Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Álvaro de Campos, escreveu que todas as cartas de amor são ridículas; não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
E as histórias de amor de Robert Walser, são ridículas? Não, de modo algum, são walserianas. Algumas delas, bastante curtas, parecem poemas, isso sim. E outras se assemelham a cartas de amor.
Isso suposto, aqui são oitenta histórias (escritas entre 1904 e 1933) que podem caber em meia página ou até abranger cerca de quatro ou cinco delas, mas a maioria se contenta em ocupar uma página, uma página e meia. São histórias de amor que deram certo, não deram certo, acabaram bem, acabaram mal, duraram muito tempo ou apenas um dia, etc.
O que todas têm em comum é que por trás delas está o estilo walseriano de contá-las. Como destaca o editor português, “com alguns achados verbais insólitos [Era uma vez uma Ela e um Ele e sabe Deus quantas mais personagens secundárias...] e abundantes diminutivos [Era uma vez uma rapariga que crescia num quartinho. O quartinho era simpático, a rapariga era bonita e engraçada. A casa (...) era uma casinha. O juízo da rapariga era apenas um juizinho; o seu coração, só um coraçãozinho; a sua esperança, não mais que do que uma esperançazinha, e o seu pé, um pezinho apenas.], Walser capta aquilo que transforma a mente dos apaixonados num mundo perturbado e intenso.” Mas também há histórias que propositalmente beiram o melodrama: “(...) são irônicas imitações da literatura amorosa ou burlescas recriações dos sonhos da adolescência.”, ainda segundo o mesmo editor.
Não são apenas casais os protagonistas; há alguns triângulos amorosos e também uma cegonha e um porco-espinho que se apaixonam - e ela se distrai de sua tarefa de entregar criancinhas para suas mães. Há o vento que balança as copas das árvores, mas que é como se as folhas todas estivessem tagarelando entre si. E um dia muito bonito de céu azul pode ser assim tão belo quanto um bebê a sorrir nos braços da mãe. Enfim...
O problema é que ler todas essas histórias em seguida pode cansar um pouco o leitor (meu caso), que no final acaba achando que todas elas, com poucas exceções, são muito parecidas entre si. É o caso daquelas em que o humor, a ironia ou os achados literários se encontram presentes em doses menos generosas, fazendo com que se consiga reter na memória apenas algumas lembranças das histórias mais saborosas.
Mas é outro livro de Robert Walser que vale a pena conhecer. Mesmo que não seja tão bom quanto O Ajudante (a obra-prima de Walser), Jakob Von Gunten ou Os Irmãos Tanner.
Lido entre 05 e 11.04.2012.