A coisa lida se transmogrifa continuamente como que num prisma permanentemente rotacional de modo quase metabólico em sua natureza, definindo-se exatamente pela ausência das definições que não encapsula, mesmo que as revoluções prismáticas incluam no conceito tudo aquilo que ele exclui de si mesmo.
Minha resenha deveria ser escrita inteiramente numa linguagem como a contida na frase acima, para que você pudesse captar o clima do livro, mas eu atualmente não tenho estômago para despejar esse tipo de porcaria dos meus dedos e, ao final da empreitada, também não teria cérebro. Então vamos fazer isso de forma mais compreensível.
"Quando você encontra a realização da coisa cartesiana num cunlíngüe..."
Perniola fala sobre o "encontro da filosofia com a sexualidade", em frases curiosas como essa acima. (E, acredite, ela não está menos compreensível por estar fora de contexto. Na realidade, se o contexto afeta de alguma forma seu entendimento, ela está mais inteligível quando isolada.) Fala sobre o "se dar como coisa". Mas não descreve, não exemplifica, não aprofunda. Em vez disso, tece considerações morais, diferenciações e pontes filosóficas sobre e a respeito de algo que ele porca e parcamente definiu (e que fica mais incongruente e maleável a cada menção). No máximo, ele enumera algumas coisas que o conceito que ele sugere não são, o que é uma péssima - ou, no mínimo, desnecessariamente extensa - maneira de se definir qualquer coisa.
"17. Vampirismo e o sex-appeal do inorgânico"
É o título de um capítulo. A propósito, o que esse livro tem como "capítulos" são discussões das mais variadas que, quando muito, tangenciam o tema da "sexualidade neutra" que parece ser a idéia central do livro. O porquê de alguém abordar um conceito sexual ou filosófico de modo tão exageradamente oblíquo e com tanta riqueza de adjetivação parnasiana é um mistério, a menos que você considere uma das seguintes opções: a) Perniola queria lançar mais um livro e percebeu que, se ele escrevesse sobre algo prosaico de forma deliberadamente confusa, podia se passar por complexo e profundo; b) ele não tem o menor domínio da coerência na escrita e não conseguiria explicar o funcionamento de uma gangorra sem se perder em abstrações de alto nível lingüístico e perder completamente o contato com a base da realidade ou C) resolveu publicar um negócio que escreveu enquanto se masturbava no banheiro, depois de ingerir drogas.
"Eu sou o homem-ovo! Eles são o homem-ovo! Eu sou a morsa!"
Se você nunca leu o livro em questão (parabéns!), uma boa maneira de visualizá-lo é essa: um livro sobre filosofia (não uma obra filosófica - mais como um desses "Simpsons e a Filosofia" da vida), um de contos eróticos e a música I Am The Walrus batidos juntos num liqüidificador.
Para finalizar, eu devo admitir que minha resenha foi completamente desnecessária, e que qualquer leitor dela estaria melhor servido se eu apenas reproduzisse as seguintes palavras do nosso bom amigo Chomsky, tão aplicáveis a este caso: "Freqüentemente, meus olhos divagam quando eu leio discurso polissilábico nos temas de pós-modernismo e pós-estruturalismo; o que eu entendo é largamente truísmo ou erro, mas essa é só uma fração do total de palavras. É verdade que há muitas outras coisas que eu não entendo: artigos sobre as atuais questões de matemática e física, por exemplo. Mas existe aí uma diferença. Nesse último caso, eu sei como proceder de forma a entendê-los, e já o fiz, em casos de interesse especial; e eu também sei que pessoas do campo podem me explicar o conteúdo de forma a eu ganhar qualquer entendimento (parcial) que eu deseje. Em contraste, ninguém parece conseguir me explicar por que o último pós-isso e pós-aquilo é (na maior parte) algo além de truísmo, erro, ou incoerência, e eu não sei como proceder."