornal Nacional, contando como ela, em coma profundo após um choque anafilático em meio a uma operação para retirada de varizes,se agarrava inconscientemente ao tênue fio de sua vida, mantida aquela altura por aparelhos. Do lado de fora da clínica, hordas de fãs se juntavam a místicos, amigos (entre os quais se destacava a então Baby Consuelo, atual Baby do Brasil, mandando "rás de positividade e luz" para Clara), parentes e jornalistas, na atmosfera meio circense de uma longa vigília. Essas enevoadas e confusas memórias vem à tona após a leitura de "Clara Nunes", a densa biografia escrita por Vagner Fernandes que nos revela uma outra Clara, a ainda tímida cantora iniciante, vinda do interior (onde foi personagem central de uma trama trágica, que dá ares de saga ao livro) e que, sob a tutela do onipresente Carlos Imperial, tentou emplacar como jovem guardista de segunda escalão, passando por alguns constrangedores bolerões até, finalmente, encontrar-se com o samba, alcançando o primeiro sucesso com "Você passa e eu acho graça", parceria de Imperial com o lendário e, na época em seus momentos derradeiros na carreira, Ataulfo Alves. Mas Clara só se encontrou realmente a partir de 1971, quando abraçou o autêntico samba carioca guiada por seu mentor, o radialista Adelzon Alves ( a quem a história ainda há de fazer justiça como um dos maiores incentivadores da nossa cultura, em particular do samba) e fez o seu primeiro grande disco. Poucos anos depois, em 1975, estouraria com mais de 1 milhão de cópias do álbum "Claridade", marca inédita para uma mulher. Por tudo isso, a imagem de Clara Nunes, que é nome de rua em Madureira, segue forte no imaginário popular. Como a sereia de canção, da qual a pisada na areia, fez o mar serenar.
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