O que dizer de uma coletânea de contos gls, fruto de um concurso nacional no ano 2000?
Por ser resultado de um concurso, a qualidade dos contos é disparatada. Temos, por exemplo "Curta-metragem", de Rebecca Pedroso Monteiro, conto erótico com uma descrição tão boa de um fim de tarde com clima de fim de mundo, que eu me surpreendi. E em seguida "Davi e Rachel", de Abbud, um conto em que o protagonista é inverossímil em todas as suas ações, e o narrador tenta trazer uma lógica quase religiosa a um contexto que disso não tem nada; um conto todo incongruente.
Mas esse livro também é resultado de um momento específico na história da sexualidade no Brasil. Afinal, quem usa o termo "gls" hoje em dia? Gays, lésbicas e simpatizantes (incluídos nesses últimos os "bissexuais, curiosos e heterossexuais bem resolvidos", no prefácio de André Fischer).
O que se vê nessa coletânea não pode ser apartado desse início de milênio, e acredito que através desse contexto é que se pode entender, dos contos, a distância de pontos de vista em relação à própria sexualidade e às sexualidades alheias. Há contos que mostram uma aceitação inicial, que quase pedem desculpa. Outros escancaram os desejos e o amor sem medo algum.
Existem também, em alguns contos, ausências notáveis de criticidade sobre as ações chocantes de alguns personagens, como no caso de assassinatos e assédios sexuais, e fico me perguntando se isso passou despercebido pela maioria na época de publicação. Claro, não se pode pensar que o pensamento homogêneo de uma sociedade implica na inexistência de discordâncias, mas também não se pode esquecer do poder estruturante de uma cultura.
E para mim, leitora de quase três décadas depois, isso não passou despercebido.
No geral, enfim, recomendo a leitura desse livro por nos mostrar um pouco da complexidade do que estava acontecendo, em termos de ideias e criatividade, em nosso país por volta da passagem do milênio. E porque há contos aí que se destacam, sem dúvida alguma.