Vivendo na base do improviso, sem dinheiro, um ex-cineasta marginal precisa rodar um vídeo institucional sobre embutidos de frango. Sem saber ao certo por onde começar, no entanto, ele acaba entrando numa espiral de sexo, bebidas e drogas. Esse é o ponto de partida do romance de Reinaldo Moraes, que escreveu um livro de excessos para a era dos excessos. Zeca, o protagonista, é um produto do nosso tempo, com seu individualismo atroz e sua busca pelo prazer imediato. Sua ambição não é grande, mas seu apetite (por orgasmos e substâncias ilícitas) beira a voracidade. Essa fome o faz mergulhar numa jornada desregrada, de proporções quase épicas, que o autor narra com um texto fluido, inquieto, sempre em movimento, como o personagem.
Pornopopéia -
Reinaldo Moraes
Romance de desformação: entre neologismos, uma provocação
O sugestivo neologismo que intitula o livro, Pornopopeia, encapsula essa epopeia pornográfica de forma simbiótica. A junção de dois conceitos aparentemente distantes, além de indicar a força motriz de um romance alucinado e movente, é a síntese da dessacralização do romance enquanto gênero promovida por Reinaldo Moraes. Como um bom romance (na acepção primeva do gênero literário), possui um herói em constante movimento, embora sem mutação. Não há heroísmo, moral, mudanças, esqueçam a formação, a cavalaria, a intriga amorosa. Esse herói é boêmio, adicto, sempre pronto para a esbórnia. José Carlos, o Zéca, é um cineasta falido, sustentado pela mulher e cunhado, viciado em sexo (putaria talvez fosse um termo mais adequado) e cocaína, diante de sua rotina deliberadamente notívaga e sem se importar com qualquer pessoa que cruze seu caminho, vai sendo inserido diante de sucessivas coincidências que o embrulham numa intriga digna de um romance policial. A história é magnetizante, e não tanto por seu conteúdo, mas pela forma como esse protagonista cínico e aproveitador, é lançado nesse redemoinho de catástrofes. Dividido em duas partes, o romance estabelece uma metalinguagem de partida. Zeca, além de personagem-protagonista, é o próprio narrador, escreve sua própria história. De cineasta marginal premiado, a roteirista de comercial de embutidos, domina o controle narrativo. Sabe disso e provoca, a nós, leitores, com seu suspense encadeado; critica Hitchcock, mas faz como ele. Eventos intrigantes são lançados e em seguida colocados em suspenso, para que continue outra história e depois retome a próxima. Esse vai e vem instigante, de histórias paralelas o presente da sua escrita, que é interrompida na busca por pó, e o que viveu no dia anterior, por exemplo , é o elã principal da primeira parte do livro. São centenas de páginas que descrevem dois longos dias (ou duas longas madrugadas?), dilatam o tempo para que aproveitemos melhor de um humor sardônico, ácido e sem papas na língua. Zeca vai além do bon-vivant, o subverte, tal como Reinaldo propõe nessa profanação da arte romanesca. Quem disse que os heróis precisam cortejar donzelas e morrerem de amor? Se o século passado enterrou isso, resta desenterrar esses preceitos e praticar necrofilia. Zeca não se masturba com uma lula empalada? É dessa forma que o romance tradicional se porta diante de tamanha experimentação linguística. Se usa da erudição, um vocabulário digno da gramática tradicional tão afeita à literatura clássica e sua altivez , para falar putaria. A segunda parte, já mais amena (no sentido do movimento frenético da primeira parte) e não menos pudorenta, parece entregar a Zeca um paraíso na terra. Esse personagem inescrupuloso merece tamanha tranquilidade? Nós, é claro, podemos nos perguntar. O avançar da segunda parte, principalmente os capítulos finais, responderão essa pergunta. Sairá incólume esse aproveitador de mulheres, amigos e desconhecidos? Pelo andar da narrativa, desde seu início repleta de coincidência estapafúrdias, você deve imaginar. Porém, lhe convido a descobrir por si próprio. Abra os olhos e principalmente os ouvidos, e embarque nessa jornada, que poderá chocar, claro, mas com certeza provocará mais gargalhadas do que asco. É esse humor desatinado, provocativo, que faz de Zeca um personagem tão contraditoriamente belo. Eis o romance moderno em constante reformação. Ao invés de buscarmos uma formação, por que não a ruptura? Ensinar o desregramento? É o que esse romance de desformação parece despertar, sem pudores, a literatura é muito mais do que formação ou ensinamento é o seu oposto também. E que deleite é viver na esbórnia da ficção e da ironia.
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