Poemas e crônicas de Millôr Fernandes.
Poemas e crônicas de Millôr Fernandes.
Lido entre 27 e 31/05/2022 Em 94 anos de premiação da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood apenas pouco mais de 10 comédias receberam o Oscar de Melhor Filme do Ano. Gosto hollywoodiano à parte, as boas comédias são raras -- mas elas existem, sim e convenhamos, é muito mais fácil fazer um espectador chorar do que rir. Também na literatura ocorre algo parecido: os livros bem-humorados ou feitos para rir, parecem não ser muito bem vistos pela crítica, então os grandes autores nacionais ou estrangeiros não se dão ao trabalho de escrevê-los, claro. W. Somerset Maughan foi muito feliz ao escrever sobre essa situação em The Glenteman in The Parlour (livro de 1930, que na tradução seria algo como O Cavalheiro no Salão), relato de viagens que fez pela Ásia em 1920, quando escreveu e aqui vai uma tradução citada de memória por Millôr Fernandes (1923-2012) em outro livro dele, Millôr no Pasquim (Círculo do Livro, s/d): Se você fizer o leitor rir ele te achará um escritor trivial. Mas se você conseguir chateá-lo devidamente sua reputação de escritor estará definitivamente garantida. Não é exatamente desse modo que as coisas se dão com todos os autores e leitores que apreciam humor na literatura, mas a situação exposta por Maughan pode ser encontrada muitas vezes na realidade. Não vou me estender muito sobre essa questão, apenas lembrar que Graciliano Ramos escreveu um livro com um personagem cômico, Histórias de Alexandre (Record, 2007), muito engraçado, mas que nunca alcançou o mesmo sucesso que suas ditas obras sérias, como Vidas Secas, Angústia, São Bernardo etc. Uma notável exceção por aqui é Campos de Carvalho -- que, ao que eu saiba, se dedicou exclusivamente ao humor em livros como A Lua Vem da Ásia, O Púcaro Búlgaro, Vaca de Nariz Sutil e A Chuva Imóvel --, autor apreciado tanto pela crítica quanto pelos leitores. Outro livro bem sucedido nesse campo foi escrito por José Cândido de Carvalho, O Coronel e o Lobisomem, romance pra lá de engraçado que retrata um personagem inesquecível -- o coronel Ponciano de Azeredo Furtado -- na passagem da economia rural açucareira do norte fluminense para a industrialização. Bem, há o ditado popular que diz que Rindo castigamos os costumes (do latim Ridendo castigat mores), que diz muita coisa sobre o riso, explicita sua função social, digamos assim. Também há um livro, O Riso, do pensador francês Henri Bergson que explica infinitamente melhor a importância desse nosso reflexo, mas em situações cômicas produzidas, caso de livros, poemas, peças de teatro etc. O que eu queria mesmo é destacar o trabalho de Millôr Fernandes e a releitura de Papáverum Millôr. O livro foi publicado originalmente pela Nórdica (1974), mas a edição que reli é a do Círculo do Livro (sem data). O título significaria um tipo de papoula -- cientificamente uma planta da família das papaveráceas , uma espécie específica, que teria origem no próprio autor. A explicação para essa brincadeira está num dos primeiros poemas do livro, Poeminha Última Vontade (1962), em que Millôr pedia para que, quando morresse, seu corpo fosse enterrado em qualquer lugar, menos num cemitério. De preferência na mata, de onde prometia não sair, lá ficar: Até que um dia, de mim caia a semente / De onde há de brotar a flor / Que eu peço que se chame / Papáverum Millôr. Antes de sonhar em virar papoula Millôr explica que a maior parte dos inúmeros poemas cômicos do livro poeminhas, como ele preferia não tem qualquer pretensão e emenda: Uma meia dúzia tem alguma pretensão. Dois ou três são extremamente pretensiosos. Não sei quais são esses dois ou três, mas há de tudo aqui, desde uma ode à margarina até uma paródia do célebre poema (sério) de Paulo Mendes Campos (o chamado poeta da solidão), Um Homem Pobre, que parodiado virou Um Homem Rico e toma cinco páginas do livro. Porque se ocupasse apenas uma ou duas não demonstraria riqueza, mas isso é por minha conta agora. Um pequeno trecho: As suas pernas / Serão colunas / Jônicas, dórias / Com rolimãs / Para que as juntas / Jamais emperrem. / Deve ter braços / Cheios de abraços, / Cabeça nua, escorregadia. / Palavra quente, / Bunda bem fria. E já que se falou em homem rico, partamos para outro poeminha, que dialoga com esse, Wall Street (1953), que imita uma tradicional cantiga de roda e faz parte de um poema maior, que Millôr chamou de Versinhos Didáticos: Nesta rua, nesta rua, / Tem um banco / Que se chama, que se chama / Cotação. / Dentro dele, dentro dele / Tem um lobo / Que se chama, que se chama / Tubarão. Isso muito antes de O Lobo de Wall Street, livro e filme, hein? E por aí a coisa vai até o final. Há poeminhas de apenas três linhas e outros ocupando duas, três, quatro páginas. Alguns homenageiam amigos do próprio autor, dos tempos do semanário Pasquim e de antes, como Ziraldo, Fortuna, Jaguar, outros podem ter Shakespeare como inspiração, autor que Millôr traduziu para o português, caso de Hamlet, outros mais. Alguns poeminhas são bastante engraçados, outros nem tanto: foram escritos para provocar reflexão ou mesmo para que se admire sua construção, palavra por palavra. Vou (quase) terminando com um que achei curioso, bastante engraçado desde o título, Luta de Classes (1949): Estava o rei lavando os pratos / Depois de enxugar os garfos. / A rainha dava tratos aos móveis / Vasculhava a sala, a copa e o salão / Deixando aos principezinhos a tarefa / De encerar o chão / Enquanto a criada na varanda / Deitada numa rede de fina contextura / Lia um livro de aventura / Quando entrou um rei vizinho / De um reinado bem maior / E bem baixinho, bem baixinho / Ofereceu à criada / Um emprego melhor. Esse mundo da (ir)realeza seria uma maravilha, comparado ao nosso, cheio de pesadelos diários: enchentes, deslizamentos de encostas, devastação florestal, dengue, zika, chikungunya, quadrilhas do PIX, assaltantes assassinos em motos, seres asquerosos como Vladimir Putin, Bolsonaro, Lula, Gilmar Mendes, inflação, juros estratosféricos... Então vem aquela vontade de mandar tudo pra PQP e entrar numa floresta acolhedora para procurar as papoulas nascidas dos poeminhas desse gênio que se chamaria Milton se a caligrafia rebuscada de um tabelião carioca não o tornasse Millôr -- o corte do t virou o acento circunflexo do o. Millôr Fernandes desde 1923 e para sempre.

Desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro. Conquistou notoriedade por suas colunas de humor gráfico em diversas publicações, valendo-se da ironia e sátira para criticar o poder e as forças dominantes.
