O Leão da Montanha - Dos Campos da Morte aos Campos do Jordão

    Arie Yaari

    Prolibera
    2009
    324 páginas
    10h 48m
    ISBN-13: 9788561080044
    Português Brasileiro

    “O Leão da Montanha”, de Arie Yaari, é o relato único e emocionante de um porta-voz de seis milhões de judeus assassinados no Holocausto nazista que não puderam contar ao mundo o que viveram. Nestas páginas, conhecemos a vida pobre num pequeno vilarejo judeu da Europa antes da 2ª Guerra Mundial; a experiência pessoal em meio ao inferno dos campos da morte nazistas, o exemplo de superação e otimismo, na luta pela independência do Estado de Israel e, finalmente, no Brasil, terra que escolheu como pátria amada. Arie adotou uma missão: independente de qualquer sofrimento, sempre é possível recomeçar e ser um vitorioso na vida. A fórmula? -- Nunca desista dos seus sonhos. – A resposta deste homem àqueles que assassinaram milhões de vidas humanas é a sua longa travessia dos campos da morte para os Campos do Jordão, onde construiu o Hotel Leão da Montanha, fonte de emprego e lazer para muitos. Eis a mensagem: não esquecermos as atrocidades do passado, para que não se repitam, e acreditarmos em nós mesmos para construirmos um futuro melhor, com dignidade e paz.

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    Giovani Laud03/03/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Relembrar e reviver

    O ano era 2006, acho. Estava no 6° ou 7° ano do ensino fundamental. O dia de aula seguia normal até que fomos chamados para assistir uma palestra. A escola tinha um terreno amplo a ponto de ter alguns prédios separados e uma área verde grande, com grama aparada e árvores imponentes. Foi perto desse bosque (aliás, a escola é conhecida como "Escola do Bosque" ou somente "Bosque") que havia o prédio que servia de teatro. Entramos e logo nos acomodamos nas cadeiras que esravam dispostas. Enquanto conversávamos e aguardávamos, curiosos, o que aconteceria outras turmas iam chegando. Geralmente essas palestras eram sobre conscientização contra drogas, geralmente aplicadas por algum policial evangélico aposentado. Eis que subiu no palco um senhor careca e de olhar cansado. Hoje, a ponto de fazer 30 anos, me recordo do dia em que conheci o sr. Arie Yaari e ouvi seu relato de, como judeu, sobreviveu ao holocausto nazista. Polonês nascido em 1922, teve una infância simples e pobre, porém relembrada com carinho e saudade. Muito ligado à religião, embora longe de ser alguém extremamente conservador, mal chegou na adolescência quando o antissemitismo chegou ao nível de ser impossível ignorar. Pouco depois os nazistas assumiram o poder e começaram sua expansão. Seu relato de vida envolve as idas e vindas para conseguir alimentos para a família, as formas engenhosas de conseguir dinheiro e burlar as proibições e preconceito, sempre sob risco de ser traído ou descoberto. Quando finalmente foi capturado iniciou um longo período pelo qual passaria pelo total de onze campos de trabalhos forçados e de concentração. Nestes campos contou com sua habilidade para trabalhos manuais e condição física boa para superar os turnos de quatorze horas de trabalho, muitas vezes no frio sem sequer ter luvas. Também presenciou como as pessoas, dentro de situações limites, agem de maneiras impensadas até então. É estranho pensar que dentro de um campo de prisioneiros como os que os nazistas construíram havia facções, contrabandos e trocas de favores. De fato a empatia coletiva e o egoísmo absoluto conseguem coexistir em um mesmo lugar e entre pessoas em situação idêntica umas às outras. Se voluntariando para serviços que garantiriam um prato a mais de comida e caindo nas graças de algum nazista que, prevendo o final da guerra e a derrocada do regime, queria garantir que fossem julgados de forma mais branda por ter cuidado de judeus, Arie conseguiu passar por esse período negro da história. Ao contrário do que eu pensava a parte que compreende os anos de perseguição e aprisionamento sob domínio dos nazistas compreende apenas metade do livro, a segunda metade sendo sua vida sendo reconstruída. A libertação veio pelas mãos dos soviéticos, após ele e um colega conseguirem fugir e passarem dias no sótão de um celeiro. A partir deste ponto houve uma mudança muito grande em sua vida, pois os sobreviventes dos campos de concentração passaram a ter um status grande, principalmente nos anos imediatamente após o conflito. Indo de campo de refugiados em campo de refugiados, foi reencontrando conhecidos, vizinhos e até mesmo o irmão, Moshe. Com a recente criação de Israel houve um grande interesse da população judaica para emigrar, embora houvessem muitas complicaçôes a ponto de precisarem faze-lo ilegalmente. A vida do Sr. Arie seguiu com muitas dificuldades. A ânsia de criar uma família, cujas responsabilidades ele não chegou a ponderar adequadamente. A influência do pensamento da juventude sionista do pós guerra fez ele e a esposa, já com filhos pequenos, irem para um lugar em guerra, no qual faltava comida e que ônibus e caminhões eram atacados constantemente nas estradas pelos povos árabes da região. O idealismo foi sendo desgastado pelas diversas dificuldades pelas quais passavam, em especial a hipocrisia do povo. Por fim, almejando ir para os EUA, acabaram vindo para o Brasil, a princípio apenas temporariamente. Contudo acabaram ficando e, sempre acreditando que o trabalho era indipensável para garantir o futuro da família, foi trabalhando com um pouco de tudo até, já no final da década de 70, inaugurar o hotel O Leão da Montanha, em Campos do Jordão. É um relato pessoal de uma pessoa que passou por muita coisa. Em meio às páginas encontramos seus receios e arrependimentos. A preocupação com o desaparecimento da tradição judaica é constante, assim como o medo de que os filhos, netos e bisnetos se envolvam com pessoas de fora do grupo e da religião. Reconhece que foi ausente como pai, que é um senhor idoso e ccarente de reconhecimento familiar por tudo o que conseguiu fazer em vida. Se incomoda com o desinteresse dos filhos pelo hotel e, como toda pessoa de idade, glorifica valores "de antigamente" e acha que a juventude de hoje está perdida. Gostei dessa sinceridade, pois torna o relato muito mais humano e crível, palpável. Lembro de ver em seus olhos, durante a palestra, as lágrimas ao falar de pessoas que viu morrer ou de coisas que fez, como quando carregava um panelão de sopa para os prisioneiros no momento em que o campo de concentração começou a ser bombardeado. Sem saber o que fazer, simplesmente se sentou no chão e começou a comer a sopa pensando que "se for para morrer, que seja com o estômago cheio". Outro monento muito marcante foi ouví-lo dizer o quanto se surpreendeu com um trabalhador brasileiro que ofereceu a própria marmita, que já era pouca, para ele, e como isso contribuiu para que decidisse ficar no Brasil. Li esse livro preparado emocionalmente para ficar abalado com os horrores sofridos por ele, mas me deparei com uma história de persistência e reconstrução que, sim, cheia de erros e decisões ruins, mas que deu certo no final. A última parte do livro é focada em percepções dos rumos da humanidade (foi escrito em 2005), seu medo de que tragédias semelhantes como pela qual ele passou se repitam, seu desejo de que a tolerância, respeito e riquezas fossem acessíveis por todos e, com um toque melancólico, sua certeza que o mundo ruma para seu fim e que, para sorte dele, já estava velho e não teria que passar por isso. O Sr. Arie Yaari faleceu em 2010. Tê-lo conhecido, ouvido seu relato, ter apertado sua mão agradecendo e, hoje, poder ler seu livro e revisitar essa lembrança foi algo marcante em minha vida. As partes finais mecheram comigo de uma forma triste, pois vi muito do meu avô paterno, Ademar, nos seus pensamentos e reflexões e me doeu constatar que ambos se foram e que não existe chance de poder tomar um café com eles enquanto ouço seus "causos" de vida. Seu hotel, hoje administrado por um de seus netos, segue em funcionamento e pretendo conhece-lo, afinal Campos do Jordão fica pertinho de Taubaté, onde vivo. Penso que as pessoas partem, mas sua memória segue viva em nós e, por hora, isso basta para lidar com a ausência daqueles que se foram. Talvez esse livro não signifique muito para outras pessoas, mas para mim tem um enorme valor.

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