Carta ao pai é um livro publicado postumamente; uma carta onde Kafka escreveu para ser entregue ao seu pai, mas que jamais foi; a mesma contém escritos dolorosos, mágoas passadas e criadas em sua infância que o acompanharam até sua morte.
Antes de continuar com a resenha eu quero deixar claro que, por mais que eu esteja classificando esse livro com 5 estrelas, eu sinto que o mesmo não deva ter tal classificação, não por não merecer, mas, por ser o que é, uma carta. Ao meu ver, poucas coisas são tão íntimas quanto uma e ao ler eu tive vários sentimentos e um deles foi o de invasão do espaço do outro.
Enfim, meu primeiro contato com a escrita do autor foi com A metamorfose, a partir daí me apaixonei pelo modo em que Kafka apresenta os sentimentos dos seus personagens para o leitor, é de uma magnitude incrível de detalhes e também a descrição de ambiente é impecável, desde então, me vejo na obrigação de ler tudo o que ele escreveu. Esse é o segundo livro que leio dele e para quem ainda não teve contato com a obra do escritor eu aconselho Carta ao meu pai como porta de entrada para o universo Kafkiano, dado que com ele será mais fácil de entender as outras obras.
Na tentativa de expor ao seu pai em uma carta as mais dolorosas lembranças que o autor tem com o mesmo, percebemos como tais foram responsáveis no amadurecimento de Kafka, fazendo com que a criança que o era se tornasse um adulto tão desacreditado de si mesmo, indeciso e frágil. Aqui também o autor deixa claro para o seu pai que os seus escritos tratavam dele, isso faz com que entendamos boa parte de seus livros, já que sempre tem uma figura autoritária nos mesmos. Ler Kafka não é uma tarefa fácil e acredito que de todos os seus escritos o mais doloroso de se ler é esta carta; com ela sentimos incompreensivelmente uma ligação com o autor que faz com que sua insegurança se torne a nossa insegurança e os seus medos se assemelhem aos nossos.
O sentimento de culpa o perseguiu por toda vida, e essa carta relata além de tudo uma certa busca pelo perdão que o pai lhe deve e mesmo sem saber o que ele fez para merecer tal apatia durante a vida, de certo modo, o escritor também busca pedir perdão, mesmo sem saber pelo o que.
Por último, vale a pena uma reflexão sobre como Kafka se sentiria se soubesse que hoje temos acesso não somente a essa carta, mas também a vários de seus escritos, uma vez que o autor pediu ao seu amigo Max Brod que queimasse todos os seus livros e cartas, e como é óbvio e para a nossa alegria, o mesmo não cumpriu o pedido do amigo. Infelizmente Kafka morreu sem saber o quão fantásticas são as suas obras e como ela vem atravessando gerações, fazendo com que a gente se enxergue em personagens tão perdidos em si mesmo onde o único caminho é encarar os medos e anseios e seguir ansiando por algo que ainda não sabemos o que é. Kafka é extraordinário.
Boa leitura!